Em magia, o terceiro passo refere-se à parte do truque em que a ilusão é produzida. A vida chegou ao terceiro passo. A ilusão, aparentemente, completou-se. O Terceiro Passo está agora fora de portas. À procura de novas ilusões para completar... Mais uma moedinha, mais uma voltinha.
Questão...
Álvaro de Campos
in Passagem das Horas
O Sal da Língua - Eugénio de Andrade
Um pouco mais de poesia
"Porque o único sentido oculto
das coisas
É elas não terem sentido
oculto nenhum."
Alberto Caeiro
O Guardador de Rebanhos
Ternura
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"
(E, já agora, fica uma ;) ao meu pequenino)
Fernando Pessoa V
"És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!"
in Cancioneiro
Uma mensagem particular para todos aqueles que têm dúvidas...
Silêncios ecoam na vastidão da penumbra
Aqui fica mais um poema da minha autoria.
Silêncios ecoam na vastidão da penumbra.
Ruídos irrompem das sombras,
Sustendo…
O vento tenta alcançar-me,
Mas estou segura…
A noite se agita numa dança frenética,
Quer mais, anseia pelo dia.
Mas a luz tarda.
E a noite continua o seu ritual…
Tudo é manso,
A calma reina na agitação do rito,
E as bátegas que ouçam
Não mais são que ecos, ritmos
Da noite fugidia…
O cansaço toma-me,
Mas os ecos vibram em mim,
Cada vez mais fortes,
O ritmo acelerado…
Parou.
A mansidão apodera-se do meu ser,
Consigo senti-la, invadindo-me…
Preparo-me…
Já não sou eu.
Fernando Pessoa IV
pequena
Que aqui na minha casa no
cimo deste outeiro."
Alberto Caeiro
O Guardador de rebanhos
A espera
A espera
O relógio indica que o tempo passa.
Irremediavelmente.
O fim do dia espera-nos,
na correria das gentes.
Os longos percursos
encurtam-se nos ponteiros desse relógio,
incessante.
A ânsia que aumenta
e diminui,
sem que nada aconteça.
De repente,
ilumina-se o olhar.
A esperança retorna,
a espera terminou!
Lá fora,
o céu escurece…
a noite cai por fim.
Os olhares não se entrecruzam,
as vidas seguem
solitárias.
Rumo à vida.
Apressadas.
Com vista ao fim da espera,
ao descanso desejado.
(15-05-2006)
Fernando Pessoa III
"Sinto que sou ninguém salvo
uma sombra
De um vulto que não vejo e que
me assombra."
in Cancioneiro
Fernando Pessoa II
"Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida..."
Álvaro de Campos
E já agora....
Dezembro em Cinfães
As nuvens no céu,
escuro,
anunciam a noite.
E ainda é tão cedo!
As tílias,
umas despidas,
outras ainda com o seu manto amarelo,
preparam-se para o frio.
Os automóveis vão passando,
nesta… pequena vila,
risco-ao-meio (como diz o pai),
que vai tornando-se maior
e maior (aos meus olhos, parece-me…).
Então,
nestes dias,
parece-me tão movimentada!
“É a azáfama do Natal.”
Deve ser.
Gosto deste Outono,
a pedir o Inverno.
Este frio que seca a humidade do chão,
num instante.
O Outono da vinha-virgem
escarlate,
que já não existe.
As memórias ternas
da infância,
ainda tão presente,
apesar deste corpo adulto…
Não há como renegar
este apelo,
tão forte – lar,
este é o meu lar.
(06-12-2006)
Aniversário II
"Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece."
Já não é original em mim (é um soneto que partilho com frequência) mas aqui fica hoje, especialmente, para o meu "mano" Rui.
Cesário no Metro
Aqui fica.
"Se eu não morresse nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!"
Não era bom que todos o conseguíssemos?...