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Questão...

"Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim."

Álvaro de Campos
in Passagem das Horas

O Sal da Língua - Eugénio de Andrade

Resolvi dar uma vista de olhos a um livro lindo que me foi oferecido há uns anos pelo meu padrinho, e que é uma antologia poética de Eugénio de Andrade. Nele encontrei este poema fantástico, que aqui partilho com vocês.


O Sal da Língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

in O Sal da Língua
Eugénio de Andrade

Um pouco mais de poesia

Este poema é mesmo dedicado a mim, euzinha da Silva, para ver se me convenço de uma vez por todas!

"Porque o único sentido oculto
das coisas
É elas não terem sentido
oculto nenhum."

Alberto Caeiro
O Guardador de Rebanhos

Ternura

Sim, sou distraída. E só agora me apercebi que ontem foi o Dia Mundial da Poesia. Sinto-me culpada por não ter assinalado convenientemente o dia, mas vou tentar remediar ao deixar aqui um dos meus poemas favoritos (alguns de vocês, se calhar, já conhecem).



Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"


(E, já agora, fica uma ;) ao meu pequenino)

Fernando Pessoa V

Como já devem ter percebido, gosto mesmo muito de Fernando Pessoa.
Não sei se já vos tinha dito, também, que, cada vez que ligo o computador, ele abre com citações do poeta. Por vezes, calham-me verdadeiras pérolas, como aquela de hoje, que partilho aqui com vocês.

"És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!"

in Cancioneiro

Uma mensagem particular para todos aqueles que têm dúvidas...

Silêncios ecoam na vastidão da penumbra

Aqui fica mais um poema da minha autoria.

Silêncios ecoam na vastidão da penumbra.
Ruídos irrompem das sombras,
Sustendo…
O vento tenta alcançar-me,
Mas estou segura…
A noite se agita numa dança frenética,
Quer mais, anseia pelo dia.
Mas a luz tarda.
E a noite continua o seu ritual…
Tudo é manso,
A calma reina na agitação do rito,
E as bátegas que ouçam
Não mais são que ecos, ritmos
Da noite fugidia…
O cansaço toma-me,
Mas os ecos vibram em mim,
Cada vez mais fortes,
O ritmo acelerado…
Parou.
A mansidão apodera-se do meu ser,
Consigo senti-la, invadindo-me…
Preparo-me…
Já não sou eu.

Fernando Pessoa IV

"Nas cidades a vida é mais
pequena
Que aqui na minha casa no
cimo deste outeiro."

Alberto Caeiro
O Guardador de rebanhos

A espera

Aqui fica mais um poema da minha autoria. Espero que gostem.

A espera

O relógio indica que o tempo passa.
Irremediavelmente.
O fim do dia espera-nos,
na correria das gentes.

Os longos percursos
encurtam-se nos ponteiros desse relógio,
incessante.
A ânsia que aumenta
e diminui,
sem que nada aconteça.

De repente,
ilumina-se o olhar.
A esperança retorna,
a espera terminou!

Lá fora,
o céu escurece…
a noite cai por fim.
Os olhares não se entrecruzam,
as vidas seguem
solitárias.
Rumo à vida.
Apressadas.
Com vista ao fim da espera,
ao descanso desejado.

(15-05-2006)

Fernando Pessoa III


"Sinto que sou ninguém salvo
uma sombra
De um vulto que não vejo e que
me assombra."

in Cancioneiro

Fernando Pessoa II


"Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida..."

Álvaro de Campos

E já agora....

Aqui fica um poema, a propósito de Casa, da minha autoria. Até porque Dezembro está quase aí...


Dezembro em Cinfães

As nuvens no céu,
escuro,
anunciam a noite.
E ainda é tão cedo!
As tílias,
umas despidas,
outras ainda com o seu manto amarelo,
preparam-se para o frio.
Os automóveis vão passando,
nesta… pequena vila,
risco-ao-meio (como diz o pai),
que vai tornando-se maior
e maior (aos meus olhos, parece-me…).
Então,
nestes dias,
parece-me tão movimentada!
“É a azáfama do Natal.”
Deve ser.
Gosto deste Outono,
a pedir o Inverno.
Este frio que seca a humidade do chão,
num instante.
O Outono da vinha-virgem
escarlate,
que já não existe.
As memórias ternas
da infância,
ainda tão presente,
apesar deste corpo adulto…
Não há como renegar
este apelo,
tão forte – lar,
este é o meu lar.

(06-12-2006)

Aniversário II

Soneto de aniversário - Vinicius de Moraes

"Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece."

Já não é original em mim (é um soneto que partilho com frequência) mas aqui fica hoje, especialmente, para o meu "mano" Rui.

Cesário no Metro

Já ontem tinha reparado, mas não tive tempo para tomar nota. Na decoração da estação de metro da Cidade Universitária (aquela onde termino a minha viagem todos os dias), surge uma citação de Cesário Verde. É bom ter estas surpresas enquanto se vai, lentamente, caindo na alienação criada pela multidão fervilhante...
Aqui fica.

"Se eu não morresse nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas!"

Não era bom que todos o conseguíssemos?...