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Pequenas histórias de vidas infames

https://pictures.abebooks.com/isbn/9780312421540-uk-300.jpgTêm sido bons dias para leitura. As férias assim o proporcionam, o que me deixa muito feliz.
Acabei de ler um outro livro de contos, cuja leitura havia começado há já algum tempo, muito diferentes daqueles que mencionei na minha última nota.
Este livro, cujo título Pequenas Infâmias de alguma forma lança algum mistério em relação ao seu conteúdo, é uma obra do escritor grego Panos Karnezis e foi-me oferecido pelos meus amigos gregos (como fará algum sentido).
As histórias, essas, são muito engraçadas e giram sempre à volta de uma pequena vila algures perdida no bucolismo grego. Não é de imediato que se percebe que as histórias estão interligadas, mas há momentos de sobreposições bastante óbvias que tornam toda a obra bastante interessante de ler. Por norma abordam universos caricatos, personagens tipicamente perdidas numa imaginação de outras eras. Soa a antigo, muito embora seja uma obra recente de um autor ainda jovem. O que, mais uma vez, é um ponto de interesse. Não sei se há tradução em Português, mas se sim, dêem uma vista de olhos. Vale a pena.

Das pertenças


Um dos títulos mais sugestivos que li até hoje. No one belongs here more than you. Ninguém pertence a este sítio mais do que tu.
Acima de tudo, irónico. Não me sinto pertencer de todo a esta realidade. Mas falemos do livro. Presente de aniversário abandonado na minha secretária, deixou-me confusa por uns momentos. Mensagem subliminar? Livro de contos, histórias pequenas (ou nem tanto) de conteúdo diversificado, mas talvez com um ponto em comum - a estranheza das suas personagens. Pertencem? Não pertencem? Ninguém pertence aqui mais do que elas. Portanto, para mim, essa é a mensagem do livro. A pertença é uma falsa questão e nada tem a ver com os trâmites sociais em que nos inserimos. É, provavelmente, uma questão de atitude. E, talvez por isso, haja pessoas que não pertencem a lado algum. Como este sentimento que me assombra.
O livro, esse, é muito interessante. Provocador. Feminino. Pertence em definitivo a este blogue.

Maria Iordanidou - Loxandra

O último livro que li foi-me oferecido pela minha antiga companheira de casa e é, aparentemente, um clássico da literatura grega do século XX.  Que ela, enquanto grega, quis partilhar comigo. O que teve que ser feito através de uma edição em francês uma vez que, também aparentemente, não existem edições em inglês (e parece-me que em português também não). Uma boa desculpa para matar saudades da língua francesa.
O livro conta, como seria de esperar, a história de Loxandra, nascida e criada em Istambul numa altura em que ainda não existia essa designação. Seguindo a vida de Loxandra em toda a sua extensão, este livro é, ao mesmo tempo, uma ode ao poder matriarcal e uma lição da história do final no século XIX naquela parte do mundo. 
Com um forte ênfase nas relações familiares e na sua dinâmica, Loxandra é também uma homenagem à cultura (nomeadamente gastronómica) grega. Não faltam descrições pormenorizadas de refeições típicas gregas, difíceis de ler em alturas de maior apetite!
Assim, sob a ideia relativamente simples de contar a história da vida de uma mulher em Istambul, encontra-se um relato muito rico e que nos ensina muito sobre a sociedade daquele tempo e a cultura de um povo. Foi um leitura sem dúvida interessante e estimulante, a qual espero que me tenha posto de novo no bom caminho da leitura. De volta a bons hábitos. 

Gaston Dorren - Lingo

O último livro que li foi este Lingo, de Gaston Dorren, autor holandês (ao que consegui apurar). O autor, linguista, jornalista e, principalmente, poliglota, escreveu este livro que se auto-intitula como um guia das línguas faladas na Europa.
Quando vi este livro na Waterstones, o interesse foi imediato. Fascina-me a linguagem, seja em que língua for. Fascina-me principalmente perceber um bocadinho mais da sua evolução, o porquê de diferentes países falarem línguas diferentes, e a influência que essas línguas têm da história e geografia do país. Assim, esta foi quase a leitura perfeita. Interessante, curiosa, cheia de exemplos engraçados, desta leitura ficou apenas a vontade de saber mais porque, ao fim e ao cabo, a abordagem acaba por ser um pouco superficial para poder cobrir todas a línguas europeias (que descobri serem muito mais do que eu anteriormente imaginava).
Posso contar-vos um bocadinho do que podem encontrar neste livro, algo que é mencionado no capítulo dedicado ao Português. Fiquei a saber que, em Português, substituímos tendencialmente o pl do latim por ch. Como plumbum e chumbo. Ou pluvia e chuva. Porquê, não sei. Mas que isto das línguas é interessante, não haja dúvida.

Clara Royer - Csillag

Este é um livro especial. Foi-me oferecido por um amigo muito querido, por altura do Natal. E é especial porque foi escrito por uma pessoa muito especial para ele. Há aqui uma certa circularidade de argumento, mas é importante explicar como o livro veio parár às minhas mãos e qual eram as minhas expectativas antes de o ler.
A história é bastante interessante: Ethel, jovem ilustradora, vê nos arquivos do amigo Côme sobre crianças deslocadas durante a 2ª Guerra Mundial uma fotografia da sua avó. Até aqui nada de especial (talvez), a não ser pelo facto de a criança na fotografia usar uma cruz ao pescoço. E a avó de Ethel ser judia, e ter transmitido à filha e à neta a sua cultura religiosa. Ethel sente-se de alguma forma traída pela descoberta, e decide tentar perceber o que está por detrás daquela fotografia, a verdadeira história da sua avó (que, ainda viva, sucumbiu à amnésia do Alzheimer).
O livro é muito interessante (aparentemente baseado em acontecimentos da vida da autora Clara) e está definitivamente bem escrito (apesar de ter uma linguagem por vezes desnecessariamente rebuscada; li o  livro na versão original, em francês, e embora não tenha sentido dificuldades, percebo que a linguagem utilizada não é a mais comum). Acaba quase por ser uma história de mistério, de investigação à volta de factos desconhecidos. Tentar juntar informação suficiente para encontrar o sentido de uma fotografia. Que consigo carrega o sentido de várias vidas.
Muito interessante, sem dúvida, e teve ainda a mais-valia de me pôr a ler com gosto, com avidez. 

Será que cumpro a resolução de ler um livro por mês este ano?...

Chimamanda Ngozi Adichie - Americanah

Depois de Mia Couto veio Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana de quem li anteriormente Half Of a Yellow Sun. Livro que adorei, por sinal. Este Americanah, o seu mais recente livro, é um bocado diferente. Mantêm-se, algo naturalmente, as raízes nigerianas bem no centro da história, mas neste caso estamos num período de tempo mais recente. Ifemelu é uma jovem nigeriana que se vê obrigada a emigrar para os Estados Unidos de modo a poder continuar a sua educação universitária. Na Nigéria deixa Obinze, seu grande amor de juventude. A vida nos Estados Unidos será, no entanto, bem longe do ansiado sonho da terra das oportunidades - e é esse evoluir da história que nós, leitores, vamos seguindo. Seguimos Ifemelu e Obinze, paralelamente. Andamos um pouco para trás e para a frente. Com a certeza que haverá um reencontro, mas sem perceber em que circunstâncias.
Assim resumindo, é capaz de parecer um romancezinho inconsequente. Mas não é. Do meu ponto de vista (de emigrante, obviamente), a história é precisamente sobre o desfasamento de realidades quando se vai viver para um país que não é o nosso. O que se aprende, o que se perde. As dificuldades, como se processa o dia-a-dia, como a pouco e pouco, eventualmente, nos vamos adaptando (habituando?) à nova realidade. Tudo isso tem custos, deixa marcas. Talvez por isso tenha gostado muito do livro, o qual li avidamente. Devido ao sentimento de pertença nessas questões. Países diferentes, culturas diferentes, contextos diferentes. Mas, no fundo, há questões completamente transversais nesta coisa de emigrar. Sempre com a esperança de uma vida melhor (o que quer que isso queira dizer).

Mia Couto - O outro pé da sereia

Para não variar, lá estou eu atrasadíssima na escrita deste blogue... ainda não é desta que os dias se tornaram melhores. Mas aqui vamos, desta vez para falar do último livro que li. Já lá vão umas semanas, mas a verdade é que ainda não comecei a ler mais nada. Também essa parte não está famosa.
Este livro do Mia Couto, um dos meus autores favoritos, é um pouco diferente daquilo que dele li anteriormente. A acção tem dois tempos diferentes: um mais no presente (2000 e picos) e outro por alturas pós-Descobrimentos. No entanto, os dois tempos da acção estão intimamente ligados, pelo que por vezes se perde um bocado a sua noção. 

E pronto, já lá vão (mais) umas semanas desde que comecei a escrever este post, sem que o tivesse terminado. Entretanto já li mais um livro, e tenho que confessar que a memória deste ficou um pouco para trás. O que posso dizer é que gosto muito do Mia Couto, mas este não é o meu livro favorito dele. Nem de longe, nem de perto. O livro é interessante e está bem escrito, mas não me passa a emoção a que estou acostumada com os livros dele. Falta-lhe uma certa profundidade, por assim dizer.
E assim, desta forma um pouco abrupta, fica a minha crítica ao livro. Sei que não é bem o que costumo fazer, mas é preciso seguir em frente.

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto

Veio pelo correio, prenda de aniversário antes de tempo. Mas eu portei-me bem e só abri no dia. Este "Dentro do Segredo" de José Luís Peixoto é o relato que o escritor fez da sua viagem à Coreia do Norte, em 2012, e foi-me oferecido pela minha cousinette querida.
Vinha recomendado, por isso interesse redobrado. E não, não me desiludiu. Nunca anteriormente tinha lido aquilo que se apelida de literatura de viagens. Por isso, não conheço os estilos (se é que os há). Mas gostei particularmente deste, porque é muito simples e real. Quase como que um diário de viagem, que inclui não só as descrições das ditas cujas, mas também as expectativas e opiniões do autor. Tratando-se da Coreia do Norte, foi tudo uma grande novidade. Assim, cumpriu-se também algo que gosto nestas coisas de ler, que é aprender (ou aumentar o meu conhecimento sobre um assunto em particular). Fiquei frequentemente impressionada pelos relatos. Aliás, por muitas vezes me esqueci que o que lia não era ficção, mas realidade - uma realidade longínqua, mas que nem por isso é menos real. É assombroso aperceber-me que hoje em dia, nos tempos da globalização e do big brother que tudo sabe e tudo vê, existem sociedades completamente alienadas, como que paradas num tempo que já passou.
Gostei muito. Gostei de aprender. Gostei de abrir os meus horizontes em relação a algo que não conhecia e sobre o qual nunca verdadeiramente me interessei. Gostei da perspectivação que me permitiu. Obrigada, minha prima, pelo presente. 

Beautiful Ruins - Jess Walter

É bom regressar às leituras ávidas. Por um (longo) momento, pensei ter perdido essa capacidade. Aparentemente, não. Tenha sido o livro, a minha disposição/disponibilidade, ou a inspiração de uma cidade - Berlim. Ou talvez uma mistura de tudo isso. Certo é que foi uma semana de muita leitura, em comboios, aviões, camas e sofás. Qualquer sítio é um bom sítio. Mas deixemo-nos de coisas e vamos à história.
Beautiful Ruins é um romance sobre a indústria cinematográfica e os seus meandros. Mas também é, e talvez mais relevante, um livro sobre ambições e expectativas, sobre como se constrói uma persona e se vive através dela. No passado como hoje em dia, nomeadamente através de alter-egos criados nas redes sociais (esta última parte é um pouco extrapolada, não há qualquer referência directa). Continuando. A história de Beautiful Ruins toma parte em diversos períodos de tempo, entre o ano de 1962 e os nossos dias, seguindo personagens cujas vidas se interligam durante esses diferentes períodos, estando sempre, de uma forma ou outra, ligadas ao cinema.
Em 1962 temos uma jovem actriz americana a chegar a uma terriola recôndita do litoral italiano e a pôr tudo em reboliço. Nos dias de hoje temos um produtor decadente, a sua assistente em crise existencial e um jovem escritor que começa a perceber que é uma fraude. E sim, está tudo interligado e a acção vai saltando de sítio em sítio, de tempo em tempo - talvez com isso conseguindo manter aguçado o interesse do leitor.
Gostei muito, como dará para perceber pela rapidez da leitura. Mas não foi só pelo interesse da história ou pela forma como é contada. Foi também por haver uma mensagem de redenção, de reflexão emocional, nomeadamente sobre o que nos é importante e sobre a forma como "ambicionamos" viver as nossas vidas.
Há uma frase de que gostei particularmente: "This is what happens when you live in dreams, he thought: you dream this and you dream that and you sleep right through your life."
Deve ser por causa disso que tenho insónias.

Phantom - Jo Nesbo

Mais um livro de Jo Nesbo. Quase a completar a colecção, só me falta mesmo o livro mais recente, Police. Mas esse ainda só saiu em capa dura, por isso ainda não tenho. Não gosto muito desse formato, para além de ser mais caro. 
Já comentei que é algo evidente a evolução na escrita de Nesbo ao longo da saga Harry Hole. Não querendo com isso dizer que ele escreve melhor agora, mas a capacidade de criar um enredo e manter o suspense até ao fim foi melhorando de livro para livro. E este Phantom é realmente muito bom nisso. A história, que segue o regresso de Harry de Hong Kong a Oslo, envolve as redes de tráfico de droga da cidade e o assassínio de Gusto Hanssen, um toxicodependente/traficante. É um livro longo, a história intricada, com muitos pormenores. Eu, que aparentemente sou uma pessoa fácil de surpreender, fiquei um pouco espantada com o final. Até porque é um "to be continued", o que me deixa muito curiosa para ler o próximo livro. Mal posso esperar.

Nemesis - Jo Nesbo

Como seria de prever, o regresso a livros policiais, particularmente tratando-se de uma obra de Jo Nesbo (mais de um ano depois), quebrou o enguiço das leituras prolongadas. Parece ser uma receita de sucesso, sem lugar para falhas. Duas semanas bastaram para devorar as 700 páginas de Nemesis, capítulo quatro da saga Harry Hole. Desta vez, o carismático investigador da polícia vê-se a braços com uma morte ocorrida durante um assalto a um banco. Claro que o crime tem ramificações inesperadas e mantém o suspense quase até ao fim, mas tenho que confessar que desta vez já não achei tão interessante como é costume. Talvez seja por ter começado a ler esta saga pelos capítulos mais recentes, as obras anteriores parecem-me um pouco naïves em determinados pormenores... Talvez um dia tenha tempo e vontade para ler os livros todos pela ordem certa. Mas, para já, continuo numa espécie de leitura hop-on hop-off. Viagem turística pela obra de Jo Nesbo. :)

Berlin 1961 - Frederick Kempe

Novamente, demorei cerca de 3 meses para ler um livro. Não houve falta de interesse, quanto muito houve falta de tempo...
Berlin 1961 foi dos livros mais interessantes que já li. E há várias razões para isso. Primeiro (e talvez a razão mais importante), pelo tema - o livro concentra-se nos acontecimentos políticos de 1961 que levaram à construção do muro de Berlim. E este é um dos temas histórico-políticos que mais desperta o meu interesse, talvez pelo facto da queda do muro ser o primeiro acontecimento histórico do qual tenho memória (tinha 7 anos no ido ano de 1989). Mas também pelas marcas que o muro deixou, não só em Berlim, como em toda a Alemanha e também na Europa. Na minha cabeça, e até ler este livro, era um acontecimento sem explicação - um muro a dividir uma cidade a meio. Porquê?

Logo por aqui, podem perceber que a motivação para ler este livro era muita. E muito aprendi ao lê-lo. Como por exemplo, que a construção do muro não foi uma inevitabilidade, como Kennedy provavelmente achou (o presidente americano chegou a dizer que comparativamente à alternativa - guerra nuclear - um muro em Berlim foi uma solução pacífica). Mas mais provavelmente o fruto das personalidades de Khrushchev e Kennedy em conflito. Principalmente, fica a ideia que há acontecimentos mundiais que são quase fortuitos. Aleatórios. Joga-se a vida de gerações de pessoas sem praticamente medir consequências. Aconteceu na altura, como acontece hoje em dia. E continuará a acontecer. Mas vale a pena perceber porque e como se chega a tais situações. Por isso, não posso recomendar mais vivamente a leitura deste livro. Creio que está escrito de forma bastante neutra, por um filho de pais alemães nascido nos Estados Unidos da América, para sempre marcado pelas consequências da Guerra Fria.

Porque a alienação não é forma de vida.

The hundred-year-old man who climbed out of the window and disappeared - Jonas Jonasson

4 meses. Foi esse o tempo que me levou a ler este livro. Comecei no ido mês de Outubro, depois de ter voltado de Portugal. Comprei-o porque achei que tinha um título sugestivo. Chamou-me a atenção (às vezes, é assim que acontece). No entanto, quando o comecei a ler, não consegui sentir-me motivada pela história de Allan Karlsson, que no dia em que completa 100 anos se resolve pôr em fuga do lar onde vive. Há todo um desenrolar de peripécias que, pura e simplesmente, não estava a fazer sentido na minha cabeça. Não conseguia perceber qual o objectivo. Passei semanas a engonhar, praticamente sem pegar no livro. Até que, há cerca de duas semanas atrás, resolvi que tinha que resolver o assunto. E, de repente, foi como se tivesse lançado um novo olhar ao livro e a motivação apareceu. A história de vida de Allan Karlsson, que vai entrelaçando o "presente", percorre todos os maiores eventos históricos do século XX - com Allan a participar activamente em todos eles! Assim, para além do entretenimento, temos também umas lições históricas pelo meio, colocadas de forma despreocupada e divertida. Quando finalmente percebi este pequeno "pormenor" do livro, passei a gostar muito mais e, no final, foi um livro que gostei bastante de ler.

The Red House - Mark Haddon

Nada como um livro interessante para nos pôr a ler como se não houvesse amanhã. Muitos de vocês conhecerão com certeza essa sensação. Cada vez que me acontece semelhante coisa, continuo a ficar extremamente feliz (porque uma boa leitura é algo que me faz feliz). E foi exactamente o que aconteceu com este livro de Mark Haddon, The Red House. 
Tenho que ser verdadeira e admitir que, no início, não foi exactamente assim. O livro, que descreve uma semana de férias no campo de um casal de irmãos e respectivas famílias, tem um início lento. Daqueles em que não se percebe muito bem para onde a história vai evoluir... Mas acaba por nos contar isso mesmo: como duas famílias que nada têm a ver uma com a outra se relacionam na partilha de um mesmo espaço e tempo durante uma semana de férias em comum. Consigo perceber que, para muitos de vós, esta talvez não seja uma premissa deveras interessante... Para mim, que aprecio uma boa história sobre pessoas/famílias disfuncionais, é escrito à medida. Porque aprendo sempre alguma coisa, quanto mais não seja a olhar mais atentamente para as pessoas à minha volta. E, com um bocadinho de sorte, talvez aprenda também a entendê-las melhor. Talvez venha daí o meu fascínio por este tipo de histórias. Ou talvez seja apenas o reflexo de todos termos, dentro de nós e à nossa volta, resquícios dessa disfuncionalidade... Não sei.

* Este livro foi um dos primeiros dois que comprei em Londres. Os primeiros de muitos, se tudo correr bem. :)

Sweet Tooth - Ian McEwan

Em trânsito pelo aeroporto de Colónia, sem nada para fazer e na perspectiva de mais um voo de 3 horas até Lisboa, resolvi-me a espreitar os livros que por lá andavam, numa das milhentas lojas que povoam o dito cujo. Chamou-me a atenção o mais recente livro de Ian McEwan, Sweet Tooth, o qual trouxe comigo. E aí começou mais uma leitura ávida, como é costume quando o livro é interessante e a cabeça está suficientemente em paz para poder assimilar a informação extra.
Estamos em plena Guerra Fria. A heroína desta história, Serena, é uma miúda oriunda do interior de Inglaterra, ansiosa por viver uma vida de glamour. Esse desejo leva-a a integrar o MI5, mas só no momento em que lhe é dada a missão Sweet Tooth é que Serena começa realmente a viver o seu "sonho" - tem que escolher um jovem escritor promissor cuja ideologia seja conveniente a um apoio velado do MI5 (e reportar as suas actividades, claro está). O desenvolvimento de uma relação pessoal entre Serena e o dito escritor irá pôr em causa a identidade de Serena e colocá-la numa situação difícil de gerir...
É um livro bem escrito, ou não se esperasse outra coisa de Ian McEwan. O seu estilo consegue ser tão variado que por vezes tenho dificuldade em reconhecê-lo. Mas é bom ler a obra de um escritor que, aparentemente, arranja inspiração em assuntos tão díspares. Refrescante, no mínimo. E talvez encontre nos finais inesperados a "imagem de marca" dele. Porque aqui temos outro, com certeza.

L'étranger - Albert Camus

Com a minha mudança para um país estrangeiro (ainda Berlim e a Alemanha), achei que seria interessante reler uma das obras emblemáticas de um dos meus escritores favoritos. Refiro-me a "L'étranger" de Albert Camus - achei que fazia algum sentido. Não que o estrangeiro deste livro se refira a nacionalidades...
Como já provavelmente leram por aqui, gosto muito da escrita de Camus. Há algo na luz da sua escrita que me fascina. Por isso, foi muito bom voltar a ela. Como também foi muito bom voltar às leituras em francês (faz-me uma certa falta, essa língua). A leitura foi a duas velocidades: primeiro lenta, depois num ápice. É uma história estranha, esta do estrangeiro. Um homem que é estranho ao mundo, à sociedade e suas convenções, um homem que não pertence. 
Não posso dizer que me identifique com a história. Claro que não. Mas por vezes sinto esse desfasamento. Esse sentimento de não fazer parte, de ser estranha ao mundo que me rodeia... Nesse aspecto, sinto que esta história faz algum sentido. E é sempre um prazer (re)ler Camus. À bientôt.

E os hipopótamos cozeram nos seus tanques - William S. Burroughs & Jack Kerouac

Último livro que comprei antes de vir para Berlim. E sim, é verdade, regressámos aos Beat. Se calhar, até tenho algum tipo de fascínio por estes escritores...
Este livro tem um contexto importante e interessante, que eu desconhecia até o ler. Antes do desabrochar, propriamente, da Geração Beat, da qual Kerouac, Burroughs e Allen Ginsberg representam os nomes maiores, houve um acontecimento trágico que marcou, provavelmente, o desenrolar da história (minúscula ou maiúscula?...) - a morte de David Kammerer às mãos do jovem Lucien Carr, eles que protagonizavam uma relação excessiva, bem ao jeito dos Beat. E é precisamente a este acontecimento que Kerouac e Burroughs vão buscar a sua inspiração para escrever "E os hipopótamos cozeram nos seus tanques" a duas mãos, livro este que ficou perdido para publicação durante mais de 60 anos e que chegou, neste ano de 2013, a Portugal.
A escrita a duas mãos é bastante interessante porque nos vai dando duas visões distintas dos mesmos acontecimentos. Claro que o livro é, de determinada forma, autobiográfico, porque cada um dos autores conta a história consoante a viu e viveu. Mas claro que também há muito de ficcional nesta escrita. O leitor fica, assim, como que no meio da ponte, entre realidade e ficção. 
Foi uma leitura da qual gostei. Faz um retrato da vida em Nova Iorque nos anos 1940, Segunda Guerra Mundial, excessos atrás de excessos... E de como este ambiente influenciou uma geração de escritores e artistas. 

This is the country - William Wall

Pois é, a leitura não anda profícua. Há que continuar a ter esperança e achar que, eventualmente, esta maré há-de mudar...
Ainda assim, após uns bons três meses, cheguei ao fim deste This is the country, de William Wall. Não conhecia o autor nem o livro, mas foi-me recomendado/emprestado pelo Russell, que é uma pessoa cujo gosto literário eu confio. Estava igualmente garantido que estaria na presença de uma leitura algo deprimente... o que não facilitou ao seu andamento.
Vamos, então, à história. Há um protagonista, cujo nome não creio que seja alguma vez mencionado. A acção passa-se na Irlanda, mas não em Dublin, o que me deixa na dúvida se estaremos a falar de Belfast e Irlanda do Norte... mas, realmente, não sei, porque tal nunca é abertamente mencionado. Voltemos ao protagonista - cresceu num qualquer bairro complicado, rodeado por marginais e um estilo de vida problemático. Adolescência mergulhada em todo o tipo de drogas, a sua vida muda quando engravida a irmã de Pat the Baker, o traficante maioral lá do pedaço. A partir deste momento, o rapaz tem a cabeça a prémio e a sua vida irá mudar por completo.
É uma história deprimente, claro que é. Mostra como é difícil dar a volta a uma vida que começa mal, como o percurso de cada um parece estar de alguma forma intimamente ligado a tudo um conjunto de factores fora do controlo, como a vida pode ser inexoravelmente madrasta apesar de todo e qualquer esforço... Será que há volta a dar-lhe? Não sei. Mas, ao mesmo tempo, este livro tem uma mensagem de esperança, por assim dizer. Porque a vida continua sempre, e temos que a viver. Independentemente de ser melhor ou pior, de ser a vida que ansiamos ou não. Há que fazer o melhor com as cartas que se tem na mão. 
Acho que é essa a mensagem. Por isso, gostei.

The Bat - Jo Nesbo

O enguiço parece ter sido quebrado. Ou, pelo menos, temporariamente. Porque logo a seguir a acabar de ler Queer, foi me oferecido este The Bat, primeiríssimo volume da saga de Jo Nesbo que tem como protagonista Harry Hole, o que reavivou em mim o desejo de ler. Vai-se a ver e o que faltava era um bom thriller para me arrancar do marasmo!
Ora então, depois de ter lido quatro livros (acho eu, mais coisa menos coisa...) desta "colecção" e de muito ter lido sobre como Harry Hole ajudou a capturar um assassino em série na Austrália, chegamos finalmente ao ponto de conhecer esse episódio e ler o início dos inícios. Sim, porque a tradução para inglês data de 2012, se não me engano, apesar do livro ser originalmente de 1997... Mas vamos ao que interessa - como é chegar, apenas agora, ao início da saga? Se calhar não faz muita diferença, visto que li todos os outros livros fora de ordem... Mas, por outro lado, talvez haja aqui algo mais. Depois de ter lido aqueles que são os capítulos mais recentes, é bom perceber de onde tudo vem - quais as informações primordiais que temos sobre Harry, onde é que tudo correu mal, "porque é que ele é como é", se assim quisermos pôr a questão. É uma boa premissa. Já o enredo propriamente dito, acho que é bastante mais inocente do que aquilo que posteriormente temos oportunidade de ler, no seguimento da sua obra. Há menos pormenores, há menos suspense. Acho que se nota que é a primeira obra, com todas as suas limitações, mas também com uma energia genuína.
Claro que gostei, e gostei particularmente de voltar a sentir apetite para "devorar" um livro. Jo Nesbo é um artista destas lides dos thrillers.

Queer - William S. Burroughs

Passados quase três meses de um fenómeno algo estranho em mim, consegui finalmente dedicar-me à leitura de um livro. O escolhido foi este Queer, de William S. Burroughs, escritor pertencente à dita Geração Beat. E foi precisamente o facto de estar ligado a essa geração de escritores da década de 1950 que me fez comprar este livro e embarcar na sua leitura. 
Como o próprio título indica, Queer é um livro sobre homossexualidade (masculina) e a segunda obra literária de Burroughs. Em larga escala baseado na experiência pessoal do autor, este livro segue a vivência de William Lee (alter ego de Burroughs, também personagem principal do anterior Junky) durante os anos 1950, na Cidade do México, e a sua história de amor com um jovem algo apático de nome Eugene Allerton. 
Não é, seguramente, a leitura mais óbvia, mesmo para alguém que muito aprecie a Geração Beat (e não tenho a certeza de ser um desses casos...). No entanto, a introdução por Oliver Harris no início do livro faz uma contextualização tão interessante da obra, incluindo os meandros que rodearam a sua publicação (refira-se que este livro foi escrito em 1952, mas publicado pela primeira vez somente em 1985), que a sua leitura se torna incomparavelmente mais rica. Assim, posso dizer que gostei de ler esta pequena obra de 135 páginas. Foi uma leitura ávida e fácil, ainda que a escrita de Burroughs não me agrade particularmente - um pouco coloquial em demasia, na minha opinião. Não obstante, fico com curiosidade de ler Naked Lunch, essa sim a obra mais emblemática de Burroughs. Não sei se terei estômago para tanto, mas logo veremos.