Amor Estúpido e Louco



E depois de um filme um pouco soturno, nada melhor do que esta comédia hollywoodesca recheada de estrelas (consagradas ou em ascensão) para descontrair!

Apesar do momento ser o mais oportuno para ver um filme como este, devo confessar que este visionamento já está na calha desde Agosto (ou por volta dessa altura), quando vi o trailer do filme e fiquei rendida àquela cena fantástica em que a personagem da Emma Stone se vira para a personagem do Ryan Gosling e lhe diz "take off your shirt" e quando ele tira a camisola ela exclama "oh, my God, it looks like you've been photoshopped!!!" - há já muito tempo que não me ria tanto e a cena é das melhores que já vi (dentro do género, está claro). E sim, ele parece que foi trabalhado no Photoshop, confirma-se.
A história, como não poderia deixar de ser, não tem nada de especial: Cal (Steve Carell) e Emily (Julianne Moore) são um casal à beira da meia-idade com uma vida estável. Nada faria prever que, no regresso a casa depois de um jantar a dois, Emily viria a pedir o divórcio - o que deixa Cal completamente à deriva. Até conhecer Jacob (Ryan Gosling), bon vivant sobre o qual pouco sabemos, que irá conduzir Cal pelo caminho do amor-próprio e da redescoberta da sua masculinidade. E é precisamente esta relação entre Cal e Jacob que dá ao filme grande parte da sua piada. Se já sabíamos que Steve Carell é um grande comediante, o mesmo não se pode dizer de Ryan Gosling, que aqui prova ser um actor muito versátil (para além de uma carinha laroca). Aliás, todos os actores estão muito bem nas suas personagens.

Gostei muito. É um filme divertido, sem ser idiota (que é algo que nunca consigo achar piada). Bem dispõe e dá para consolar as vistinhas (para quem gosta do Ryan Gosling, está claro - embora ache que o rapaz tem que começar a fazer menos musculação, é demasiado...). Uma boa aposta para estes dias cinzentos de início de Outono. Esses mesmos que insistem em não chegar...

Un homme qui crie (Festa do Cinema Francês)



Passados três anos, o regresso à Festa do Cinema Francês. Não que não goste (qualquer um que leia este blog consegue perceber que gosto bastante de cinema francês), mas o facto de ser em Outubro costuma implicar uma certa falta de disponibilidade da minha parte. Felizmente, este ano isso não aconteceu e até tive a sorte de ganhar bilhetes para a sessão à qual já tencionava ir. Os astros conspiraram, portanto.
Este "Un homme qui crie", Prémio do Júri do Festival de Cannes na última edição, é realizado e escrito por Mahamat-Saleh Haroun, originário do Chade (confesso que não sei como se designa alguém que nasceu no Chade...). É também no Chade que se passa a acção do filme: Adam é um sexagenário, antigo campeão de natação, que actualmente trabalha como "guardião" da piscina de um hotel chique da cidade. Reestruturações na gestão do hotel fazem com que Adam seja despromovido, em favor do seu único filho, Abdel, algo que irá deixar Adam destroçado. E, nem de propósito, o clima de insegurança que se vive no país começa a aproximar-se da guerra civil, exigindo a todos sacrifícios...
A dinâmica deste filme é uma daquelas complicadas, que filmada de uma outra forma poria meio mundo a chorar baba e ranho. Mas não. Apesar de tocante (Youssouf Djaoro, que interpreta Adam, tem um desempenho belíssimo), não entra por caminhos de sentamentalismos baratos. É um filme estóico, e também sobre o estoicismo da vida. Que aqui raia o egoísmo em muitas das suas vertentes. A vida é complicada, assim como as escolhas que se têm que fazer.
O título do filme, "Un homme qui crie" (um homem que grita), acaba por ser um paradoxo - porque o homem em questão nunca grita, mas gritam antes os seus olhos. Uma bela metáfora.

Juliet, Naked - Nick Hornby


Ir a Paris e não ir à Gibert Joseph ou à Gibert Jeune é quase como cometer uma heresia. E, lá estando, é um pecado não comprar um livro em 2ª mão (ou 1ª, caso não se encontre nada de jeito).

Desta vez, a passagem pela Gibert Joseph foi muito rápida (lá está, só porque seria uma heresia não entrar), e dela saiu a compra deste Juliet, Naked, em 2ª mão claro está, última obra desse autor que eu tanto gosto, à custa de umas e outras (não é, Meninha?!?). Última obra que já data de 2009, mas que eu ainda não tivera oportunidade de ler.
Ora bem, este é um típico livro de Hornby, que escreve, maioritariamente, sobre relações e pessoas (complicadas em ambos os casos). Como provavelmente já deram conta, são temas com os quais me identifico muito. Mas voltemos ao livro.
Juliet, Naked conta a história de Annie, rapariga perto dos 40 anos, que namora há mais tempo do que gostaria de admitir com Duncan, um obcecado por Tucker Crowe, músico que abandonou a sua carreira há cerca de 20 anos, sendo que ninguém sabe o que lhe aconteceu desde então. A relação entre os dois é morna-morna, como duas pessoas que se habituaram a estar juntas porque nunca se deram ao trabalho de ver se há mais mundo lá fora... Lá estão os ingredientes favoritos de Hornby: relações complicadas e música (porque a música tem sempre um certo poder redentor no meio da confusão). Ao fim desses quase 20 anos, Tucker (ou, melhor, a sua editora) lança "Juliet, Naked", um disco de versões em bruto das músicas presentes na sua "obra prima", Juliet, disco dedicado à relação falhada que teve com uma modelo inglesa. Duncan recebe, em primeira mão, o novo álbum, mas é Annie que irá ser a primeira a ouvi-lo - desencadeando-se, assim, o princípio do fim da relação entre os dois. Este acontecimento, aparentemente inócuo, terá consequências "devastadoras" na vida de Annie - tudo, mas rigorosamente tudo, vai mudar.
Acho que o que me faz gostar das histórias de Hornby é o facto de as personagens serem tão credíveis que, eventualmente, acabo por me identificar com alguma situação. Isto aliado ao facto de haver sempre alguma saída airosa para situações semi-desesperadas, mesmo quando as pessoas em questão são completamente ignorantes em termos emocionais.

Dá-me esperança. Talvez não esteja tudo ainda perdido. E, mais tarde ou mais cedo, alguma saída airosa acontecerá por aí.

Life of Pi - Yann Martel



Mais um daqueles livros que estava na prateleira há anos. Houve, inclusivamente, uma tentativa de leitura que se ficou pela metade, por não haver motivação suficiente. Mas, desta vez, tudo foi diferente (vá se lá perceber porquê!).
A história é peculiar (para dizer o mínimo): um naufrágio de um navio de viagem entre a Índia e o Canadá junta, num bote de salvamento, um rapaz de 16 anos (Pi), um tigre-de-bengala, um orangotango fêmea, uma hiena e uma zebra com uma perna partida. Combinação mais estranha e improvável seria difícil. Mas dessa combinação nasce uma história fantástica, quase difícil de acreditar!
Cerca de 80% do livro trata da viagem a bordo do bote de salvamento. Aborrecido?... Nem um pouco. Pelo contrário, a leitura torna-se viciante, queremos sempre saber o que acontece a seguir, como é que a luta pela sobrevivência, dia após dia, se vai processando. Sempre a cruzar os dedos para que o impossível aconteça e todos acabem a viagem, sãos e salvos. A escrita de Martel é muito visual, apelativa, cheia de cores e movimento.
É difícil descrever este livro melhor do que isto (embora não me sinta particularmente eloquente neste momento...), porque é uma daquelas experiências que tem que ser a própria pessoa a ter. Se vos parece uma história com potencial, experimentem. Acho que não se vão arrepender.

O Cemitério de Praga - Umberto Eco



Esta foi uma daquelas leituras fáceis. Apenas três semanas, o que não é mau se tivermos em consideração as cerca de 550 páginas que constituem este livro. Prenda de aniversário (muito obrigada!), viu a sua leitura começada no próprio dia da oferta, muito por causa de ter sido uma sexta-feira com viagem de comboio Lisboa-Cinfães. Logo aí foram 100 páginas! (o que significa que a leitura esmoreceu um pouco depois deste fantástico ímpeto inicial) Embora o ritmo inicial não se tenha mantido, foi um leitura divertida. Mas vamos à história.

O tempo da acção centra-se, principalmente, na segunda metade do século XIX. O "actor" principal é um tal de Simone Simonini, falsário de renome e que vive embrulhado em tramas e conspirações dignas de uma opereta - garibaldinos, napoleónicos, maçónicos ou hebreus, todos estão envolvidos. O mais interessante no meio disto tudo é que, supostamente, todos os factos que constam do livro são verdadeiros. O que é, no mínimo, inquietante. Assuntos de Estado tratados com a leveza de gestão de mercearia, conspirações internacionais com intuitos a roçar o caricato. Lá está: como romance é altamente interessante e entertaining (peço desculpa, mas não consegui encontrar o equivalente em português), mas se nos pusermos a pensar que são factos históricos... Outros tempos? Ou será que hoje em dia também acontecem coisas do género?... Muito provavelmente.

Não querendo entrar em muitos pormenores sobre o enredo, até porque considero muito mais estimulante ser o próprio leitor a fazê-lo, digo apenas ainda que o final acontece em clima de anti-clímax, como aliás dá para adivinhar ao longo da leitura.

Recomendo vivamente, mas "aviso" desde já que é preciso em certo sentido de humor para ler este livro. Isso e não ser facilmente impressionável.

Angèle et Tony



E não é que com este filme francês, primeira obra da realizadora Alix Delaporte, cheguei ao post número 100 de cinema deste blog?... Um acontecimento a assinalar.

"Angèle et Tony" conta a história de, como não poderia deixar de ser, Angèle e Tony - ela recém chegada a uma pequena vila piscatória da Normandia, ele pescador profissional nessa mesma vila. Como se dá o encontro, nunca chegámos verdadeiramente a perceber. Ela, de uma beleza bruta, imediatamente o atrai, mas muito caminho terá que ser percorrido para que estas duas personagens se entendam. Ela tem um passado que ele desconhece, e que só a conta-gotas é revelado. No entanto, ele não está preocupado com isso, e apenas quer que ela não mascare as suas fragilidades através de comportamentos desinibidos... Será que têm futuro? Talvez, mas realmente, tal como li numa crítica ainda antes de ver o filme, não é propriamente isso que importa. Ao espectador, interessa a forma como a realizadora conta esta história, a forma como a filma, e como os actores a vivem. Porque a história é corriqueira, nada tem de extraordinário.

No entanto, há um entendimento entre Clotilde Hesme (Angèle) e Grégory Gadebois (Tony), um par improvável, aliás, que torna este filme bonito e tocante. Também ajuda o facto de a realizadora optar por dizer menos e deixar ao espectador esse trabalho de adivinhar, ler nas entrelinhas... Ajuda a dar mais riqueza ao argumento.

Por último, gostei também das paisagens e do ambiente em que as personagens se inserem. O norte de França é lindo, e aqueles cenários áridos da Normandia trazem-me saudades...

Um belo número 100, sem dúvida.

La nausée - Jean-Paul Sartre



Para não variar, ando atrasada na escrita deste blog. A culpa deve ser deste Agosto lento, que parece que já começou há uns 3 meses... E ainda nem 3 semanas passaram... Mas vamos ao que interessa.
Lenta foi, também, a primeira leitura que fiz de Sartre, o francês "maldito" que em 1964 recusou o Nobel da Literatura... pormenores. Ia dizendo que este "La nausée", primeiro romance de Sartre datado de 1938, foi a minha primeira incursão à obra deste autor que tanto marcou o pensamento do século XX. Demorou até arranjar coragem suficiente para embarcar nesta leitura, se pensar que este livro me foi oferecido há 6 anos... Sartre na sua língua materna não é tarefa para abraçar de ânimo leve!!!
Agora que já fiz esta longa introdução, que posso eu dizer sobre o livro?... Pergunta difícil, pois então. Este "La nausée" é um livro sem história, em que o fio condutor é a narração feita por um individuo, escritor em crise, que descreve os seus dias e o que o rodeia de forma desapaixonada. No entanto, acho que posso dizer que identifiquei, ao longo do livro, a presença das sementes do existencialismo - a forma como o escritor observa e se relaciona com o que lhe é exterior, para mais tarde se dar conta que tudo isso "existe" (como, aliás, ele próprio verbaliza). Não deixa de ser interessante aperceber-me disso, de como essa questão foi sempre tão importante para Sartre.
Embora tenha sido um pouco difícil manter a motivação ao longo da leitura, tal não aconteceu por o livro não ser suficientemente interessante, mas simplesmente por causa da sua cadência. Gostei, mas não sei se será experiência para repetir. Pelo menos, para já.

CocoRosie em concerto de garagem (e não foi na lá de casa)



Sempre atrasada... Mas numa semana com tantas actividades culturais, foi difícil manter este blog actualizado. Os últimos dias de Julho trouxeram consigo uma visita das irmãs Cassidy ao nosso país. Conheci-as com o primeiro (acho eu) concerto que deram em Portugal, no ido ano de 2004, em Paredes de Coura. Na altura, ouvia a Antena 3, em directo do festival, e fiquei muito impressionada com a música peculiar feitas por estas meninas, de nome Cocorosie. O nome, esse, vem dos apelidos que a mãe arranjou para cada uma delas: Coco para Bianca, Rosie para Sierra.
Quem conhece sabe que a música destas duas irmãs é peculiar. Mistura estilos muito diferentes, desde o funk ao canto lírico. E depois há a voz de Bianca, metálica, como que distorcida, de uma beleza áspera. E a excentricidade de Sierra. Tudo junto torna-as únicas.
Desde esse Agosto de 2004 que tinha vontade de as ver ao vivo. Razões logísticas fizeram com que apenas 7 anos mais tarde isso acontecesse. Valeu a pena esperar?...

Valeu. Claro que já não estão a apresentar "La maison de mon rêve", esse disco mágico. E eu não conheço bem o disco mais recente delas, de 2010. Por isso, senti-me um pouco perdida durante o concerto no Lux, discoteca lisboeta, onde passaram canções atrás de canções sem que nada me soasse familiar. No entanto, as irmãs Cassidy têm um magnetismo que torna tudo isso um pouco secundário. O espectáculo vale a pena, visual e sonoramente falando. Sierra mais expansiva, mas sem cabriolices (como tinha acontecido no concerto da véspera, na Casa da Música) devido ao tamanho reduzido do palco. Aliás, o grande problema deste concerto foi o local onde se realizou. O Lux não tem condições para este género de concertos, e Cocorosie merecia, sem dúvida, algo melhor. Erro da promotora do espectáculo... Mas tudo acabou por valer muito a pena, porque o concerto acabou com um encore de "By your side", essa pérola pertencente ao primeira álbum das irmãs. Comovente.

Festival ao Largo com a CNB - Uma coisa em forma de assim



O Festival ao Largo vai na sua terceira edição, mas só este ano passei pelo largo do São Carlos, nesta iniciativa que pretende democratizar o acesso à cultura, na forma de espectáculos gratuitos de música sinfónica, coral, e de dança.
No meu caso, fui assistir a este espectáculo de dança, protagonizado pela Companhia Nacional de Bailado (CNB), de seu nome "Uma coisa em forma de assim" (título sugestivo...). É construído tendo como base música composta por Bernardo Sassetti, para o qual 9 coreógrafos portugueses (os mais conceituados) foram convidados a criar peças.
Chegámos ao largo por volta das 20h, pensando que seria uma hora adequada para guardar um lugar sentado (o espectáculo era às 22h). Surpresa (ou não), poucos lugares livres havia! Mas ainda havia para nós, por isso bem bom. É engraçado ver toda a gente à espera, com sacos de comida improvisados, sandes e snacks... Eu não fui tão prevenida e tive que recorrer ao café mais perto (por sinal, bem bom também).
Ora então, o espectáculo. Embora a visibilidade não fosse fantástica (por vezes ainda pior graças a uma senhora que insistia em levantar-se), foi muito interessante. Uma primeira peça comum, com todos os bailarinos, e depois pequenos trechos (os tais), com grupos mais pequenos. Houve uns que gostei mais, outros menos. Mas o último foi particularmente engraçado, com uma coreografia a incluir o próprio Sassetti e o seu piano, sensualmente interpretada a dois. No geral, tanto a música como a dança foram muito bonitas - é um espanto ver aquelas pessoas a dançar, parece tudo tão simples...
Gostei muito, é uma iniciativa realmente interessante por parte do Teatro São Carlos, e prova que o público adere a este género de coisas, porque o largo tornou-se pequeno para albergar tantos espectadores. Espero que seja para continuar.

O colectivo animal, antecedido pela meia-hora mais dolorosa da história da música



Após convite inesperado (e muito agradecido!), fui ver os Animal Collective em concerto no Centro Cultural de Belém (CCB), na passada segunda-feira. Desde logo, e há já algum tempo, a surpresa pelo local escolhido para semelhante concerto - muito pouco ortodoxa, mas a promotora lá saberá melhor do que nós.
A primeira parte, responsabilidade dos portugueses Aquaparque, foi horrenda. Não há palavras para descrever o que os dois senhores fizeram em palco. Uma amálgama sonora com muito pouco nexo, a complicar (ao infinito) uma música que até poderia, eventualmente, e com muita sorte, ser audível. Foi ver o pessoal a abandonar a sala aos magotes, mas nós achamos por bem ficar no nosso lugarzinho, mesmo em frente à mesa de som. Má ideia, portanto.
Depois de um (longo) intervalo, subiram então "os animais" ao palco, recebidos por um público entusiástico que, entretanto, tinha basicamente enchido o CCB. O que se passou então foi um momento difícil de definir: talvez porque o som no sítio onde estávamos fosse particularmente pujante, mas o que é certo é que fiquei colada à cadeira durante o tempo do concerto, abanando a cabeça ocasionalmente quando a música era mais ritmada. Foi estranho. Não sei explicar. Como não conheço assim tão bem a obra dos senhores, senti-me um pouco perdida. Mas acho que não fui a única, porque a maioria das canções eram experiências para um novo trabalho...
No geral, foi uma experiência engraçada. Mas não fiquei muito fã, até porque não tocaram o "My girls", que eu gosto tanto... E continuo a achar que a escolha do local foi completamente desadequada.

Super Bock Super Rock 2011, ou o regresso a um passado empoeirado



Já passou mais de uma semana desde o fim-de-semana mais... calamitoso, provavelmente, dos últimos tempos. Tenho que confessar que as expectativas já não eram muito favoráveis: o tempo de ir a festivais de Verão já ia lá bem longe (2003 ou lá perto), a minha fé nesse género de eventos também não estava no seu melhor momento. Mas a decisão estava tomada, por isso as 4 chicas rumaram a sul, em direcção ao Meco!
Os problemas começaram pouco tempo depois de atravessar a ponte 25 de Abril: fila de trânsito, compacta, e que se manteve quase até ao recinto. Houve alturas em que desliguei o carro e tudo, imagine-se lá! Relatos do "exterior" iam-nos dando conta do caos que já se vivia no recinto, nomeadamente na falta de espaço para acampar... Facto que constatámos assim que finalmente entramos no acampamento, já quase às 19h - para além do espaço em si ser mau, com desníveis e troncos de árvores um pouco por todo o lado, espaço disponível para montar 3 tendas também era coisa que não abundava. Tivemos que ser imaginativas, portanto. Concertos só começaram, basicamente, com Beirut, que me encheu o coração, apesar de não ser um concerto de festival. Fico à espera que o rapaz decida vir fazer um concerto em condições a Portugal, num espaço como a Aula Magna, por exemplo... De seguida, rumámos até ao Palco EDP, onde estava a sueca Lykke Li a tocar, no momento da noite. Um grande concerto, de uma senhora com uma grande voz e uma grande presença em palco. Muito bom. O regresso ao palco principal ainda nos deixou ver o encore de Artic Monkeys, mas nada que despertasse demasiado a atenção.
Uma noite nada bem dormida (já não me lembrava que o pessoal tem a mania de não se calar durante toda a noite...) trouxe consigo o segundo dia de festival. E também a percepção das limitações da organização do dito cujo. Ora então: logo de manhãzinha já havia filas para os chuveiros (talvez por serem muito poucos), bem como para as pias onde lavar a louça... Depois, filas havia para apanhar os autocarros para a praia... Onde chegámos já quase ao meio-dia. Praia muito gira, enorme, onde nunca tinha estado. Nus, não vi, parece que estavam lá mais para o fim da praia... O regresso ao recinto fez-se cedo, para evitar as filas de trânsito (muito vistas por aqueles lados), e houve então direito a um banhinho gelado - maravilha!!! Bem, vou cortar nos pormenores, para vos dizer que o segundo dia foi realmente o melhor em termos de concertos, mas também o mais complicado, em termos de gente. Havia tanta gente no recinto que não se viam clareiras, e o pó era tanto no ar que quase tornava impossível uma respiração normal!!! Apesar de nem sequer termos pensado em ir muito para junto do palco, fomos pisadas e empurradas, por pessoas que achavam que havia mais espaço do que na realidade... Não obstante, Portishead deram aquele que foi "o" concerto deste festival, recriando musicalidades que nunca pensei ser possível fazer ao vivo. Um concerto emocionante e emocional, sem dúvida, que mexeu com os meus limites. De seguida vieram os Arcade Fire, grupo do qual descobri não gostar por aí além, mas que deu um concerto muito bom, cheio de energia. E só não conhecia 3 músicas, por isso acho que até passava por fã.
Ao terceiro dia, lá aprendemos qualquer coisa e fomos passear - primeiro até à Lagoa de Albufeira, com uma praia bem bonita, e depois até Sesimbra, que é um sítio espectacular. Com os ânimos um pouco mais recompostos, lá enfrentamos o último dia de pó e música (por esta ordem), que acabou por ser uma desilusão. Se expectativas já não havia para nomes como Brandon Flowers ou Slash, The Strokes conseguiram dar um concerto morno morno, com um Julian Casablancas que parecia não saber onde estava, nem o que estava a fazer. Isso, aliado aos problemas de som, tornou o concerto pouco menos que sofrível. E assim chegaram ao fim 3 dias de grandes dificuldades logísticas e muita irritação (porque eu tenho muito mau feitio!!!), que acabou por ter pouca música, para tantos dias de festival. Mas houve música muito boa, por isso não foi mau de todo.

Mas não creio que me apanhem lá outra vez.

Ah, um pequeno apontamento para falar, ainda, de Noiserv, que deu um concerto bem giro ao ínicio do segundo dia de concertos, e de Chromeo, que também me pareceu estar a fazer um bom trabalho no palco EDP, no final do mesmo dia. Pena que o cansaço era tanto que já só conseguíamos abanar a cabeça...

Pequenas mentiras entre amigos



Há vida pós-Cartão Medeia.
Julho trouxe consigo o fim de uma "amizade" que durou pouco mais de um ano. A conjectura económica fez com que deixasse de ser proveitoso ser assinante do Cartão Medeia e, por isso, cancelei-o. Mas nem por isso se acabaram as idas ao cinema. Aliás, há agora mais liberdade de escolha em termos de filmes.
Num dia algo atribulado, com uma tentativa frustrada de ir à Cinemateca ver "Guerra Civil", um filme português com muito boas críticas - não chegamos tarde, mas quando chegamos os bilhetes já estavam esgotados. Ir a correr para o El Corte Inglés, chegar mesmo em cima da hora do filme, uma fila gigantesca para comprar bilhete (mas que raio é que se passa com esta gente???). Stress! Graças à intervenção da prima Carol, lá conseguimos ver este "Pequenas mentiras entre amigos", de Guillaume Canet (um actor do qual gosto muito), com apenas 5 minutos de atraso em relação ao real início do filme.
O filme segue a vida de um conjunto de amigos, trintões ou mais velhos, que todos os anos fazem férias juntos, na mansão de férias de um deles, no sul de França. Este ano, no entanto, um deles sofreu um acidente de mota e está hospitalizado, em estado grave. Ainda assim, os restantes membros do grupo decidem que não ficam a fazer nada em Paris e partem de férias. O mau-estar provocado pelos remorsos e pelas mentiras que impingem uns aos outros irá, contudo, pôr estas férias em risco...
Este é, então, um filme na tradição de "Amigos de Alex", unicamente baseado na complexidade das relações humanas. É um filme interessante, mesmo com as suas 2h30 de duração! Há apontamentos de humor, mais ou menos bem conseguidos, e há outros momentos que não resultam tão bem. Mas, no geral, é um filme que vale a pena ver. Gostei.

Ah, as filmagens nas imediações da duna de Pylat são muito boas!!! É realmente um sítio espectacular. :)

O furacão a fechar o fim-de-semana


Noite de domingo a fechar um fim-de-semana animado - nem de propósito, Sharon Jones, acompanhada dos seus Dap Kings, foi até à Casa da Música para incendiar os ânimos. Inicialmente previsto para a Sala 2, o concerto acabou por se realizar na Sala Suggia, a principal, devido à elevada afluência de público. Porque o pessoal sabe o que é bom.

O concerto começou com a entrada da banda, sem vocalista, que tocou durante cerca de 10 minutos, para "aquecer" a audiência para a chegada da artista. O som lembra os tempos idos das décadas de 60 e 70 no século passado... Soul, funk, o que lhe queiram chamar, transpira ritmo. E pronto, nós lá fomos abanando o corpo, entrando no espírito da coisa. Mas nada fazia prever que a entrada de Sharon em palco traria consigo um verdadeiro furacão. Que energia tem esta senhora, de cinquenta e tal anos, a fazer inveja a muito boa gente! E que vozeirão! A partir desse momento, foi sempre a dançar. E nem o facto de não conhecer quase nada do seu repertório foi impeditivo para um concerto fantástico.
Adorei, adorei, adorei. Tanto, que a seguir fomos comprar CDs da banda, que estavam à venda na saída do concerto. Assim, já não há desculpa para não conhecer as músicas. E ganham-se bons momentos de descontracção. Que mais se pode pedir, com toda esta energia?...

O sedutor charme tímido



O dia 16 de Junho já lá vai um pouco distante, mas só agora me dei conta que ainda não tinha feito o meu "comentário" à passagem do sr. Ryan Adams pela Aula Magna, em Lisboa! Que falha terrível, até parece que não gostei do concerto...
Devo começar por dizer que fui ver este concerto à borla, uma vez que a minha querida Radar me ofereceu um bilhete. Não que eu não estivesse disposta a pagar os 33€, mas simplesmente a altura não era propícia para esses gastos. Quis o destino que ganhasse um bilhete, para assim estar presente no concerto daquele que é um dos grandes "cantautores" (detesto essa expressão) americanos. E que eu tanto gosto.
Depois disto, o que poderia correr mal?...
Ora bem, correr mal não é propriamente a forma de falar sobre este concerto. Mas que foi estranho, foi. Ryan Adams subiu ao palco já atrasado, depois das 22h. E logo na primeira canção, espeta-se ao comprido quando recorre à harmónica, estranhamente desafinada! Peripécias do género não faltariam durante a noite, com o músico a encará-las com bom humor (?) e fazendo algumas piadas. O que, à partida, poderia condenar o concerto ao fracasso, resultou assim em momentos intimistas, em que o músico mais parecia estar na sua sala de estar, a cantar para os amigos. Apesar de ter começado tarde, não foi, à conta disso, um concerto curto: acabou já passava da meia-noite e meia. O registo foi calmo, completamente acústico, com umas notas de rebeldia aqui e ali, ou não estivéssemos a falar de Ryan Adams. Claro que não cantou nada de "Rock 'n' Roll", o álbum que lhe conheço melhor... Mas não faltaram momentos doces - porque se há forma de definir a voz deste rapaz, é como doce. Uma doçura que arranha.

Muito bom.

Palavra de Gato - Robert de Laroche



Ao mesmo tempo que li o ensaio sobre o papel das mulheres na literatura, de Virginia Woolf, li igualmente, e para desanuviar, este "Palavra de gato", livro sobre gatos para amantes da gatos, que me foi oferecido pela Rita Cavaleiro.
O livro está escrito em forma de diálogo entre o narrador e o seu gato, que lhe conta um pouco da sua visão do mundo. Confesso que a fórmula, embora bem pensada, não resulta muito credível e acaba por soar forçada. Porque aquilo que o gato nos vai transmitindo é, basicamente, aquilo que o conhecimento científico foi "descobrindo" ao longo dos tempos.
Apesar de não ter gostado muito da forma, é um livro recheado de informações úteis. Mesmo para mim, que tanto gosto de gatos! Por exemplo, fiquei a saber que os gatos adoram o cheiro da lixívia - não fazia a mínima ideia. Também fiquei a par de outros detalhes sobre a vida destes felinos, alguns bem úteis para quem tem 3 em casa... Assim se prova que há sempre coisas que podemos aprender, mesmo quando não estamos a contar com isso.

É preciso manter uma mente aberta. :)

E, para quem gosta de gatos, sabe sempre bem partilhar da visão destes animais domésticos amorosos.

A Ressaca II



Apenas dois dias depois de ter vista a primeira parte desta "Ressaca", a sessão habitual de cinema com a prima Carol levou-me a ver a segunda parte...

... tenham medo, muito medo, porque a tripla mais doida de sempre está de volta e com situações ainda mais fora do normal do que as que nos tinham brindado na primeira parte!

Desta vez, os amigalhaços Phil, Alan, Stu e Doug vão todos até a Tailândia, para o casamento de Stu. Este opta por uma despedida de solteiro calma com os amigos, ainda antes de partir, sem álcool - não vá o diabo tecê-las e acabarem da mesma forma que na despedida de Doug! No entanto, já na Tailândia e dois dias antes do casamento, os amigos juntam-se à volta de uma fogueira na praia, para uma última cerveja...
Podem aperceber-se que a premissa é exactamente a mesma do primeiro filme. As situações, essas, são novas e, se possível, ainda mais amalucadas. Com tudo o que o exotismo asiático tem para oferecer...

É um filme divertido, que arranca boas gargalhadas. Mas, como fórmula, funcionou melhor à primeira (até porque há muitas situações que são uma autêntica cópia!), com este segundo filme a puxar a corda em algumas situações. É uma daquelas comédias um pouco apalermadas, por isso é necessário ter uma mente aberta. Mas não é má.

A room of one's own - Virginia Woolf



Mais de um ano volvido desde que a Raquel me ofereceu este livro (e depois de o ter lido quase até ao fim e de a minha sobrinha me ter retirado a marca de onde ia), acabei de ler (de novo do início) este ensaio de Virginia Woolf sobre a literatura no feminino, intitulado "A room of one's own".
Virginia Woolf faz uma reflexão sobre o papel das mulheres na literatura, ao longo dos séculos, e a razão pela qual há tão poucas obras no feminino (à data desta obra, em 1928). A conclusão, embora simples, é muito sábia:

"A woman must have money and a room of her own if she is to write."

Sim, uma mulher precisa do seu espaço e do seu dinheiro para poder ter paz de espírito suficiente, de forma a dar asas ao seu poder imaginativo, mesmo se exemplos existem, ao longo dos tempos, de mulheres que não tinham nem uma nem outra condições. Virginia Woolf faz um exercício bastante interessante, mas não desapaixonado, sobre esta questão fundamental da nossa cultura. E conclui que a mulher tem tendência para se transportar para aquilo que escreve e que, enquanto não se distanciar, não conseguirá ser mestre da escrita. O que, para mim, resulta num importante conselho...
É um livro bom e muito interessante, testemunho de uma época e da luta feminina pelo seu lugar na literatura. Para mim, fica a importante mensagem: uma mulher precisa realmente do seu espaço, e também de tempo e paz de espírito para poder escrever. Ao menos, já sei o que me falta...

Maratona Fotográfica FNAC Lisboa 2011

No passado sábado, dia 28 de Maio, realizou-se uma Maratona Fotográfica, iniciativa da FNAC, em Lisboa. A maratona durou 14h, com pontos intermédios de 2h em 2h, onde nos eram dados temas para fotografarmos. Foi uma experiência muito interessante, que me fez fotografar com outros olhos e com outra emoção. De mais de 300 fotografias tiradas, foi depois preciso escolher uma por tema, para ir a concurso com os restantes participantes.

Deixo-vos, então, com as minhas escolhas.

Tema 1
“Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.”



Tema 2
“Aprender é fundamental. Não só a olhar, mas a ver em profundidade, em detalhe, na globalidade.”


Tema 3
“A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”


Tema 4
“Lisboa do meu amor, deitada. Cidade por minhas mãos despida."


Tema 5
“Tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


Tema 6
“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”


(todas as fotografias por Rita Barbosa)

A árvore da vida



O filme estreou e é claro que, com todo o alvoroço (e pouco depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes), uma pessoa tinha que o ver. Mr. Terrence Malick, o senhor dos 5 filmes em 30-e-não-sei-quantos anos, teve, supostamente, um regresso em grande.
Ora, sobre isso, não posso tecer comentários, porque acho que não vi nenhum dos 4 filmes anteriores. Mas este "A árvore da vida" é um obra deveras estranha e que não me agradou. Não digo "nem um bocadinho", porque tem partes que até me emocionaram, mas no geral só me tirou um bocado do sério.
Então, porquê? Não sei bem explicar. Sejam as filmagens demasiado perfeitas, a falta de diálogo, os pensamentos esotéricos em voz off, tudo contribuiu para que não tenha gostado do filme. Mas o que realmente me desagradou profundamente foram os interlúdios dedicados à origem da vida, com imagens planetárias e afins... Por amor da santa, não há paciência. A história (sim, porque há uma, no meio disto tudo) concentra-se, principalmente, nos acontecimentos da vida que levam à perda da inocência e conduzem ao crescimento e maturidade. Apesar da premissa ser interessante, também não achei que a execução fosse particularmente brilhante, porque insiste em ser explícita em situações em que deveria deixar o espectador chegar às suas próprias conclusões.
Portanto, não gostei. Mas os meus manos adoraram, o que só mostra que o filme é capaz de suscitar todo o tipo de paixões. Ao menos isso.

PJ Harvey e o concerto mais curto da história



Bem, talvez não tenha sido o concerto mais curto da história da música, mas foi curto que chegue para os espectadores notarem. Miss PJ fez os seus primeiros concertos de sempre na capital do país (por aquilo que me foi dado a perceber), a propósito do seu novo álbum, "Let England Shake". Um álbum muito interessante e diferente do que a senhora tem feito até agora, mas do qual tenho gostado muito. O concerto incidiu, principalmente, nas músicas do último álbum. Mas, quando digo "principalmente", significa que apenas reconheci duas músicas que não fossem desse mesmo álbum, a saber "Down by the water" e "C'mon Billy". É provável que tenha havido mais umas quantas, mas não as reconheci, até porque a roupagem estava bastante diferente.
Ainda assim, o espectáculo foi um bom espectáculo, a senhora é realmente uma profissional (nem se esperaria outra coisa). Mas foi um espectáculo frio, sem grande sentimento. Miss PJ recusou-se a dirigir a palavra ao público até o concerto chegar ao fim, altura em que disse algo como "thank you and goodnight". Quando voltaram para o encore, apresentou a banda - os suspeitos do costume John Parish e Mick Harvey, e Jean-Marc Butty na bateria. Eles foram responsáveis por uma das partes muito boas deste concerto, a competência instrumental. Era tanta que às vezes nem parecia estarmos num concerto, mas sim a ouvir algo gravado em estúdio, tamanha era a "perfeição" estética das músicas. Isto foi, ao mesmo tempo, um ponto positivo e negativo, uma vez que fez com que o concerto perdesse alguma força e espontaneidade.
Foi, acima de tudo, um concerto competente de um álbum com fortes raízes no folk, com uma sonoridade que muito me agrada. Agora que a senhora anda deslumbrada com os agudos que é capaz de produzir, anda. E isso não é muito positivo...

Volta, PJ gutural! Tens mais jeito para cabra do rock do que para ser etéreo e angelical.

Indie Lisboa - La BM du seigneur



Imagine-se lá que já passaram mais de duas semanas desde que vi este filme francês na edição deste ano do Indie Lisboa. Só por aí, podem também imaginar que a impressão deixada não é muito favorável...
Então, este "La BM du seigneur" é um filme/documentário sobre um grupo particular de ciganos franceses (loiros de olhos azuis...), que vivem num parque de roulottes e que têm como ganha-pão roubar BMW's a gente rica. Certo dia, um deles tem uma aparição de Deus, que lhe deixa um cão, e a partir daí decide mudar de vida e nunca mais roubar. Mas a sua determinação irá ser colocada à prova...
Que posso dizer? Não muito. O filme é fraquinho, os actores (não sendo profissionais) são igualmente fracos e a história não convence. Ainda para mais, não é que o realizador estava presente na sala e houve sessão de perguntas a seguir à projecção do filme?!?...

Bem, se com pouca vontade andava de ir ao cinema, com menos fiquei depois disto. Preciso urgentemente de um bom filme para poder purgar esta experiência.

Max Frisch - Homo Faber



Prenda de Natal, chegou agora a vez deste "Homo Faber" saltar da secretária para a mesinha-de-cabeceira, e assim fazer parte das minhas leituras. Não conhecia nem este livro em particular, nem o seu autor, o suíço Max Frisch. Assim, as expectativas em relação a esta leitura eram praticamente nulas, não fosse o comentário de contra-capa aludir a Camus.... Aí, a minha curiosidade aguçou-se.
Ao ler este livro, depressa percebi o porquê das alusões a Camus - o sentimento do eu, enquanto ser volúvel que responde ao que se passa à sua volta, mas também as noções de coincidência e fatalismo, são temas que muitas vezes vemos nas obras do escritor argelino. Mas também a luminosidade da escrita é algo que vejo em ambos os escritores. "Homo Faber" é um romance escrito na primeira pessoa, voz activa de Walter Faber, um engenheiro pragmático, funcionário da UNESCO, que viaja pelo mundo em trabalho. Com uma mente puramente tecnológica e racional, Walter vê-se confrontado com uma série de acontecimentos inacreditavelmente coincidentes, que irão mudar o curso da sua vida.
Para além dos paralelismos com Camus, este foi um livro que também me lembrou Paul Bowles, outro dos meus autores de eleição. Talvez seja pelo movimento da escrita, semelhante à escrita de viagens.
É claro que, se num único autor consigo ter pontos de referência a dois dos meus escritores favoritos, gostei muito deste "Homo Faber". Por isso, levou-me apenas uma semana a lê-lo. Fico agora com muita vontade de ler outras obras de Max Frisch. O que se revela difícil, uma vez que não consta muito das prateleiras das livrarias portuguesas. Mas fica a vontade.

(Já agora: obrigada, João.)

Henry David Thoreau - Civil Disobedience and Other Essays



Quase três meses depois, finalmente terminei de ler a outra obra emblemática de Henry David Thoreau. Devo dizer, em abono da verdade, que ao mesmo tempo que lia este "Civil Disobedience", reli "Walden, ou a vida nos bosques", a propósito de um clube de leitura organizado em conjunto pela Fundação Calouste Gulbenkian e a Embaixada dos EUA. Foi, portanto, uma dose dupla de Thoreau!!!
Esta obra inclui 4 ensaios, para além do que lhe dá o nome (Civil Disobedience): "Life without principle", "Slavery in Massachussetts", "A Plea for Captain John Brown" e "Walking". Este último vai buscar um pouco de inspiração a Walden, e é um ensaio interessante. Mas os que achei mais inspiradores foram Civil Disobedience e Life without principle. No geral, é uma obra muito rica e actual, faz-nos reflectir sobre temas bastantes actuais, como o capitalismo e o consumismo desenfreado (que começava, naquela altura, a dar os primeiros passos, após a Revolução Industrial). É para mim uma verdadeira inspiração ler uma obra como esta, visto que me revejo em muitas considerações feitas por Thoreau. É, na minha opinião, uma obra menos utópica do que Walden, mais ligada a pessoas e acontecimentos reais.

Deixo-vos com algumas citações (em inglês, porque é a língua em que foi escrito e em que o li), para vos, possivelmente, aguçar o apetite para futuras leituras.

"A man has not every thing to do, but something; and because he cannot do every thing, it is not necessary that he should do something wrong."

"Under a government which imprisons any unjustly, the true place for a just man is also a prison."

"It costs us nothing to be just."

"... for in order to die you must first have lived."

"There is no more fatal blunderer than he who consumes the greater part of his life getting his living. All great entreprises are self-supporting."

"Surface meets surface. When our life ceases to be inward and private, conversation degenerates into mere gossip."

Jane Eyre



Regresso a casa e regresso às rotinas, incluindo as sessões de cinema. Já se sabe que, quando o tempo começa a aquecer, a qualidade dos filmes em cartaz decresce a pique. Por isso há que aproveitar os poucos filmes com algum interesse que vão aparecendo.
Não sabia desta nova adaptação do marcante romance de Charlotte Brontë, Jane Eyre. Conhecia a versão de 1996, com Charlotte Gainsbourg e William Hurt nos papéis principais. Conhecia também a série de televisão de 2006. Esta última não me agradou muito como adaptação e do filme anterior tinha gostado muito, se bem que a atmosfera seja muito negra, talvez um pouco negra demais. Esta nova adaptação cinematográfica, a cargo de Cary Fukunaga, tem assim pontos que me agradam muito, nomeadamente uma luminosidade muito especial (porque Inglaterra não há-de ser sempre cinzenta...). A história, já todos devem conhecer - Jane Eyre, uma orfã rejeitada pela tia, de quem deveria ficar ao cuidado, tem uma educação rígida numa escola que a prepara para o ensino. Torna-se assim preceptora ao chegar à idade adulta e vai trabalhar para Thornfield Hall, onde desenvolve uma relação muito particular com o rude dono da casa, Mr. Rochester. Mas há ainda um terrível segredo que irá assombrar a relação entre os dois! Um clássico bem clássico, portanto.
Será, então, que um filme do qual já conheço toda a história consegue acrescentar alguma coisa ao que já foi feito? Pessoalmente, diria que sim. Há a questão da fotografia, à qual já me referi, e que gostei muito. Há também as interpretações de Michael Fassbender e Mia Wasikowska, que são de uma subtileza fantástica - conseguem dar toda uma profundidade às personagens que não me lembro de ver anteriormente. Só por eles, já vale a pena o filme. Gostei muito desta Jane Eyre, mais humana, ainda que metodicamente contida, mas onde conseguimos perceber as hesitações, apenas pela linguagem corporal - é quase como se nós mesmos conseguíssemos sentir os dilemas que a atormentam.
Por tudo isso, é um filme que justifica uma ida ao cinema, principalmente para quem gosta de clássicos. E, provavelmente, em tempos áridos como os que correm, não haverá muitos filmes assim.

Outra vez do outro lado do mundo...

Passaram menos de 6 meses e lá fui eu novamente para o outro lado do mundo, desta vez para paragens mais frias na América do Norte, mais concretamente para o Canadá.
Se os motivos da viagem foram profissionais, nada como aproveitar a deslocação para umas férias (já merecidas, por esta altura). Assim, fiquei uma semana a passear pela região da Colúmbia Britânica (ou British Columbia, no original), região que inclui a cidade de Vancouver e também a capital de província, Victoria - visitei ambas! Durante uma semana, houve sol, neve, arranha-céus, montanhas, bosques verdejantes - e muito mar. Houve, então, paisagens para todos os gostos, e paisagens bonitas. amplas. São de uma amplitude que não estamos muito habituados por cá, talvez porque há tanto espaço que grande parte dele acaba por ficar livre, perante os nossos olhos.
Foi uma viagem importante para mim. Pela experiência. Pela forma como me "enfrentei" a mim mesma durante esse período. Pelas dificuldades que encontrei e fui capaz de ultrapassar. E também pelas possibilidades que daí advieram - afinal, viajar sozinha não é nenhum bicho-papão.

Agora, ficam as fotografias.


Edifício do Governo, Victoria

Estátua de Emily Carr, ilustre artista de Victoria

Jardins da casa do governador, Victoria

Stanley Park, Vancouver

Esculturas do artista plástico chinês Yue Minjun, inseridas na bienal de Vancouver

Ruas de Vancouver

Whistler, local onde foram realizados os Jogos Olímpicos de Inverno em 2010

Teleférico entre as duas montanhas de Whistler


Whistler depois do nevão


Fotografias por Rita Barbosa