Grizzly Bear: o monstro saiu à rua num dia assim



Chegou o tão desejado dia. Grizzly Bear pela primeira vez em Portugal, concertos a 26 de Maio em Lisboa, 27 no Porto.
A banda de Brooklyn subiu ao palco pouco depois das 22h. Antes havia estado por lá Cibelle, bastante desinspirada. Mas o que importa isso, se o que se passou depois fez esquecer tudo o que ficou para trás?...
O concerto começou com Southern Point, primeira música de Veckatimest, o terceiro e mais recente álbum da banda. Logo aí deu para perceber que seria um concerto poderoso, com os baixos muito pujantes, a fazer saltitar o coração (e a comichar nos ouvidos!). E daí partiu, passando por praticamente todas as músicas do álbum, ainda com incursões a Yellow House, nomeadamente com o fantástico Knife, que fez vibrar a plateia. As alternâncias vocais entre Edward Droste e Daniel Rossen trazem uma riqueza fenomenal à música, tal como os diversos instrumentos a que a banda recorre.
É difícil falar sobre este concerto, porque há demasiado sentimento. Gosto muito das músicas deles, é uma daquelas bandas que foi "entrando" aos poucos, e entranhou-se de uma forma indescritível. Em relação ao concerto, houve um momento que gostei particularmente, que foi quando tocaram Ready, Able, uma das minhas músicas favoritas. O encore também foi muito interessante, com uma versão acústica de All we ask a três vozes. Uma verdadeira maravilha. Fica o desejo de que regressem, sempre. Mas não a festivais, porque a música pede mais, e pede intimidade.

Soul Kitchen



Isto de ter um cartão que permite ir ao cinema as vezes que eu quiser é fixe. :D
Depois da estreia, o segundo filme que vi com o meu novo cartão foi este "Soul Kitchen", do realizador alemão de origem turca Fatih Akin.
Soul Kitchen é o restaurante do jovem Zinos, localizado num antigo barracão de uma zona pouco procurada de Hamburgo. A namorada de Zinos, Nadine, vai partir para a China e insiste que ele a acompanhe, mas Zinos tem o restaurante que não quer deixar. No entanto, vai começar a "fazer contas à vida" quando perceber que a sua relação está periclitante e que o próprio restaurante não sai da cepa torta. Curiosamente, é aí que se dá a reviravolta, com Soul Kitchen a tornar-se um local de referência da cena cultural da cidade! Pelo meio, forças "superiores" vão tentar estragar o negócio ao rapaz, o que vai dando ao filme muito ritmo.
Assim, este filme fala-nos da relação que se tem com os sítios que representam o nosso lar, e com as pessoas que constroem esses sítios. Amizade, família, amor e lealdade são tudo assuntos que percorrem o filme, com algum humor e boa disposição.
Não sendo um filme brilhante, é um filme agradável e despretensioso (bem bom!). Algo previsível, no entanto, tanto que até eu consegui perceber como a história se iria desenrolar! Um ponto muito positivo vai para banda sonora, muito na onda de blues - e não, não inclui a música dos The Doors, homónima do título. Só espero que seja lançada por cá.

Estômago - Uma história nada infantil sobre poder, sexo e gastronomia



Um desejo que vinha desde o tempo da faculdade cumpriu-se, finalmente. E sou, neste momento, uma orgulhosa detentora de um Medeia Card. É certo que houve tempos em que compensou mais. Mas espero que sirva, pelo menos, como desculpa para ir mais ao cinema.
O primeiro filme que fui ver com o meu novo cartão foi este "Estômago - Uma história nada infantil sobre poder, sexo e gastronomia", filme brasileiro de Marcos Jorge. O filme conta a história de Raimundo Nonato e passa-se em dois tempos diferentes: o presente, numa prisão brasileira imunda onde Nonato partilha uma cela, e o passado, em que acompanhamos o percurso do jovem, vindo do interior para a grande cidade à procura de singrar na vida.
Em ambos os momentos, vemos como a culinária é um ponto fulcral na vida de Nonato, e como tudo na sua vida se relaciona(rá) com ela...
Este "Estômago" é um filme muito interessante e bem conseguido. O papel principal, interpretado por João Miguel, é de uma candura quase angelical... E mais não posso dizer, se não perde toda a piada! Assim, apenas posso garantir que o filme é muito bom e divertido.
Fico a pensar: porque é que nós, portugueses, não sabemos fazer cinema assim, despretensioso?...

O Segredo de seus Olhos



Mais uma ante-estreia, desta vez com o alto patrocínio, não do excelentíssimo Presidente da República, mas da prima Joana. Depois de um dia extenuante no laboratório, fui em contra-relógio para o El Corte Inglès para assistir a este "O segredo dos seus olhos", filme argentino de Juan José Campanella que ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado.
A história do filme alterna entre 1999, em que Benjamin Esposito, oficial reformado do Tribunal, aproveita a seu tempo livre a escrever um livro que se baseia no mais brutal caso em que trabalhou durante a sua carreira, e 1974, o ano em que o dito caso aconteceu. Benjamin procura, então, escrever sobre o violento assassínio da jovem Liliana Colotto. Apesar da polícia arranjar dois suspeitos como bode-expiatório, Benjamin e Sandoval, seu assistente, vão descobrir e perseguir o verdadeiro assassino. No entanto, a história do caso vai misturar-se com o rumo da vida do próprio Benjamin, tanto em 1974, como 25 anos depois.
O filme tem uma atmosfera de suspense, como é perceptível pela história que acabo de descrever. É um filme interessante e cativante, se bem que talvez um pouco longo. Ainda assim, é um filme competente. No entanto, e pensando que entre os outros nomeados ao Óscar estavam, por exemplo, Um Profeta, parece um pouco exagerada tal distinção.
De qualquer forma, vale com certeza uma ida ao cinema. Até porque, como dizem no filme, não se pode dissimular as nossas paixões nos nossos actos, se é que me faço entender.

Gil Scott-Heron, o gigante



O dia 17 de Maio trouxe consigo, até Lisboa, essa lenda que dá pelo nome de Gil Scott-Heron. Primeira passagem do músico de 61 anos por Portugal, incluiu dois concertos: um na Casa da Música, no Porto, e outro na Aula Magna, em Lisboa (ao qual eu assisti).
Embora não conheça extensivamente a obra do senhor, a expectativa era muito. Com mais de 40 anos de actividade na área musical, Scott-Heron é também uma referência do activismo negro nos Estados Unidos da América. O concerto começou com um "diálogo" com o público, nomeadamente sobre os constrangimentos impostos pelo vulcão islandês (yah-yah-oh, segundo ele), e também com referências ao seu passado (como o facto de ter estado desaparecido, que é como quem diz, na prisão). Depois, a luz baixou de intensidade e foi como se tivesse sido transportada para uma outra época. Num passe de magia (bem ao jeito deste blog), estava no século XIX, na altura do nascimento do blues e do jazz, algures nas margens do Mississipi...
A primeira parte do concerto contou apenas com Scott-Heron sentado ao teclado, a tocar músicas mais intimistas (não me perguntem pelo alinhamento!). Depois, entrou a banda: um percussionista, uma teclista e um senhor que tocava harmónica; e o ritmo mudou. Mas a magia continuou.
Acho que não tenho palavras para descrever este concerto. Foi tão bonito que só me apeteceu fechar os olhos e absorver toda aquela música. É um daqueles calores que enche a alma (mais ou menos como a Marta disse). Por isso, é preciso ter lá estado para perceber do que estou a falar.
Houve um momento em que fiquei triste, porque os músicos saíram ao fim de uma hora em palco. Felizmente, voltaram para dois encores que deram quase outro tanto à duração do concerto.
Obrigada, Gil.

A chachada do Bernardo, seguido do anjo de 60 anos



Para acabar a semana multicultural, houve concerto de Vashti Bunyan. Cantora inglesa nascida a meio dos anos 1940, teve uma curta carreira musical no final dos anos 60, tendo desaparecido da cena musical depois do lançamento do seu primeiro álbum, em 1970. Reapareceu nos anos 2000, tendo editado o segundo álbum em 2005. Embora pareça que até conheço bem a senhora, não é bem o caso. Foi-me chamada a atenção para a sua música seguramente há menos de um mês, por isso é, a modos que, um amor recente.

Assim, este concerto no Lux caiu que nem uma luva para poder explorar melhor a sua música. Grande senão da questão: a primeira parte feita pela coqueluche (e, provavelmente, expoente máximo) da nova música pseudo-qualquer-coisa portuguesa, B Fachada. A azia começou logo com o facto do rapaz ter escolhido o mesmo restaurante que nós para jantar. E continuou na meia hora em que tivemos que o ouvir cantar - músicas que parecem sempre a mesma (apesar de acompanhado por um contra-baixista, nada salva o facto de as músicas serem repetições de um mesmo acorde...), letras metidas a intelectuais mas que no fundo nada mais são do que fúteis e nada espontâneas, e ainda os trejeitos do rapaz, que deve achar mesmo cool abanar incessantemente a cabeça, levantar o sobrolho e fazer beicinho, tudo enquanto canta naquela voz de falsete para a qual não há a mínima paciência!!! Também bastante interessante é ouvir os comentários dos pseudo-fãs deste pseudo-cantor - desde apelidarem-no de cantor de intervenção a elogiarem a crítica social das suas letras... Deve ser aquele refrão "quero ser como o Panda Bear/ e entrar onde eu quiser", concerteza... Mas como o objectivo não era ver esta Chachada, vou acabar este momento de libertação de azedume.
Felizmente, o Bernardinho (betinho de Cascais, by the way) deixou o palco para dar lugar a Vashti. A senhora veio acompanhada de dois músicos, uma rapariga e um rapaz. Ele esteve dedicado à guitarra, ela alternou por vários instrumentos, desde o xilofone à flauta transversal, passando pelo teclado, entre outros. Tocou durante cerca de uma hora, desfiando canções simples e doces, como se cantar fosse a coisa mais natural do mundo. Músicas que soam a um tempo onde o tempo não existe. Lembrando que nunca é tarde para fazermos o que gostamos, e chegarmos a um sítio onde realmente pertençamos.

F***r e ir às compras



Numa semana recheada de cultura, houve também espaço para uma ida ao teatro. Mais precisamente, ao Teatro São Luiz, para ver esta peça "F***r e ir às compras".
Noite de alguns percalços, nomeadamente o trabalho que durou até tarde e me fez atrasar, tendo perdido a primeira parte da peça. Assim, a opinião que posso, ou não, ter, não é particularmente fundamentada... Ainda assim, do que vi, não gostei por aí além. Serei eu muito púdica para este tipo de linguagem?

Histórias da Idade de Ouro



Regresso às ante-estreias com bilhetes ganhos por mérito próprio. O filme, com guião de Cristian Mungiu, realizador que ganhou a Palma de Ouro em 2007 com "4 meses, 3 semanas e 2 dias", é uma colecção de histórias de tamanho variável que pretendem relatar mitos urbanos referentes aos últimos 15 anos do regime comunista ditatorial de Ceausescu - a dita "Idade de Ouro".
As histórias, nesta versão (porque, aparentemente, há outra mais longa), são cinco. Na versão longa, eram seis. Histórias que abordam, através do humor, acontecimentos do dia-a-dia sob o regime comunista e as dificuldades passadas. As situações são caricatas, como convém aos ditos mitos urbanos. Desde um carrossel que é posto em marcha sem que haja ninguém para o desligar, até a uma matança do porco com recurso a gás, dentro de casa... Tudo é possível, porque os tempos eram difíceis.
Para não desvendar mais sobre o filme (porque senão não tem piada), posso apenas dizer-vos que gostei muito - desde o absurdo das situações à alegria das personagens, passando por todo o imaginário dos anos 80. Digo-vos, também, que uma das histórias me fez pensar que há situações no meu dia-a-dia que lembram um regime ditatorial... e mais não digo. Vão ao cinema.

Greenberg



Greenberg, o novo filme de Noah Baumbach. Não que tenha visto algum, mas fiquei a saber que o senhor é amigo de Wes Anderson e até o ajuda na escrita dos guiões - o que, por si só, já diz muito sobre ele.
Greenberg é Roger Greenberg, interpretado por Ben Stiller, de regresso a papéis menos comerciais. E extremamente magro, com os ossinhos da cara demasiado salientes. Greenberg mora em Nova Iorque, mas volta a Los Angeles para ficar em casa do irmão, enquanto este faz uma viagem com a família ao Vietname. De regresso ao local onde cresceu, Greenberg vai reencontrar-se com os antigos amigos (e fantasmas do passado). Mas vai, também, conhecer novas pessoas. Tudo isto numa onda de ressentimento, porque o senhor é, provavelmente, a pessoa mais egocêntrica e rancorosa à face da Terra! Todas as situações ele vê de uma forma complicada, exasperada. Todas as situações ele estraga, convencido em convencer os outros que não há esperança para a vida. Por isso, o melhor é fazer nada. Nada. Aliás, como se pode observar no diálogo com o seu melhor amigo: "Youth is wasted on the young."; ao que ele responde: "I'd go further. I'd go: 'Life is wasted on people.'" É este o sentimento que impera.
Apesar de tudo, parece haver pessoas que têm paciência para este senhor, que lhe dão o benefício da dúvida, apesar dele nem sequer o querer (aparentemente). Assim, contra todo o seu esforço, pode mesmo haver esperança para Greenberg. Graças, principalmente, a Florence (interpretada por Greta Gerwig, da qual muito gostei), a assistente/governanta do irmão, uma rapariga algo estranha, mas de uma generosidade cativante...

Fiquei algo surpreendida, porque, pelo trailer, estava à espera de um filme mais "cómico". Mas, pelo contrário, o filme é muito triste, no sentido em que as pessoas aí retratadas podem mesmo ter um lugar na vida real, e que é difícil perceber quais são as decisões correctas ao longo da vida. Claro que há situações cómicas ao longo do filme, mas são de um cómico-triste.
É um filme bonito. E triste. Que me deixa com algumas ideias para meditar.

"It's huge to finally embrace the life that you never planned on living."

e algo como

"Um psiquiatra disse-me um dia que não sei viver no presente. Por isso, vivo no passado, porque sinto que nunca o vivi verdadeiramente."

Humpday



Graças à prima Joana, eu e a Carol fomos ver a ante-estreia deste "Humpday - Deu para o torto". Já há muito tempo que não havia bilhetes à borla, estava com saudades!
Apesar de tudo, estavamos um pouco apreensivas, porque a sinopse do filme deixava um bocadinho a desejar: dois melhores amigos da faculdade encontram-se passado vários anos, sendo que trilharam caminhos muito diferentes; um casou e comprou uma casa, o outro é um artista que percorre o mundo em busca de aventuras. Numa noite de copos para festejar o reencontro, têm uma ideia fantástica: fazer um filme pornográfico com dois homens heterossexuais a ter relações um com outro, neste caso eles os dois. E fazem desta ideia um porta-estandarte do ideal artístico...
Como será óbvio, tal decisão acarreta um conjunto de situações muito divertidas, em que os dois homens se sentem, basicamente, em despique - quem é macho mais macho e que vai levar a ideia até ao fim?...
Embora a história seja, aparentemente, meia palerma, o filme é bastante divertido, e de uma forma inteligente. E, na minha opinião, acaba por ser também uma crítica social ao fenómeno que vivemos hoje em dia, em que qualquer coisa pode ser denominada de arte, desde que haja alguém a acreditar nisso... E que nós, comuns mortais, que não temos propriamente queda artística, não somos piores pessoas por isso, nem temos menos interesse ou profundidade.

1º de Maio no Porto (ou o passeio por Miragaia)

Para comemorar a chegada de Maio e o Dia do Trabalhador, a família Resende foi fazer uma visita, guiada pela tia Mana, à freguesia de Miragaia, cidade do Porto. Aqui fica uma amostra desse belo passeio.











O chamamento!



Jardim suspenso (da Babilónia...)

Indie Lisboa 2010 (6)



5ª feira, 29 de Abril, 19h, Grande Auditório da Culturgest:



As Horas do Douro, de António Barreto e Joana Pontes.

Provavelmente, o momento mais esperado e desejado desta edição do Indie. Para mim, está claro. Filme/documentário concebido por António Barreto e realizado por Joana Pontes (a mesma dupla de Portugal, um retrato social), retrata a história do Douro enquanto região vinhateira. Começa com a poda das vinhas velhas, após a vindima, e segue a cronologia do processo, incluindo o enxertar das vinhas, o seu crescimento, apanha da uva e vindima propriamente dita, acabando novamente com a poda. Ao longo do processo, vão sendo contadas histórias da origem das grandes companhias de vinho do Porto, sua instalação na zona, como era feita a produção, falando igualmente, depois, da produção de vinhos mesa, que veio "revolucionar" a região.
Embora, por um lado, tenha ficado um pouco desapontada porque o filme é redutor, no sentido em que apenas fala sobre os vinhos e a vinha, por outro lado, encheu-me a alma ver o Douro retratado de forma tão bonita. Não é difícil, também. Aquela paisagem é, realmente, maior do que tudo o resto.
Fiquei nostálgica. Emocionada. Houve alturas em que senti os olhos humedecerem-se. Porque, no Douro, tenho a sensação de estar em casa. Tal como acontece com a paisagem beirã (adorada Serra do Montemuro!), sinto que é maior do que eu, e que me preenche a alma.

Indie Lisboa 2010 (5)



3ª feira, 27 de Abril, 21h30, Cinema City Classic Alvalade:



Eamon, filme de 2009, realizado por Margaret Corkey.

Fugindo à onda de documentários, veio este filme irlandês que nos conta a história de Eamon, um menino de 6 anos, e da forma como ele se relaciona com os pais.
Eamon é uma criança complicada, que nutre uma verdadeira obsessão pela mãe. De férias com a família numa praia irlandesa, o miúdo tudo faz para que não haja qualquer tipo de relação entre a mãe e o pai, que vai lentamente começando a desesperar com a situação. O que o vai conduzir às últimas consequências...
Assim se passam 85 minutos de filme, que culminam num surpreendente final. Com muito humor, é certo, este filme não deixa de ser desconcertante e, por diversas vezes, conseguiu tirar-me do sério. Assustador.

Indie Lisboa 2010 (4)



2ª feira, 26 de Abril, 19h, Cinema São Jorge:



MusicBox Club Docs: J.P. Simões - mais um documentário musical, desta vez sobre um dos meus músicos portugueses de eleição, J.P. Simões. Músico da cena conimbricense, começou a sua carreira nos Pop Dell' Arte, tendo depois constituído os Belle Chase Hotel. Depois veio Quinteto Tati, com o seu fantástico álbum Exílio e, em 2007, lançou-se a solo e em nome próprio com o álbum 1970 (ano do seu nascimento).
O documentário mistura excertos de um concerto no MusicBox, em Lisboa, com uma entrevista ao músico feita pelas ruas da cidade, nas imediações do clube lisboeta. É uma delícia ouvir J.P. (iniciais para João Paulo, se não estou em erro) falar, com a sua voz calma e doce, mas de discurso mordaz e algo desiludido. Tal como é uma delícia ouvi-lo cantar. Neste documentário, ficámos a conhecer um pouco da imagem do seu percurso musical, influências e desatinos, mas também da sua forma de estar na vida e (pseudo) ambições. Contador de histórias inveterado, é um talento de pessoa. Ou, pelo menos, imita bem.

Indie Lisboa 2010 (3)


Domingo, 25 de Abril, 18h, Cinema São Jorge:



On the road to Femina - documentário realizado por Jorge Quintela (personagem misterioso que tenho a certeza de conhecer...), acompanha a gravação e produção do álbum de The Legendary Tiger Man, Femina. As viagens do músico para gravar os diferentes duetos que constituem o álbum conduzem-nos, música a música, por um mundo de um certo "glamour trash" - as presenças femininas de Asia Argento, Cibelle, entre outras, muito contribuem para esse sentimento. Depois da produção, segue-se o lançamento e concertos de apresentação do álbum, um pouco por todo o país. Embora interessante, é um documentário um pouco "passivo", por assim dizer - somos realmente espectadores do processo, mas parece-me que a interactividade é, a modos que, nula. E, assim, é um pouco chato.

Domingo, 25 de Abril, 21h30, Grande Auditório da Culturgest:

Traces of a Diary - Fragmentos de um diário, documentário realizado por Marco Martins e André Príncipe, tem como objectivo mostrar-nos os mais importantes fotógrafos japoneses contemporâneos. Para mim, filme sobre fotografia é, logo à partida, uma premissa para me interessar. Os fotógrafos que são retratados têm em comum (dando o nome ao filme) o facto de verem a fotografia como processo diarístico. Nunca tinha pensado nisso, eu mesma, mas senti uma certa identificação com esse sentimento: a fotografia como forma de diário do que vamos vendo, experienciando, e do que nos vai tocando ao longo do processo chamado vida. Passeando por Tóquio em visitas aos fotógrafos, vamos entrando nas suas vidas e nas suas histórias... e percebendo o que os motiva enquanto profissionais.
O documentário é, assim, um bonito exercício artístico, e deve ter dado um gozo imenso aos realizadores! Acaba por ficar um pouco de inveja (...), o desejo pela luz e a vontade irreprimível de tirar fotografias. E "escrever" o meu diário.

Indie Lisboa 2010 (2)

Procurei muito, mas não consegui encontrar o cartaz do filme que fui ver na noite de sábado...

24 de Abril, Cinema City Classic Alvalade, 00h00:

"Orly", de Angela Schanelec (2010).

A acção do filme passa-se no aeroporto parisiense de Orly, captando fragmentos de diferentes histórias, vividas por personagens diversas, nesse local de transição por excelência.
Uma mulher e um homem, desconhecidos, conversam. Ela parte para Montréal, ele para São Francisco, ambas franceses de gema. Ela perde o casaco, e ambos trocam histórias - ele vai deixar os EUA e voltar a Paris. Ela inveja-o. "Onde te posso encontrar?", acaba ela por perguntar.
Um filho e uma mãe conversam, de partida para o funeral do pai/ex-marido. Entre advertências e discussões pequenas, confessam um ao outro as suas paixões secretas.
Um jovem casal alemão em trânsito, na sua viagem pela Europa. Ele gosta de fotografia, ela gosta de se ver no seu olhar. Mas o olhar dele fixa-se numa desconhecida, ela que abandonou alguém... de quem mais tarde vai ler a derradeira carta.
A câmara vai alternando entre estas diferentes histórias, misturando-as com o burburinho de aeroporto, apenas interrompido pela pungência de uma canção de Cat Power (Remember Me).

A premissa é boa, mas o filme podia ser melhor. De alguma forma, parece-me que o espectador não é suficientemente envolvido pela história. Mas não deixa de ser bonito.

Indie Lisboa 2010 (1)


O Indie Lisboa, festival internacional de cinema independente, deste ano começou na quinta-feira, dia 22 de Abril. O dia de abertura é sempre complicado, em termos de bilhete, por isso só "atacámos" a questão a partir do segundo dia de festival. E este ano até houve direito a comprar caderneta de bilhetes, por isso vai ser mesmo bem aproveitado (pelo menos, assim o espero).
Para começar em beleza, dose tripla de filmes, todos seguidinhos! O melhor foi mesmo fazer a ginástica entre as 3 salas (sim, porque foram todos em salas diferentes), com intervalos de cerca de meia-hora... Mas conseguimos!

O primeiro filme passou no Cinema São Jorge, às 19h:

"When You're Strange", documentário de Tom DiCillo (2009).


Como facilmente se percebe pelo título, este documentário é sobre a carreira dos The Doors. É narrado por Johnny Depp, e "segue" a banda desde o início, quando os diferentes membros se conhecem, até ao fim, trazido pela morte de Jim Morrison, em 1971. É engraçado perceber a cronologia das criações da banda, com diferentes estilos, acompanhar os problemas que foram surgindo devido à dependência de Morrison em relação às drogas e ao álcool. Por outro lado, é interessante ter esta perspectiva quando se conhece o filme de Oliver Stone ("The Doors", 1991), porque há pontos comuns, mas também toda uma visão muito diferente da dinâmica da banda. Fica a certeza (e a saudade...) de que The Doors foram uma banda sem igual, tendo deixada uma marca importantíssima na iconografia dos últimos 50 anos.

O segundo filme passou no Cinema Londres, às 21h15:

"La Reine des Pommes", de Valérie Donzelli (2009).


Tudo começa com Adèle a ser deixada pelo seu namorado de longa data, e amor da sua vida, Mathieu. A jovem fica desesperada e não sabe como há-de continuar com a sua vida. Sem sítio para onde ir, acaba em casa de uma prima rabugenta, que a aconselha a ver outros homens para esquecer o seu grande amor. Assim, vai conhecendo vários amantes, mas em todos eles vê a imagem de Mathieu, que não a abandona.
Esta é a grande piada do filme, uma vez que é o mesmo actor que desempenha todos os papéis (coisa que eu só percebi quase no final...). Gostei do facto de o filme ser, maioritariamente, filmado no Parc Montsouris e zonas adjacentes, que é um lugar de Paris do qual gosto particularmente.

O terceiro filme passou no Cinema City Classic Alvalade, às 23h30:

"Radio On", de Chris Petit (1979).


Se calhar, três filmes seguidos foi um pouco demais. Este "Radio On" talvez não fosse, também, o melhor filme para ver a esta hora... O filme tem uma narrativa algo parca, em que os diálogos são coisa rara. É engraçado, porque, sendo co-produzido por Wim Wenders, mantém algum espírito do realizador alemão. A fotografia, a preto-e-branco, é fenomenal. Mas a hora já ia adiantada e o sono era muito! Por isso, a viagem de um DJ de Londres até Bristol para perceber o que se passou com o irmão (que morreu), acompanhado de uma excelente banda-sonora, passou-me um bocadinho ao lado...

Lembra-te de mim



No seguimento de ter visto o "Crepúsculo" no fim de semana passado (e ter ficado relativamente fã de Robert Pattinson), tive que ir ver o filme que ainda está em cartaz com o dito rapaz! Consolar os olhinhos, portanto... :D
O filme conta a história de Tyler, um jovem adulto cuja vida familiar já passou por muitas atribulações, que resultaram numa relação difícil com o seu pai. O jovem vive, assim, uma vida sem grande propósito ou objectivos, como que à deriva. Até conhecer Ally, uma jovem que também viveu acontecimentos trágicos, mas que seguiu com a sua vida de uma forma positiva. As circunstâncias em que se conhecem vão, no entanto, colocá-los um contra o outro...
Um bocadinho melodramático, com um desfecho que, para mim, foi bastante inesperado. Mas, apesar de tudo, um filme com alguma doçura e que acaba por ser envolvente. A banda sonora é muito boa (reconheci muitas músicas ao primeiro acorde!), incluindo nomes como Sparklehorse, Ed Harcourt, Ani DiFranco ou Sigur Rós.
O objectivo foi, portanto, cumprido! Agora, o rapaz só precisa de fazer mais filmes, para poder dar azo aos meus delírios adolescentes.

Uma noite atribulada



Programa de sexta-feira à noite - cinema. O filme - Uma noite atribulada, com Steve Carell e Tina Fey, dois pesos pesados da comédia norte-americana. Uma certa relutância da minha parte, que sou sempre algo preconceituosa em relação a estas declaradas comédias (desconfio sempre do grau de piada que possam ter...). E uma surpresa bem agradável!!!
Ora, então, história - Steve e Tina são são Phil e Claire, um casal que vive nos subúrbios de Nova Iorque, cuja vida entrou num rotineiro rame-rame. Até as noites em que saem juntos se transformaram em espaços de discussão dos afazeres domésticos!
Cansados desta realidade, resolvem fazer algo de diferente e ir até à cidade para jantar no restaurante mais badalado - que calha de estar cheio... Determinados a não dar parte fraca, infiltram-se no dito cujo fingindo ser um casal que não responde à chamada para a sua mesa - e aí começam todos os problemas. O casal original é, afinal, procurado por gente muito perigosa, e assim começa a aventura, numa noite que eles jamais irão esquecer!
O filme está muito bem conseguido e as actuações são fantásticas. Há situações completamente hilariantes, daquelas de nos deixar agarrados à barriga de tanto rir. Mesmo nas cenas de acção, o filme é original, por isso, vale bem uma ida ao cinema.
Já não me ria assim, com gargalhadas sentidas, há muito tempo. Até me faltou o ar, de tanto rir. E isso só pode ser saudável.

:D

O que faz falta



"O que faz falta" é um musical que está em cena no Teatro Villaret. Com canções de Chico Buarque, é baseado na obra "Fuenteovejuna", de Lope de Vega. Uma vez que a premissa envolve música do Chiquinho, parecia uma boa ideia para programa de 5ta feira à noite... E, assim, lá fomos nós.
Cenicamente, a peça não está má. Os jogos de sombra e efeitos visuais estão bem conseguidos e são interessantes. Os actores são de qualidade variável (o musical tem um elenco de 11 actores e músicos portugueses e brasileiros), embora alguns deles até sejam conhecidos do grande público. O que, para mim, é realmente sofrível no meio disto tudo é mesmo a história. Devo primeiro dizer que não conheço a obra em que se baseia. Mas a ideia que fica é que é assim algo do género de Gil Vicente, mas para mau. Um estilo demasiado teatral e declamado, extremamente dramático.
Não posso dizer que tenha gostado. Foi bom passar um pouco mais de uma hora a ouvir canções do Chico, o que é sempre um prazer. Mas, tirando isso, não valeu muito pena. Serve a consolação de, pelo menos, andar a aproveitar mais a oferta cultural da capital...

Albert Camus - La mort heureuse



Comprei este livro há pouco tempo, qualquer coisa como um mês, numa ida consumista à FNAC. Há que aproveitar quando se encontram livros dos quais potencialmente se vai gostar. Mesmo que seja para ficarem na prateleira durante algum tempo. Não foi o que aconteceu com este, no entanto. E, passadas duas semanas, já está terminado, para meu contentamento.
Este livro é considerado o primeiro romance do escritor, que foi posto de lado para dar origem a "O Estrangeiro". A temática é semelhante e a personagem principal também... Curiosamente, foi pulicado pela primeira vez já depois da morte do autor.
É um prazer ler Camus. Tem uma linguagem muito ligada à luz e ao sol, aos seus efeitos e sensações. Mas também à moral, à dicotomia certo/errado, bem/mal. É engraçado que é quase como se os seus livros não tivessem nada de especial. Tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderoso, tão pungente. Afirmo novamente: é um dos meus escritores favoritos. Não sei se é pelo imaginário de África do Magreb, mas há qualquer coisa que me emociona e me transporta na sua leitura.
Assim, para quem se interessa por este tipo de leitura, aqui fica a sugestão. Vale a pena.

Deixo-vos com alguns trechos do livro. Estão em Francês, mas foi assim mesmo que foram escritos...

"Nous n'avons pas le temps d'être nous-mêmes. Nous n'avons que le temps d'être heureux."

"Je suis certain qu'on ne peut être heureux sans argent. Voilà tout. Je n'aime ni la facilité ni le romantisme. J'aime à me rendre compte. J'ai remarqué que chez certains êtres d'élite il y a une sorte de snobisme spirituel à croire que l'argent n'est pas nécessaire au bonheur. C'est bête, c'est faux, et dans une certaine mesure, c'est lâche."

"Nous usons notre vie à gagner de l'argent, quand il faudrait, par l'argent, gagner son temps."

"Tout être ayant le sens, la volonté et l'exigence du bonheur avait le droit d'être riche."

"Le contraire d'un idéaliste c'est trop souvent un homme sans amour."

Foge Foge Bandido




Na passada quinta-feira, 8 de Abril, Manel Cruz e companhia desceram até Lisboa para um concerto na Aula Magna. O projecto, desta vez, dá pelo nome de Foge Foge Bandido e o álbum já saiu em 2008.
A noite não começou muito bem, depois da derrota do Benfica em Liverpool... E tivemos que esperar que o jogo acabasse para começar o concerto! Foi a minha primeira vez na Aula Magna, essa sala emblemática da capital. A plateia estava cheia, o que me deixou algo surpreendida. Ainda bem que assim é.
Não conheço bem este álbum, embora tenha ficado muito interessada quando foi editado. Mas como só esteve/está à venda no Jojo's, acabei por me "esquecer" do projecto. Assim, para além do espectáculo, houve igualmente o prazer da descoberta das músicas, o que torna a experiência diferente.
O Manel esteve acompanhado de mais 4 rapazes, pelo que o ambiente esteve animado. O som é bastante rockeiro, às vezes um pouco mais calmo, outras vezes a soar meio a fanfarra. Assim continuou, durante cerca de 2 horas, com direito a encore final pedido por uma plateia de pé! No final, ficou a vontade de comprar o álbum, mas já não havia na bancada montada à saída... Assim, ficou a música na cabeça, juntamente com alguma letras mais marcantes. E o CD pode ser que venha lá mais para Maio. Quem sabe...
Fica, então, a certeza que o Manel Cruz é, provavelmente, o melhor músico da sua geração. Que assim continue.

Notício d'O Público - Parlamento rejeita actualização extraordinária das bolsas de investigação

Embora não seja dada granda atenção à situação, aqui fica o comentário à discussão que ontem ocorreu em Reunião Plenária da Assembleia da República.

" Os projectos de lei do PCP e do Bloco de Esquerda para a actualização extraordinária das bolsas de investigação foram rejeitados no Parlamento com os votos contra do PS e a abstenção do PSD e CDS.

Os dois diplomas tiveram os votos favoráveis do PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes.


O diploma dos comunistas visava estabelecer uma actualização que coincida com os aumentos decretados anualmente para todos os trabalhadores da administração pública.

Propunha ainda uma actualização imediata de 10 por cento nas bolsas inferiores a mil euros e de cinco por cento nos subsídios superiores àquele montante.

O Bloco de Esquerda pretendia que, extraordinariamente, as bolsas atribuídas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia fossem actualizadas em 10 por cento quando se trate de subvenções inferiores a 800 euros, de cinco por cento para valores entre os 800 e os mil euros e dois por cento quando a bolsa ultrapassasse os mil euros.

O Bloco também defendia a criação de um mecanismo de atualização permanente, com um aumento anual indexado ao aumento salarial da função pública definido no Orçamento do Estado. (...)"

Para lerem a notícia completa, sigam este link.
A minha opinião pessoal fica para mais tarde.

Walden ou a vida nos bosques - Henry David Thoreau



Após alguns meses na companhia deste livro, chegou ao fim a sua leitura. Da grande curiosidade inicial, ficaram uns belos momentos de reflexão sobre a vida e a sociedade. Publicado pela primeira vez em 1854, mantém um actualidade ao mesmo tempo vibrante e desconcertante. Este livro resulta da experiência do autor nos dois anos que viveu numa cabana ao largo do lago Walden, durante os quais viveu única e exclusivamente daquilo que a Natureza que providenciava.
Ficam aqui alguns excertos, pensamentos e reflexões que, espero, vos despertem o interesse para tão notável obra.


Que tipo de espaço é o que separa um homem dos seus semelhantes e o torna solitário? Descobri que nenhum movimento das pernas pode aproximar muito uma mente da outra.

Nunca encontrei companhia que fosse tão companheira como a solidão. Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos no nosso quarto.

Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.

Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente.

Um Homem Singular



Domingo foi dia de mais cinema. Não há fome que não dê em fartura, já diz o ditado. Por vezes, tem razão. Finalmente, houve tempo para ir ver este "Um homem singular", o filme que revelou ao mundo Tom Ford como realizador de cinema.
Este filme não é um filme. É uma obra de arte. Um objecto de admiração. Não há um só pormenor deixado ao acaso, desde as filmagens (com diferentes gradientes de cor), aos cenários, ao guarda-roupa... Tudo belíssimo.
Colin Firth, então, está fenomenal no papel de George, um homem de meia-idade que, de um momento para o outro, vê a sua vida virada do avesso, pelo "simples" facto de o seu companheiro de 16 anos, Jim, morrer num acidente de automóvel. Como diz a personagem: "For the first time in my life, I can't see my future. (...) but today I have decided will be different."
E é este dia que nos é dado a seguir. Com um nó na garganta, à espera do desfecho. Intercalado com imagens do passado, recordações dolorosas...

Em termos de história, o filme não é brilhante. Não tem nada de especial. Mas a forma como é contada, como as situações são construídas... É de pura beleza.

O que mais me irritou, porém, é a forma como um filme como este nos faz acreditar em todas essas coisas: amor irredutível, beleza, sensibilidade. Onde está tudo isso? Apenas quando preso a uma tela de ecrã, porque na vida real... Ilusões, é o que é. Por isso, acabei por sair deprimida do cinema! Mas, ao menos, que seja por uma boa razão.

À espera de um futuro...