Bonobo @ Astra Kulturhaus

Antes que Julho termine, deixa-me fazer mais algumas actualizações a este "arredado-para-segundo-plano" blog.
No dia de Santo António (e dia em que a prima Carol chegou a Berlim para passar uns dias comigo), o produtor musical inglês Bonobo passou pela cidade. É uma música à qual tenho algumas ligações emocionais e por isso era um concerto ao qual gostaria de ir. O problema é que, quando me decidi a comprar bilhetes, já eles estavam esgotados... No entanto, no próprio dia do concerto, e por algum acaso feliz, conseguimos comprar dois bilhetes, e lá fui eu e a Carol até à Astra Kulturhaus para ver o dito cujo. Tenho que confessar que, apesar da alegria que me deu termos arranjado bilhetes em cima da hora, não estava no meu melhor dia para apreciar um concerto daquele género. Cansaço, talvez. É sempre difícil perceber porque é que uns dias estamos em sintonia com algo, enquanto noutros dias não. O concerto não foi mau e até reconheci algumas músicas (embora não seja, de forma alguma, uma aficionada). Mas realmente não fiquei imbuída do espírito da coisa. É pena. Valeu pela experiência e pela companhia da minha cousinette. Ou, como diz o outro, a alma não é pequena.

O regresso a casa

o bolo de aniversário

Há razões, para além da mais-que-normal saudade, que me levam a regressar a casa, nem que seja por pouco mais de 48h. E uma delas é, sem dúvida, o aniversário da minha pequena princesa. Já lhe conto 4 anos... Posso usar todos os clichés possíveis e imaginários - "como o tempo voa", "parece que foi ontem que a vi nascer", entre tantos outros. Mas é mesmo verdade (como, aliás, é normal acontecer com os clichés). Parece-me inacreditável que já tenham passado 4 anos sobre aquela terça-feira de nervos e extrema felicidade. Regressar a casa trouxe-me também muita alegria. Rever a família, alguns amigos, os meus gatos queridos!!! Ouvir a Radar, conduzir - tudo coisas que parecem tão insignificantes mas que me faziam imensa falta. Foram, por isso, bons momentos, que aproveitei avidamente. Para guardar comigo, gravados na memória e no coração.

Antes da Meia-Noite

Vamos então ao primeiro update. Aproveitei a ida a casa e fui ver, com a minha querida mana, o terceiro e último capítulo desta história que começou bem lá atrás, há 18 anos. Na minha vida, chegou com um bocadinho de atraso, mas não muito. Lembro-me dos Verões passados a ver o "Antes do Amanhecer" em VHS, quando tinha 14, 15 anos... "Antes do Anoitecer" chegou quando andava eu por terras francesas, onde o vi na companhia da prima Carol. E agora "Antes da Meia-Noite" chega quando ando por terras alemãs... ele há coincidências engraçadas.
Mas então o que se pode esperar quando chega ao fim (não lhe chamaria um fim, mas um encerrar de portas, por assim dizer) uma história que nos acompanhou durante mais de metade de uma vida?... As expectativas são sempre muitas - boas ou más, talvez não interesse. Falei com gente céptica, cuja opinião é de que não deveria haver um terceiro filme, que a história já deveria ter acabado há muito tempo, etc., etc., etc.. O meu sentimento era diferente. Queria saber como a história de amor entre Jesse e Céline evoluiu depois daquele fim de tarde em Paris. Este filme é isso e muito mais. É a fase seguinte. É uma história de amor tornada real, com todas as suas limitações e defeitos. Digamos que o enfoque é, desta vez, na parte problemática das relações a dois - gestão familiar, gestão do tempo que passa e que nos faz envelhecer... Sinto que esta história cresceu comigo, faz intimamente parte da minha vida. E acompanha-me agora na "maturidade", sem as antigas expectativas românticas de outros dias... Nem de propósito. Talvez o amor seja assim. Não sei. Mas continuo a gostar de viagens de comboio.

O silêncio de Junho

Este blog tem estado parado, talvez pelo período mais longo de tempo desde a sua criação, há mais de 5 anos atrás. É um facto talvez inusitado, pois nem quando estive a escrever a tese deixei de me dedicar a esta escrita... Mas Junho foi um mês complicado. Regresso a casa, visitas de família e amigos, trabalho e todo um batalhão de preocupações. A vida prega-nos partidas, por vezes. E estar longe, num outro país, é uma situação tudo menos ideal. A minha cabeça (e, consequentemente, a minha disposição) tem estado aérea. Por isso, encontrar um pouco de calma para me sentar e escrever estas palavras não é fácil. Ainda assim, quero quebrar o silêncio e deixar a mensagem de que espero, em breve, ser capaz de escrever todos os posts que tenho pendentes. Para mim e para vocês, os meus queridos leitores.

Até breve.

Há uma primeira vez para tudo


Como, por exemplo, para ver uma banda que se adora há já muitos anos... E foi precisamente isso que aconteceu neste início de Junho, com a vinda de Iron & Wine a Berlim, num dos poucos concertos que compõem a digressão europeia do senhor.
Estive indecisa em relação a comprar bilhete ou não. Sem companhia, precisei encontrar em mim mesma a motivação para o fazer (não ajudava o preço - elevado - do bilhete). Talvez seja difícil perceber de onde vinham as dúvidas... mas o último álbum não é propriamente o mais fantástico e visionamentos de algumas prestações ao vivo faziam crer que talvez fosse ter uma desilusão. Ainda assim, a influência da M. cá por casa fez-se sentir e lá me decidi a comprar o dito cujo! E assim, nessa primeira quarta-feira de Junho, rumei até ao Admiralpalast, belo teatro no centro de Berlim (a fazer lembrar os nossos teatros), naquela que foi a minha primeira incursão num concerto deste género desde que me mudei para cá.
A primeira parte ficou a cargo de uma banda inglesa, de seu nome This is the Kit. Som calmo, intimista. Gostei. Depois de uma pausa, entra em palco Mr. Beam, Sam Beam (aka Iron & Wine), acompanhado de algo que mais parecia uma mini-orquestra - não faltavam violinos, violoncelo, saxofones, trompetes, e muita gente para ajudar nos coros. A puxar mais para o estilo do novo álbum, portanto, algo distante do som predominantemente folk a que este senhor nos habituou no passado. No entanto, o concerto teve um pouco de tudo, ainda que com especial ênfase no último álbum, Ghost on Ghost. Momentos mais calmos, com Sam Beam em palco apenas acompanhado da sua guitarra, proporcionaram passagens pelo passado, incluindo uma versão surpreendente de Boy with a coin. Aliás, não faltaram versões quase irreconhecíveis de diversas canções (tal como de Such great heights, original dos Postal Service, ou Jezebel). No total, o concerto durou cerca de 1h45, com momentos algo díspares, mas sempre interessantes. Acabou com um encore no qual o músico optou por tocar Naked as we came, sozinho com a sua guitarra.
Claro que ficaram muitas canções por tocar. Algumas das minhas favoritas. Mas com uma discografia já com cinco ou seis álbuns, não é fácil agradar a toda a gente (e eu aceito a minha parte). Talvez o que me tenha desagradado tenha sido o público alemão. Frio, mas ao mesmo tempo barulhento, com pessoas a andar de um lado para o outro durante o concerto, entrando e saindo da sala constantemente. Mais respeito seria agradável.

Tirando isso, foi um belo regresso... ao futuro.

E as visitas continuam


Já diz o ditado que "não há fome que não dê em fartura". O que me parece de alguma forma apropriado para descrever o facto de ter a segunda visita em Berlim apenas dois dias depois de dizer adeus às primeiras visitas. Muito bom.
Desta vez, dei as boas-vindas à M., amiga de longa data. O tempo não esteve propriamente de feição, pelo que foi necessário encontrar estratégias alternativas de "aproveitar" Berlim. O que não foi, de todo, negativo! Foi uma visita diferente - saímos muito, dançamos, divertimo-nos. Provavelmente, como já não acontecia há muito tempo. Ficam para a história noites muito bem passadas. E uma visitante satisfeita. Pelo menos, assim o espero. E cá te esperarei para futuras visitas, miúda.

As primeiras visitas em Berlim


Maio será sempre um mês especial. Quanto mais não seja porque é o mês em que a minha mana faz anos. E, neste ano em que estou longe, ela veio passar o seu aniversário comigo. A minha primeira visita em Berlim. Claro que, com ela, veio o resto da família. O que proporcionou fortes emoções, nomeadamente no reencontro da minha princesa pequenina, e me fez sentir de regresso a casa (ou não tivessem sido eles a minha casa nos últimos cinco anos...).

Foi bom ter a casa cheia, de pessoas e de vida. Foi bom redescobrir uma Berlim mais turística, que ainda não tinha visitado nestes quase 3 meses, mas também conhecer novos lugares. Foi bom poder partilhar com eles aquela que é a minha vida neste momento. E foi principalmente bom poder sentir de novo o carinho que só aqueles que nos amam nos conseguem transmitir... Acho que estava com saudades.

Pequenas coisas da vida


E, ao penúltimo dia do mês de Maio, vejo um postal preso na ranhura da porta ao chegar a casa. São coisas "pequeninas" como estas que fazem os dias valer a pena.

This is not a film

Como já perceberam, as idas ao cinema não têm sido particularmente profícuas aqui em Berlim (a barreira linguística é realmente um problema). Mas descobri (não por mim própria, mas através de uma dica) que existe uma Berlin Film Society que organiza umas sessões temáticas, tendo sempre a preocupação daqueles que não falam a língua alemã. Boa. Para Maio, organizaram as "quintas-feiras dos documentários". Não consegui ir à primeira, mas a segunda não me escapou (apesar da preguiça...), talvez por ser um documentário que há muito me interessava ver: This is not a film, de Jafar Panahi, realizador iraniano que se encontra, desde 2010, numa espécie de prisão domiciliária, tendo sido acusado de propaganda pelo governo iraniano e, consequentemente, condenado a 6 anos de prisão e a uma interdição de 20 anos de fazer filmes, escrever argumentos, dar entrevistas ou qualquer outro actividade relacionada. Foi na sequência desta sentença que Panahi fez este documentário (a ironia do título "Isto não é um filme", porque Panahi se encontra proibido de fazer filmes), cujo objectivo primordial era, aparentemente, contar a história do filme mais recente que o realizador queria fazer. Mas acaba por funcionar como um testemunho, um diário de um homem a quem foi retirada a sua vida. Porque a vida de Jafar Panahi é contar histórias através de filmes.
É chocante sem ser agressivo - está tudo lá, nas entrelinhas. Custa-me ver que alguém com tanto para dizer é impedido de o fazer, enquanto por esse mundo fora tanta gente tem a liberdade de apenas dizer porcaria. É um mundo triste, este. Mas que continuem a sair cá para fora, dentro de bolos ou através de outras estratégias afins, as obras deste senhor, para que possamos continuar a ouvir a sua voz.

1º de Maio



Diz que o 1º de Maio é o Dia do Trabalhador, um pouco por todo o mundo. Mas diz também que o 1º de Maio é um dia especial em Berlim, especialmente na área de Kreuzberg, com um historial de manifestações e confrontos com a polícia. Porquê, não sabia até hoje ter ido ler um pouco sobre o assunto - sendo que o 1º de Maio é, tradicionalmente, um dia de festa e celebração, no ano de 1987 manifestantes de grupos anti-fascistas e de extrema-esquerda envolveram-se em graves confrontos com a polícia, que teve que se retirar por completo da área de Kreuzberg. Desde então (e já passaram 26 anos), o dia é normalmente marcado por alguns desacatos... mas nos últimos anos a situação tem acalmado e, na passada quarta-feira, em que também eu rumei a esse pedaço de Berlim, o ambiente era unicamente de festa. Milhares de pessoas nas ruas, música, comida, bebida. Muita animação. Nada que fizesse propriamente lembrar que estamos num país tão amplamente associado à austeridade... emocional. Porque Berlim é, definitivamente, uma cidade diferente.

E os hipopótamos cozeram nos seus tanques - William S. Burroughs & Jack Kerouac

Último livro que comprei antes de vir para Berlim. E sim, é verdade, regressámos aos Beat. Se calhar, até tenho algum tipo de fascínio por estes escritores...
Este livro tem um contexto importante e interessante, que eu desconhecia até o ler. Antes do desabrochar, propriamente, da Geração Beat, da qual Kerouac, Burroughs e Allen Ginsberg representam os nomes maiores, houve um acontecimento trágico que marcou, provavelmente, o desenrolar da história (minúscula ou maiúscula?...) - a morte de David Kammerer às mãos do jovem Lucien Carr, eles que protagonizavam uma relação excessiva, bem ao jeito dos Beat. E é precisamente a este acontecimento que Kerouac e Burroughs vão buscar a sua inspiração para escrever "E os hipopótamos cozeram nos seus tanques" a duas mãos, livro este que ficou perdido para publicação durante mais de 60 anos e que chegou, neste ano de 2013, a Portugal.
A escrita a duas mãos é bastante interessante porque nos vai dando duas visões distintas dos mesmos acontecimentos. Claro que o livro é, de determinada forma, autobiográfico, porque cada um dos autores conta a história consoante a viu e viveu. Mas claro que também há muito de ficcional nesta escrita. O leitor fica, assim, como que no meio da ponte, entre realidade e ficção. 
Foi uma leitura da qual gostei. Faz um retrato da vida em Nova Iorque nos anos 1940, Segunda Guerra Mundial, excessos atrás de excessos... E de como este ambiente influenciou uma geração de escritores e artistas. 

Pictoplasma - Best of 2013

Escrevo com algum atraso. A semana, ocupada, não me deu paz de espírito suficiente para me dedicar à escrita. Mas este domingo simpático é a altura ideal para o fazer. 
No passado fim-de-semana, fiz o meu primeiro programa de cinema em Berlim. Não para ver um qualquer filme, mas sim para assistir às melhores curtas de animação do festival Pictoplasma (Festival and Conference of Contemporary Character Design and Art). O que foi, definitivamente, uma óptima ideia, visto que gosto de curtas e gosto de filmes de animação. Sinto que, de alguma forma, é mais fácil veicular informação nestes formatos.
A sessão que assisti, como disse, pretendia compilar o que de melhor passou pelo festival. E passaram coisas muito interessantes. Algumas nitidamente com um cariz mais político, como a curta "This land is mine", de Nina Paley (a qual adorei), outras com um propósito específico, como "Dumb ways to die", de Ollie McGill, encomendada pelo Metro Trains como alerta de consciência para os perigos dos comboios. Estas duas foram, provavelmente, as que melhor me ficaram na memória. Mas todo o conjunto era muito interessante, pelo que valeu muito a pena. Muitas gargalhadas, canções que ficam no ouvido (e não querem de lá sair!)... um serão bem passado.

This is the country - William Wall

Pois é, a leitura não anda profícua. Há que continuar a ter esperança e achar que, eventualmente, esta maré há-de mudar...
Ainda assim, após uns bons três meses, cheguei ao fim deste This is the country, de William Wall. Não conhecia o autor nem o livro, mas foi-me recomendado/emprestado pelo Russell, que é uma pessoa cujo gosto literário eu confio. Estava igualmente garantido que estaria na presença de uma leitura algo deprimente... o que não facilitou ao seu andamento.
Vamos, então, à história. Há um protagonista, cujo nome não creio que seja alguma vez mencionado. A acção passa-se na Irlanda, mas não em Dublin, o que me deixa na dúvida se estaremos a falar de Belfast e Irlanda do Norte... mas, realmente, não sei, porque tal nunca é abertamente mencionado. Voltemos ao protagonista - cresceu num qualquer bairro complicado, rodeado por marginais e um estilo de vida problemático. Adolescência mergulhada em todo o tipo de drogas, a sua vida muda quando engravida a irmã de Pat the Baker, o traficante maioral lá do pedaço. A partir deste momento, o rapaz tem a cabeça a prémio e a sua vida irá mudar por completo.
É uma história deprimente, claro que é. Mostra como é difícil dar a volta a uma vida que começa mal, como o percurso de cada um parece estar de alguma forma intimamente ligado a tudo um conjunto de factores fora do controlo, como a vida pode ser inexoravelmente madrasta apesar de todo e qualquer esforço... Será que há volta a dar-lhe? Não sei. Mas, ao mesmo tempo, este livro tem uma mensagem de esperança, por assim dizer. Porque a vida continua sempre, e temos que a viver. Independentemente de ser melhor ou pior, de ser a vida que ansiamos ou não. Há que fazer o melhor com as cartas que se tem na mão. 
Acho que é essa a mensagem. Por isso, gostei.

Palma Violets ao vivo @ Lido

Primeira incursão na cena musical (que não clássica) berlinense. Os escolhidos? Palma Violets, banda originária de Londres, com um pézinho ali no punk-rock. Não conhecia, mas ao ouvir as gravações de estúdio, fiquei impressionada - um vocalista principal com uma voz bem grave, profunda, daquelas que vai até à alma... Bem impressionada, portanto.
Ao vivo, lá se foi a boa impressão. Concerto completamente caótico, com o baixista completamente alucinado (como já não via ninguém há muito tempo...) e a acabar com uma invasão de palco por parte de um grupo de miúdos cuja hora de deitar parecia já ter passado há algum tempo... Enfim. Não digo que os miúdos (perceba-se, da banda) não tenham jeito para a coisa. As (boas) influências estão lá - The Clash, talvez um pouquinho de Joy Division... Mas falta-lhes um bocadinho de juízo. Não digo muito, mas há que crescer e amadurecer um pouco aquela histeria. Se não, não há quem os ature, por muito boa que seja a música.

Berlinische Galerie - Museu de Arte Moderna

Segunda-feira a seguir à Páscoa é feriado na Alemanha. E ele há lá maneira melhor que aproveitar um feriado do que indo a um museu?... Talvez haja, mas para programas solitários, é do melhor que se pode arranjar!
Entre várias hipóteses, optei por fazer uma visita à Berlinische Galerie, que é o Museu de Arte Moderna, Fotografia e Arquitectura cá do sítio - bem ao jeito das minhas preferências, mas também aproveitei o facto de, nas primeiras segundas-feiras do mês, a entrada ser a metade do preço.
Neste momento, para além da exposição permanente, estão patentes três outras exposições (ou, pelo menos, foi aquilo que eu vi). Uma de K.H. Hödicke, pintor alemão; outra sobre os projectos arquitectónicos para edifícios públicos e embaixadas no período posterior a 1990 (no seguimento da queda do muro); e uma terceira de Sergej Jensen, vencedor do Prémio Fred Thieler 2013. Sobre este último não vou falar muito, porque não me despertou particular interesse. Agora das restantes exposições gostei muito. Hödicke tem trabalhos muito interessantes (fotografias do canto superior esquerdo e do canto inferior direito), muito fortes visualmente. A exposição de arquitectura é muito interessante do ponto de vista histórico, porque retrata algo de muito único nos tempos que correm, que é o renascer de uma cidade. É uma perspectiva muito interessante. E a exposição permanente, que faz um compêndio da arte berlinense de 1880 a 1980, engloba todo um conjunto de arte fascinante, passando por várias períodos históricos (Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, Pós-Guerra/Muro), mas também por diversas correntes artísticas.
Gostei muito. Foram 2h30 muito bem passadas, cheias de descobertas.

Novas tradições de Páscoa...


Mais uma Páscoa passada fora de portas. Tem sido tão comum que já não me lembro de estar no Pinheiro rodeada pela família, à espera do cabrito... Mas, desta vez, foi uma Páscoa diferente - não ando a viajar por um qualquer canto do mundo, estou mesmo a viver fora do país. O que torna toda a dinâmica destes momentos diferente.

Assim, o convite feito pelo big boss para um aparentemente típico pequeno-almoço de Páscoa acabou por calhar mesmo bem, mesmo em jeito de substituto de algo mais familiar. 11h em ponto lá estávamos nós no bairro mais chique de Berlim, último piso de um sólido prédio antigo que revela uma casa cheia de charme (incluindo um piano de cauda na sala de estar - que sonho!). Mesa cuidadosamente posta, mas de forma acolhedora, cheia de iguarias. Das quais se destacavam, obviamente, os ovos cozidos, coloridos, quais donos da mesa. O objectivo, segundo percebi, é comer de tudo. E misturar tudo, no mesmo prato. Só não vale não comer. E foi exactamente isso que fizemos, como bons convidados. 

Claro que houve momentos estranhos, de pouco à vontade, como em qualquer situação em que se tenta uma intimidade que não existe. Uma Páscoa diferente, sem dúvida. Mas foi bem giro.

Tannhäuser and the Singers' Contest at Wartburg @ Deutsche Oper Berlin

Com o fim-de-semana da Páscoa veio o primeiro programa "cultural" em Berlim - e que começo auspicioso esse, com uma ida à ópera na Deutsche Oper Berlin. Com a companhia de alguns colegas de laboratório, o final de tarde de sábado trouxe consigo esta obra de Richard Wagner, de seu nome (em Inglês) "Tannhäuser and the Singers' Contest at Wartburg". É uma ópera em 3 actos que conta a história (ou melhor, o drama) de Tannhäuser que, depois de uns tempos bem passados (por assim dizer) na montanha de Vénus, deseja voltar à sua vida terrestre e reencontrar a sua amada, Elisabeth. Com a intercepção da Virgem Maria, Tannhäuser consegue regressar, mas durante o concurso de cantores em Wartburg resolve cantar sobre as suas aventuras com Vénus. O público, enfurecido, decide que ele terá que viajar até Roma e pedir perdão ao Papa pelos seus pecados, o que não acontece, resultando assim na morte de ambos os protagonistas, Elisabeth e Tannhäuser, visto não poderem estar juntos como tanto anseiam.

Assim contado até parece simples, embora muito dramático, sem dúvida! Aparentemente, as óperas alemãs têm uma tendência para o dramatismo... Mas agora imaginem assistir a esta obra com os cantores a cantarem em alemão e com as legendas em alemão. Ora bem, não percebi nada. Tenho mesmo que confessar. Esforcei-me, mas foi complicado. No entanto, foi uma experiência muito interessante, porque as partes "universais", como a música e a encenação, eram de uma qualidade muito elevada. A encenação, em particular, surpreendeu-me pela sua complexidade. 
Por isso, primeiro programa cultural aprovadíssimo. Deixa vontade de voltar, provavelmente para algo um bocadinho mais animado e menos trágico. Mas, sem dúvida, uma experiência para repetir.

Ah, e com a modesta duração de 4 horas...

Berlim: a primeira semana



De vez em quando é preciso fazer pontos de situação. E quando nos mudamos para um país novo, a necessidade talvez seja um bocadinho maior... Então, agora que já ultrapassei a minha primeira semana em Berlim, o que tenho a dizer sobre isso?
Bem, a primeira coisa que me vem à cabeça é talvez o frio - como está frio nesta terra! Já nevou várias vezes desde que cheguei e o manto branco por cá continua, sabe-se lá para durar até quando. É giro, claro que é, mas a partir do segundo dia acho que perde o encanto (como tudo que entra na rotina). Fica o frio que se entranha pelos ossos, e os fusos de gelo do lado de fora da janela. Portanto, para além da neve, de que posso eu falar?... 
Ainda não deu para passear muito, pelos motivos indicados no parágrafo anterior. Para além de um passeio pelo Tiergarten, no centro da cidade, apenas dei um outro passeio no parque de Büch, a bela terriola onde está sediado o instituto... Neve, neve, neve, lagos gelados que ainda assim não "empurram" os patos para paragens mais quentes (como o nosso Portugal). Tempo houve também para socializar e começar a conhecer novas pessoas, explorar a gastronomia da cidade, preguiçar pelos inúmeros cafés... Tentar de alguma forma afastar a estranheza, inevitável por estes dias.

Mas é mesmo assim. Tudo faz parte do processo. Primeira semana - check. Com um sorriso.

Ich bin ein Berliner*


Pois é, o mote tinha sido dado há já alguns meses. E agora aconteceu mesmo. O Terceiro Passo mudou de ares. Anda a passear. Para ver mundo e, quem sabe, mudar de vida. Permitir que a ilusão finalmente se complete. Sempre nessa ânsia... Porque "tudo vale a pena, se a alma não é pequena." Como dizia o genial Pessoa, cheio de sabedoria. Que a alma seja sempre suficientemente ampla para abrir os olhos e abraçar a vida. Que hoje seja Berlim a acolher-me, mas que possa sempre sentir o carinho do mundo... onde quer que vá. E fazer parte dele.

*no passado JFK, hoje eu

O regresso (e o adeus) ao Clubbing da Casa da Música

Passados quase dois anos (e após uma ligeira mudança de formato), regressei às sessões de Clubbing da Casa da Música. O principal motivo?... O regresso a Portugal de uma banda mítica, de seu nome Yo La Tengo (que, face ao preço do bilhete, foi realmente uma oportunidade imperdível). O ter podido assistir a este concerto com a companhia de dois grandes amigos foi um enorme bónus e fez desta ida à Casa da Música uma bela despedida (um até breve, prefiro assim).
Os Yo La Tengo fazem, desde há muito tempo, parte do meu imaginário musical. No entanto, não possuo nenhum dos seus álbuns e, tenho que confessar, também não conheço particularmente bem a música do trio americano. Mas aquilo que conheço, gosto, e isso é suficiente para me levar a um concerto. 
Acho que posso afirmar que este foi um concerto único. E passo a explicar porquê. Primeiro, houve durante praticamente todo o concerto uma sensação de desconforto da banda, como se o palco fosse demasiado grande para eles, bem como a plateia cheia. Que culminou no momento em que Georgia Hubley é "obrigada" pelos restantes membros da banda a ser a voz de uma canção em que quase se ouvia apenas... a sua voz. Estranho, portanto. Depois, houve claramente uma alternância entre temas mais "barulhentos", com Ira Kaplan a divertir-se ao comando das suas diversas guitarras, e momentos bem mais calmos e intimistas. Ao mesmo tempo estranho e interessante, com os momentos mais barulhentos a serem quase hipnóticos, por incrível que pareça... Foi um estranho bom, um concerto sem pré-formatação, diferente daquilo que estou habituada.
O encore, com uma versão a cappella de "You Can Have It All", foi realmente a cereja no topo do bolo. Porque, de vez em quando, é bom ouvirmos as nossas músicas favoritas quando vamos a concertos.

Uma tarde bem passada


Hoje passei uma tarde diferente. Há já algum tempo que tinha curiosidade em aprender a técnica de pintura em tecido com stencils - pelo menos desde que a minha mãe começou a fazer obras tão bonitas com essa técnica. Hoje foi o dia em que me juntei a ela e a outras senhoras da Universidade Sénior de Cinfães para me iniciar nessas lides. O resultado foi este pano da louça, decorado com motivos algo pascais... Fiquei contente com o resultado e, principalmente, por ter aprendido algo novo. Fossem todos os dias assim.

Hitchcock

Se por um lado, se quebrou o enguiço da leitura, por outro lado temos enguiço para ver o tão aclamado "Amor", filme de Michael Haneke. Depois de muitas combinações e descombinações, lá rumámos ao El Corte Inglés para ver o filme quando, para nossa surpresa, não havia exibição à hora desejada naquele dia... No calor do momento e na posição de ter que escolher um filme substituto, a escolha recaiu neste Hitchcock, filme que retrata os métodos pouco convencionais do realizador por altura das filmagens de Psico.
Apesar das críticas que tinha lido até então não serem propriamente positivas, resolvi arriscar. Até porque a curiosidade em ver o filme existia de facto. Mas, para mal dos meus pecados, as críticas tinham razão. O filme é pobrezinho - Anthony Hopkins está estranhíssimo no papel de Hitchcock (parece que só se vê o silicone e a maquilhagem do "disfarce"), a história está demasiada simplificada (acharam que o espectador não teria capacidade para mais...) e tudo se desenrola à superfície, sem nunca ousar ir mais além. Hitchcock é retratado como um excêntrico, viciado em comida e bebida, voyeur e control freak - se corresponde ou não à realidade, não sei. O melhor do filme é, provavelmente, a interpretação de Helen Mirren, no papel de Alma Reville, esposa de Hitchcock. Aí sim, vê-se um pouco de profundidade, de sentimento... Tirando isso, é "produto acabado, da sociedade de consumo imediato. Mastiga. Deita fora. Sem demora."

The Bat - Jo Nesbo

O enguiço parece ter sido quebrado. Ou, pelo menos, temporariamente. Porque logo a seguir a acabar de ler Queer, foi me oferecido este The Bat, primeiríssimo volume da saga de Jo Nesbo que tem como protagonista Harry Hole, o que reavivou em mim o desejo de ler. Vai-se a ver e o que faltava era um bom thriller para me arrancar do marasmo!
Ora então, depois de ter lido quatro livros (acho eu, mais coisa menos coisa...) desta "colecção" e de muito ter lido sobre como Harry Hole ajudou a capturar um assassino em série na Austrália, chegamos finalmente ao ponto de conhecer esse episódio e ler o início dos inícios. Sim, porque a tradução para inglês data de 2012, se não me engano, apesar do livro ser originalmente de 1997... Mas vamos ao que interessa - como é chegar, apenas agora, ao início da saga? Se calhar não faz muita diferença, visto que li todos os outros livros fora de ordem... Mas, por outro lado, talvez haja aqui algo mais. Depois de ter lido aqueles que são os capítulos mais recentes, é bom perceber de onde tudo vem - quais as informações primordiais que temos sobre Harry, onde é que tudo correu mal, "porque é que ele é como é", se assim quisermos pôr a questão. É uma boa premissa. Já o enredo propriamente dito, acho que é bastante mais inocente do que aquilo que posteriormente temos oportunidade de ler, no seguimento da sua obra. Há menos pormenores, há menos suspense. Acho que se nota que é a primeira obra, com todas as suas limitações, mas também com uma energia genuína.
Claro que gostei, e gostei particularmente de voltar a sentir apetite para "devorar" um livro. Jo Nesbo é um artista destas lides dos thrillers.

Django Libertado

Já li de tudo um pouco sobre o mais recente filme de Quentin Tarantino. Desde descrições que o põem num pedestal, qual oitava maravilha do mundo cinematográfico, a críticas acérrimas relativamente ao conteúdo racista e pouco dignificante da história da escravatura nos Estados Unidos. Tenho que confessar que me custa perceber tanto umas como outras opiniões...
Para mim, que não sou propriamente a maior seguidora de Tarantino, embora aprecie bastante o género, os filmes dele são uma desconstrução da violência - está sempre presente, mas é uma violência um pouco à desenho-animado, não é para levar muito a sério. 
Django, exercício com quase 3h de duração, conta a história de... Django, está claro, interpretado por Jamie Foxx (actor que não gosto), escravo libertado pelo Dr. King Schultz (interpretação fantástica de Christoph Waltz), um alemão nos EUA, para juntos partirem pelo Sul caçando prémios e procurarem a mulher de Django, Broomhilda, ainda escrava. Pelo caminho, temos muito pedaço de corpo arrancado a tiro, muita polpa de tomate espalhada pelo cenário - o que apenas me consegue arrancar umas verdadeiras gargalhadas. Pelo caminho iremos encontrar, igualmente, o esclavagista Calvin Candie, numa interpretação de Leonardo DiCaprio que não me encheu propriamente as medidas (não é que esteja mal, mas não acho que seja a melhor interpretação que ele já fez, como também já li por aí). Claro que não poderia faltar a cena de carnificina, tão amada por Tarantino, e que, neste caso, chega já quase no final do filme. Mas mesmo a tempo de nos extasiar com tanta tinta vermelha no ecrã!!! Ah, e o papel de Samuel L. Jackson é, no mínimo, inesperado.
Mas, então, qual é o veredicto?... Adorei. Apesar das 3h (e de ter momentos um pouco mais murchos), é um filme que nos prende do início ao fim, seja pela banda sonora fabulosa, seja pelo humor acutilante, a adrenalina é garantida. Desenganemos, Tarantino não é (na minha opinião, claro está) um intelectual e não faz exercícios de intelectualidade cinematográfica. Faz sim filmes controversos, amados por uns, odiados por outros, mas aos quais ninguém fica indiferente. Eu acho-lhe piada, é um provocador. Com muito bom gosto musical.

Seis Sessões

Uma ida familiar ao cinema trouxe consigo a visualização deste "Seis Sessões", filme baseado na história de vida de Mark O'Brien, a quem a poliomielite em criança ditou uma profunda atrofia muscular para o resto da sua vida. Assim, Mark é obrigado a viver parte dos seus dias dentro de um "pulmão de ferro", equipamento que permite aos seus pulmões imobilizados respirarem. Contra todas as expectativas (baseadas naquilo que acabei de escrever), Mark é um homem dinâmico e com um óptimo sentido de humor. Jornalista e poeta, é um homem que enfrenta as suas limitações. E é precisamente o enfrentar de uma destas limitações, a de um relacionamento sexual, que é abordado neste filme. 
Para qualquer pessoa que tenha visto o trailer, é fácil perceber do se está aqui a falar. Mark, sob aconselhamento do seu padre, resolve recorrer aos préstimos de uma terapeuta sexual de forma a poder lidar mais eficazmente com a sua sexualidade (Mark pode ter os músculos atrofiados, mas todas as suas capacidades sensoriais estão operacionais) e assim perder a virgindade, aos 38 anos. 
Uma história como esta está "condenada" a arrancar muitas gargalhadas aos espectadores, tanto pelo inusitado das situações, como pelo próprio bom humor com que Mark vai lidando com elas. Mas esta é, acima de tudo, uma história comovente. Alguém que vive prisioneiro do seu próprio corpo ser capaz de viver uma vida, apesar de tudo, normal, cheia de afectos... é inspirador, no mínimo. Faz-nos pensar em tudo aquilo que vemos como problemas no nosso dia-a-dia e que se tornam limitações sérias à forma como vivemos as nossas vidas. A grande maioria de nós talvez não viva prisioneira do seu corpo, mas muitos vivem, sem sombra de dúvida, presos à sua mente.
Pelo menos,é essa a mensagem com que fico.

Gostei também das interpretações. Deve ser especialmente difícil fazer um filme em que se está o tempo todo deitado, a falar de lado, e por isso acho que John Hawkes está particularmente bem - credível, frágil mas forte. Helen Hunt, no papel de terapeuta sexual, está um pouco estranha, fisicamente falando - inteiraça, é verdade, mas a contrastar com todas as rugas do rosto... O padre de William H. Macy é muito divertido, num papel algo diferente do que estou habituada a vê-lo fazer. E todos os outros secundários também estão bastante bem.

Conclusão final: gostei do filme, é muito interessante, dentro do estilo. Despretensioso, acima de tudo.