Dez anos depois


Dez anos depois, o regresso à capital irlandesa. Então Março, desta feita Fevereiro. Duas semanas depois e teria sido o "círculo perfeito". 
Embora comece este post de forma algo enigmática, a minha segunda visita a Dublin foi planeada calmamente, tendo como objectivo a visita a uma amiga querida que lá está a morar. Sabem alguns que a primeira visita foi rodeada de contornos improváveis, como os atentados de Madrid a acontecerem no mesmo dia em que voei para lá. Será uma viagem para nunca esquecida. Ou, pelo menos, enquanto a memória durar. Ou isso era o que eu achava. Porque o regresso a Dublin mostrou-me que, afinal, havia todo um conjunto de memórias de alguma forma recalcadas no meu subconsciente, e que, claro está, resolveram ver a luz do dia ao voltarem a esses lugares familiares! Assim, aquele cujo plano era ser um fim-de-semana entre amigas, viu-se agitado por um turbilhão de emoções. A cada passo, a exclamação "mas eu já estive aqui!" - o que se tornou com certeza maçador a determinada altura (desculpem, meninas). Qual foi, então, a minha visão da cidade passada uma década? Dublin mudou provavelmente, assim como eu também mudei. Achei a cidade um pouco triste, talvez dado o tempo cinzento. Cara, muito cara (e para quem mora em Londres isso quererá dizer muito). Mas também aprendi, não pela primeira vez mas talvez com mais atenção, um pouco da história da cidade, do país e do seu povo. E não é uma história fácil. Visitei sítios que não conhecia. Tirei muitas fotografias (a preto-e-branco, a condizer com o sentimento geral). Calcorreei a cidade para visitar museus que estavam fechados (malditas segundas-feiras). E cheguei à conclusão que a Irlanda tem que ser um país muito especial, a julgar (quanto mais não seja) pela quantidade de escritores fantásticos que já ofereceu ao mundo (de leitores ávidos, como eu).
Foi um bom fim-de-semana, para repetir com certeza. Que se está aqui tão perto.
Ah, e finalmente percebi a geografia da cidade. Ao fim de dez anos.

Her

Na semana passada houve nova ida ao cinema. A ideia original era ver o Dallas Buyers Club, mas acabamos por ir ver este Her, o mais recente filme de Spike Jonze. A premissa de juntar Jonze na realização e Joaquin Phoenix na interpretação é sem dúvida interessante e promissora, conhecido que é o registo de "estranheza" que ambos partilham.
Nesse respeito, Her não desiludiu. Mas vamos, então, à história. Estamos em 2025. Theodore é um homem calmo a atravessar um doloroso processo de divórcio. Decide comprar um novo sistema operativo, o qual tem capacidades evolutivas e de adaptação ao utilizador. Por iniciativa de Theodore, o seu terá uma voz feminina e escolhe para si próprio o nome de Samantha. Claro que, após esta interacção inicial, ficamos logo a perceber que a relação entre os dois, Theodore e o sistema operativo Samantha, será especial. Mas não faz mal, essa é a ideia principal do filme: um homem que se apaixona e enceta uma relação com o seu sistema operativo.
Ok, claro que é estranho. Mas vamos por partes. Primeiro, o filme em si - a interpretação de Phoenix é muito boa, para ser comedida nos elogios, principalmente se consideramos que ele representa sozinho na grande parte das cenas. Há nele uma fragilidade latente quase irresistível. Depois, a estética - no futuro, tudo é retro, desde a decoração ao vestuário. E terrivelmente colorido. Como se o futuro fosse uma combinação dos anos 1960 com tecnologia de ponta. Por último, e deveras interessante, é a parte de crítica social subjacente ao tema abordado (e aqui tenho que fazer a ressalva de esta ser a minha interpretação muito pessoal do filme) - a falta de comunicação e envolvimento emocional que carateriza as relações humanas de hoje em dia, em detrimento de interacções mais distantes e emocionalmente resguardadas em formato "digital". Apesar de ter à distância de uma mão relações possíveis e com sentido, Theodore "prefere" embarcar numa relação com o seu sistema operativo. E porquê? A meu ver, a resposta é relativamente simples. Porque, no seu sistema operativo, Theodore tem "alguém" que é uma imagem daquilo que ele procura. Adaptado a ele. Sem conflitos, sem voltes de face. E isso é algo que considero muito comum hoje em dia - a cedência ao facilitismo, como se tudo o que custe um bocadinho não valesse a pena o esforço. Eu, como sou da escola contrária, acho isso uma tremenda parvoíce. Mas a ver vamos. O filme, esse, vale muito a pena.

The book thief

Na semana passada fui ao cinema à borla. Foi, aliás, a primeira borla do género em Londres. Mas o mérito não é meu - a minha colega de casa ganhou bilhetes para a ante-estreia deste "The Book Thief" (em português, "A rapariga que roubava livros"), e eu fui acompanhar. 
Tenho que dizer que as opiniões que chegaram até mim sobre o filme não eram as melhores. Isto vindo de pessoas que leram o livro e que ficaram tremendamente desiludidas (para dizer o mínimo) com a adaptação cinematográfica. Eu que não li o livro, não posso fazer comparações. Mas posso dizer que não fiquei muito entusiasmada com a versão que chegou aos cinemas. Primeiro, a temática Segunda Guerra Mundial não é algo que me interesse particularmente, para além de estar um bocadinho gasta em termos de cinema (veja-se que, neste momento, há pelo menos um outro filme em exibição que retrata a mesma época, ainda que focado em temas diferentes). Segundo, e motivações à parte, o filme tem "tiques" que me desagradam profundamente, como por exemplo o facto de todas as personagens falarem inglês com pronúncia alemã. Já vi isto acontecer em muitos filmes, mas continuo a achar que não faz sentido - ou bem que o filme é em alemão (língua original das personagens), ou bem que é em inglês. Maneirismos linguísticos é algo que não me agrada. O que faz com que tenha ficado de pé atrás desde o início do filme.
Os dois pontos que foco são provavelmente a razão de não ter gostado nem desgostado do filme. Não me disse muito. Não me despertou interesse. Pela positiva, as interpretações de Geoffrey Rush e Emily Watson são muito boas. Valha-nos isso. Porque, ainda para mais, o filme é longo.

12 Years a Slave

E passada uma semana, lá voltamos ao cinema para finalmente ver o mais recente filme de Steve McQueen, 12 Years a Slave.
As expectativas eram algumas, pelo historial do realizador mas também pelas críticas lidas aqui e acolá (e também passadas por amigos). Assim, sendo que é um filme muito bem feito, tanto em termos de realização como em termos de representação, soube a pouco. A história, embora com contornos diferentes, já foi filmada antes. Vezes e vezes. A escravatura é um tema recorrente no cinema, ainda que aqui seja contada pela perspectiva de um homem livre que é raptado e escravizado. Durante 12 anos. Até chegar o momento em que semelhante situação desumana conhece o seu fim.
Perdoem-me se demonstro pouca sensibilidade para o tema. É terrível, eu sei, sinto-o com a cabeça e com o coração. Mas não consigo propriamente criar um vínculo.
Talvez o que mais me tenha desiludido foi o facto de ser um filme "normal". Os anteriores filmes de McQueen foram nitidamente fora da norma, chocantes mas verdadeiros. Este tem isso tudo, mas a falar sobre algo que já tínhamos visto antes.
Se é um bom filme? Claro que é. E vale a pena uma ida ao cinema. Mas não vai para a lista dos que mais me marcaram.

The hundred-year-old man who climbed out of the window and disappeared - Jonas Jonasson

4 meses. Foi esse o tempo que me levou a ler este livro. Comecei no ido mês de Outubro, depois de ter voltado de Portugal. Comprei-o porque achei que tinha um título sugestivo. Chamou-me a atenção (às vezes, é assim que acontece). No entanto, quando o comecei a ler, não consegui sentir-me motivada pela história de Allan Karlsson, que no dia em que completa 100 anos se resolve pôr em fuga do lar onde vive. Há todo um desenrolar de peripécias que, pura e simplesmente, não estava a fazer sentido na minha cabeça. Não conseguia perceber qual o objectivo. Passei semanas a engonhar, praticamente sem pegar no livro. Até que, há cerca de duas semanas atrás, resolvi que tinha que resolver o assunto. E, de repente, foi como se tivesse lançado um novo olhar ao livro e a motivação apareceu. A história de vida de Allan Karlsson, que vai entrelaçando o "presente", percorre todos os maiores eventos históricos do século XX - com Allan a participar activamente em todos eles! Assim, para além do entretenimento, temos também umas lições históricas pelo meio, colocadas de forma despreocupada e divertida. Quando finalmente percebi este pequeno "pormenor" do livro, passei a gostar muito mais e, no final, foi um livro que gostei bastante de ler.

Brighton & Seven Sisters


No fim-de-semana passado, e aproveitando o tempo não muito agreste (o que, para estes lados, quer dizer que não chove), resolvemos dar um passeio e explorar um pouco o que há à volta de Londres, a uma distância que permita fazer passeios de um dia. E a decisão recaiu sobre o Parque Natural de Seven Sisters e a cidade vizinha, Brighton.
O Parque Natural de Seven Sisters é um dos lugares mais emblemáticos de Inglaterra, com as suas falésias brancas a formar sete colinas. Daí o nome, Seven Sisters (se calhar há alguma lenda que envolve sete irmãs, mas disso já não sei). É uma zona muito bonita para se fazer umas caminhadas, mesmo em Janeiro, com frio e vento (desde que não chova, está claro). É também, aparentemente, um dos lugares mais procurados para suicídios... faz sentido. 
O acesso ao parque, para quem não tem carro, é feito através de uma das duas cidades vizinhas, Brighton e Eastbourne. No nosso caso, preferimos Brighton porque é de mais rápido acesso a partir de Londres. Mas também porque desde que li o livro Sweet Tooth, de Ian McEwan, que tinha uma grande curiosidade em conhecer esta cidade.
Brighton é uma típica cidade costeira, com aquele sentimento de desolação característico durante os meses de Inverno. O qual acho tão charmoso e do qual gosto tanto. A nostalgia inspira-me. Tive pena em ver que o velho pontão da cidade está semi-destruído pelo mar (altamente fotogénico), e não visitei o novo. Mas o passeio pela beira-mar rendeu um belo espólio fotográfico, o qual me deixou bastante satisfeita. 
Foi também muito bom voltar a ver o mar. Ou deveria antes dizer o oceano. Porque não é propriamente a mesma coisa. A energia do oceano no Inverno é, ao mesmo tempo, calmante e revigorante. A uma distância respeitadora, claro está!
Em suma, um dia muito bem passado.


Época Natalícia: o regresso a casa (ou Ode à família)


Como referi na minha nota de fim-de-ano, isto de ser emigrante tem os seus quês. Como, por exemplo, transformar as reuniões familiares em acontecimentos escassos e, como tal, muito valiosos. Claro que as minhas idas a Portugal giram em volta da família, apesar do esforço em estar, o mais possível, com os amigos. Este Natal que passou não foi excepção. Foi o meu primeiro Natal desde que saí do país. Um Natal quase em contra-relógio, com a sombra do iminente regresso a Londres... Mas não por isso menos aproveitado. 
Enche-me a alma tudo o que diz respeito aos meus sobrinhos e este Natal foi indubitavelmente deles. Até porque foi o primeiro "a dois". Claro que é triste não poder acompanhar o crescimento diário deles, principalmente do pequeno M., a quem só vou vendo aos soluços. As saudades que tenho de o abraçar no meu colo... Valha-nos as tecnologias e a Páscoa que não tarde está aí. Para mais uma vez rumar a sul, para o quentinho de casa.

The Railway Man

Para primeiro filme do ano, o plano era ver o mais recente de Steve McQueen, 12 Anos de Escravo. Mas um pequeno erro de cálculo (ou deveria antes chamar-lhe excesso de confiança) fez com que já não houvesse bilhetes disponíveis quando chegamos ao cinema... Como plano B, optámos por ver este The Railway Man. Não sabia praticamente nada sobre o filme, para além de que contava com Colin Firth e Nicole Kidman nos papéis principais. Sendo eles bons actores, podia então extrapolar-se que o filme também seria bom. Ou pelo menos aceitável. 
Não tendo sido o melhor filme que já vi, é bastante razoável. A história é interessante - Colin Firth interpreta a versão mais velha de um soldado britânico que lutou na Segunda Guerra Mundial e foi feito prisioneiro, tendo sido obrigado a trabalhar na construção do caminho-de-ferro entre a Tailândia e a Birmânia. Como engenheiro que era, a construção clandestina de um rádio (para se poderem manter informados sobre o desenvolvimento da guerra) leva-o à tortura pelas mãos de um jovem soldado japonês. Nos seus cinquenta anos, Firth vive atormentado pelas memórias da guerra, o que conduz à deterioração da relação com a sua recente esposa (interpretada por Kidman). Kidman tenta perceber o que atormenta o marido, e é assim que nós iremos conhecer a realidade que ficou lá na década de 1940 - mas que perseguiu os seus intervenientes até aos dias correntes.
Não quero desvendar mais da história do que já fiz, mas é um filme interessante e focado numa realidade para mim desconhecida (a da construção do caminho-de-ferro e utilização de prisioneiros de guerra para o efeito). Por isso, cumpre a premissa de fazer o espectador (neste caso, eu) aprender alguma coisa. Mas não só. É um filme baseado numa história verídica de crueldade e perdão, na história de um homem que era um entusiasta de comboios. E os comboios são entusiasmantes, sem dúvida.
Quanto ao 12 Anos de Escravo, fica para a próxima semana. Se tudo correr bem.

2013

Sendo hoje o último dia de 2013, segundo o calendário que seguimos, aproveito o momento para fazer alguma reflexão sobre o ano que agora termina.

2013 foi um ano repleto de acontecimentos e mudanças. 3 meses em Portugal, 4 e 1/2 meses em Berlim, 4 e 1/2 meses em Londres. Muito saltitei de canto para esquina este ano. Tal facto trouxe consigo inúmeras experiências, boas e más. Conheci muitas pessoas novas, espero ter feito algumas amizades. Ao mesmo tempo, distanciei-me de pessoas muito próximas no passado. A distância física traz, infelizmente, distância emocional em muitos casos. Com isso, sofri bastante. Como também sofri com as provações que 2013 insistiu em trazer. Foi um ano de sustos, um ano de perdas. Mas também o ano do nascimento do meu segundo sobrinho, um acontecimento maravilhoso.
2013 foi um ano rico, disso não haja dúvidas. Mas muito difícil. 

A época de Natal em Portugal, que para mim terminou ontem, fez-me perceber diversas coisas. Por exemplo, parece-me que finalmente me dei conta que sou uma emigrante. Ainda mais expatriada do que antes, sou agora um pouco estranha ao país onde nasci. Parece-me que não pertenço a lado algum... No entanto, foi muito bom sentir o carinho de todos aqueles que, num esforço colectivo, disponibilizaram um pouco do seu tempo para estar comigo. Apesar das correrias entre Carcavelos, Lisboa, Porto, Cinfães e Coimbra, foi muito bom ver caras familiares. E sentir que o carinho e amizade poderão, eventualmente, sobreviver à distância. 

Termino, então, 2013 com a tentativa de preencher um vazio que teima em reinar no meu peito. Procuro focar-me nos momentos que venho de viver, mas também no que o novo ano me reservará - obviamente na esperança de que seja um ano bom e mais calmo. São, igualmente, esses os meus votos para aqueles que lêem estas linhas.

Em 2014 espero abraçar com mais convicção esta que é a minha nova etapa, profissional e pessoal. Descobrir Londres e aprender a gostar mais da cidade. Fazer novos amigos e usufruir da companhia dos velhos. Conhecer novos sítios. E, nas entrelinhas, ir sendo feliz com esta vida que é a minha.

"The Love Song of R. Buckminster Fuller" com música ambiente dos Yo La Tengo

Pouco tempo depois do concerto de Archie Shepp, rumei novamente até ao Barbican. Desta vez o programa foi um pouco diferente, não se tratou propriamente de um concerto, mas do visionamento de um documentário sobre R. Buckminster Fuller, musicado ao vivo pelos Yo La Tengo (os quais vi pela primeira vez no passado mês de Março). A ideia pareceu-me interessante, mesmo não sabendo quem era esse tal R. Buckminster Fuller.
Buckminster Fuller foi, acima de tudo, um visionário. Acho que esse adjectivo lhe faz jus. Nitidamente obsessivo-compulsivo, o senhor resolveu guardar em arquivo tudo, mas literalmente tudo, o que descrevesse os seus dias - notas, recibos, fotografias, etc. E fez isto durante mais de 50 anos, se não estou em erro. Foi precisamente esse acervo que permitiu a Sam Green realizar este documentário, adequadamente intitulado "The love song of R. Buckminster Fuller". E com isto tudo, ainda não disse o que o senhor fazia. As suas maiores obras foram, provavelmente, em arquitectura, mas não a ela limitadas. Buckminster Fuller desenhou, por exemplo, a mundialmente famosa cúpula geodésica (que se pode ver na fotografia). Para além disso, o senhor foi um inventor, com mais de 25 patentes certificadas. Interessante foi também ver/ouvir os Yo La Tengo, completamente relegados para 2º ou 3º plano (talvez se sintam mais à vontade nesse lugar...), executar de forma meticulosa o acompanhamento musical ao documentário. Resultou muito bem, muito embora me sinta vagamente traída porque, no final, de Yo La Tengo houve muito pouco.
Foi muito inspirador assistir a este documentário. Não porque me faça de alguma forma sonhar com outras formas de vida, mas porque é inspirador perceber como a vida de alguém (ou de cada um) percorre uma determinada direcção. No caso deste algo excêntrico senhor, aprendi muito. E isso é sempre um bom programa de domingo à tarde.

Visita com direito a concerto (ou o fim de tarde no Barbican a ouvir Archie Shepp)

Com o ano a chegar ao fim, há que arranjar um pouco de tempo para pôr alguma ordem neste blog. Não posso entrar em 2014 com posts em atraso!

No final de Novembro tive direito a uma outra visita, desta vez de um amigo de longa data. O tempo foi curto, mas deu para um dia bem passado, entre brunch, passeio por Hampstead Heath, chá das cinco, e concerto de jazz ao final do dia. Planeado com bastante antecedência, o concerto de Archie Shepp e a sua Attica Blues Orchestra foi ainda melhor do que antecipado. O saxofonista de 76 anos, figura algo mítica do panorama jazzístico, proporcionou-nos uma verdadeira festa durante cerca de 2 horas - os músicos que o acompanham são fantásticos, o ambiente animadíssimo, e de repente o mundo parece um sítio melhor. A música tem realmente um poder muito grande. Seja de nos emocionar ou de nos transportar no espaço e no tempo, é bom sentir esse poder de vez em quando. Porque a música ainda é capaz de chegar aos recantos mais escusos daquilo a que chamamos alma e porque a alma ainda ressoa com esse toque. E fica feliz.

Por terras de Sua Majestade


Oxford

York


No mês de Novembro passeei um pouco por este país que me acolhe. Primeiro, fui visitar amigos a Oxford, cidade que faz parte do meu imaginário desde o ido ano de 1997 - ano em que me foi oferecida uma agenda com fotografias da cidade. Lindas, por sinal. Desde aí que queria visitar Oxford. Mas por falta de organização mental minha, nunca o tinha feito. Chegou agora o momento. E devo dizer que, apesar do frio e da pouca luz natural, não fiquei desiludida. Senti-me transportada para uma outra época - não é por acaso que os filmes do Harry Potter foram por filmados por aqueles cantos. Há mesmo algo de mágico na atmosfera. O tempo foi pouco e ficou muito para ver, mas isso deixa também a vontade de voltar.
E voltar foi o que fiz na minha segunda visita a York, no norte do país. Rever amigos queridos e uma cidade amorosa. Celebrar aniversários, passear, fazer umas comprinhas... o costume. York é uma cidade pequena, mas muito bonita, recheada de recantos e pastelarias de abrir o apetite a qualquer um (até a mim, que não sou dada a doces)! 
Mas o melhor de tudo é mesmo estar entre amigos. O que, quando se está num país que não é o nosso, se torna ainda mais importante.

Acasos da vida (ou o mais perto que alguma vez estive de ouvir Jeff Buckley ao vivo)

Não há coincidências. Ou a vida é feita de coincidências. Escolham a vossa versão favorita. Eu acredito que, por vezes, há acasos difíceis de explicar. Como o que me levou até ao Southbank Centre numa quinta-feira gelada para ver um concerto de Gary Lucas, guitarrista virtuoso mas algo obscuro, que trabalhou com Jeff Buckley na composição de diversas músicas (algumas incluídas no álbum Grace, outras mais tarde divulgadas com o álbum Songs to no one). Passo a explicar, porque vale a pena (na minha opinião, claro está). 
A Marta, mais do que conhecedora da minha relação de longa data com a música de Jeff Buckley, mostrou-me uma notícia que dava conta de afirmações que Gary Lucas fizera sobre Jeff. Ao ler a notícia, vejo uma pequena nota no final que diz que daí a dois dias Gary Lucas fará um pequeno concerto aqui em Londres em que tocará músicas que escreveu com Jeff, ao mesmo tempo que falará sobre o livro que escreveu, Touched by Grace, sobre o tempo que partilhou com ele. Vou ao site do Southbank Centre, bilhetes ainda disponíveis, pelo que compro logo um. Qual é a parte do acaso, estão vocês provavelmente a perguntar-se por esta altura... É que a Marta não viu nada sobre o concerto e, como tal, não era objectivo dela chamar a minha atenção para tal facto. Não tivesse lido eu a reportagem até ao fim e não saberia da existência do concerto. Mas não foi assim que aconteceu. E agora tenho uma cópia autografada de Touched by Grace na minha mesinha-de-cabeceira. Para além de uns belos arrepios na espinha (e não foi por causa do frio).

Short Term 12

A minha segunda ida ao cinema por terras londrinas levou-me até este filme americano, Short Term 12. Filme da dita cultura indie, cuja acção segue Grace, que trabalha numa associação de apoio a jovens de alguma forma carenciados ou em necessidade (de seu nome Short Term 12, porque os jovens não podem lá ficar mais do que 12 meses). Mas Grace, jovem dedicada à causa que abraçou, tem ela própria problemas para resolver... E assim se vai desenrolando o filme, mostrando uma realidade difícil de forma plausível. Fazendo-nos abrir os olhos para problemas que, se tudo correr bem, nunca teremos que encontrar. Mas, e principalmente, mostrando que até nas condições mais adversas é possível encontrar o amor, construir relações, ser feliz. Para mim, essa é a mensagem do filme. Essa e que vale a pena intervir, agir, abrir os olhos para a vida. Mesmo que ela não seja sempre perfeitinha. 

A primeira visita


O final do mês de Outubro trouxe consigo a minha primeira visita por terras de Sua Majestade. A prima Catarina veio festejar o fim de uma etapa muito importante (parabéns!!!) e aproveitar para descansar um pouco - e arejar, claro está!
O tempo foi curto, já se sabe que um fim de semana para pouco dá. Mas passeamos pelos parques e pelo canal, vimos a guarda real, aprendemos sobre os costumes ingleses em forma de exposição de fotografia, comemos bem e bebemos... muito chá! O tempo deu um ar de sua graça e tanto houve chuva como muito sol - para as fotografias, está tudo controlado. Foi um fim de semana bem aproveitado e que soube muito bem, especialmente pela companhia. Foi muito bom ter família por cá, para poder mostrar parte daquele que é agora o meu canto do mundo. Ficou muito para ver. Claro. Mas esse é o truque que uso para "obrigar" as pessoas a voltar. Agora é esperar para ver se faz efeito.

Tindersticks @ Barbican


Porto, Lisboa, Londres. Depois de 2003 e 2009, chegou a vez de ver os Tindersticks pela terceira vez, quase exactamente 10 anos depois da primeira. Nada é por acaso, poderia dizer. Todos os concertos tiveram circunstâncias muito diferentes, companhias diferentes, idades e maturidades muito diferentes também. Mas há algo na minha relação com esta banda inglesa que se mantém intemporal. Creio que é a capacidade que eles têm de me transmitir emoções (vulgo, emocionar). Como se a voz de Stuart Staples fosse capaz de activar qualquer coisa dentro de mim, algo maior do que o tempo ou as experiências de vida. Talvez por isso tenha sentimentos contraditórios em vê-los ao vivo, porque por vezes é mais fácil fugir ao que se passa cá dentro...
O concerto do passado dia 25 não foi excepção. Houve lágrima no canto do olho e queixo a tremer (engolindo em seco para ninguém notar). Porque as emoções são difíceis ou simplesmente porque é difícil sentir. É uma escolha que tem que se fazer por vezes, esta de enfrentar o passado, as memórias e até nós mesmos. Porque fazem parte de nós.
E assim, apesar do tumulto, é bom perceber como há coisas que não mudam. Como a ressonância dessa voz, Mr. Staples.

E porque devo um comentário à minha colega de casa (que me acompanhou nesta "aventura"), aqui vai uma pequena apreciação em inglês.

10 years after that first time in Porto, back in October 2003, I came to see Tindersticks for the third time. Now in London - different country, different company, a different "me" perhaps. All true, but somethings never really change. And inside me, it is always that same turmoil when I listen to that deep voice that seems to go directly into my brain (and never wanting to leave). And even though the setting was completely different, the feeling was exactly the same when I got to Barbican and listened to those songs that are part of my past, my memories of something that once was. I do not really know if I should be happy or sad about it, but I guess sometimes you do need to step from the numbness and face the world. And this was one of those moments.

Je dis: M

A grande maioria de vocês nunca terá, provavelmente, ouvido falar do cantor francês Matthieu Chedid - mais conhecido pelo seu alter ego -M-. Alguns já terão ouvido músicas dele, mas dificilmente o sabem. Eu sou uma "sortuda" porque há uns bons dez anos atrás conheci este senhor através da prima Carol (nessa altura a viver em Paris) e foi uma espécie de amor-à-primeira-ouvida (e sim, fui pesquisar e esta palavra existe no dicionário!).
Claro que oportunidades para ver este senhor ao vivo não houve muitas - com a excepção de um concerto em Montpellier enquanto lá morava, mas ao qual não consegui ir. Por isso, qual não foi o meu espanto ao descobrir que -M- faria um concerto aqui em Londres! Primeiro ainda estive um pouco indecisa, mas depois lá me decidi a comprar bilhete. Que se lixe a falta de companhia! Esta provou ser uma decisão acertada - o concerto foi muito divertido, ele é realmente um homem do espectáculo. Esteve em palco durante duas horas e só não ficou mais tempo porque não o deixaram (ou, pelo menos, foi isso que disse). Sempre cheio de energia, dentro da personagem (qual espécie de super-homem) que criou aparentemente para superar a sua timidez.
Foi engraçado perceber que era das únicas pessoas não-francesas dentro daquela sala de espectáculos. Tal como foi bom voltar a ouvir essa língua que me é tão querida. E ter a confirmação de que a música é verdadeiramente um veículo poderoso de emoções - há já algum tempo que não me sentia tão bem-disposta.

Filth

A primeira incursão às salas de cinema londrinas levou-me até à adaptação cinematográfica de uma outra obra literária de Irvine Welsh, 17 anos depois de Trainspotting. Falo, portanto, de Filth. Tenho que admitir que não fiz imediatamente a ligação entre os dois filmes... mas as parecenças são, sem dúvida, muitas. Desta vez, temos James McAvoy no papel principal - Bruce Robertson, detective de polícia em Edimburgo. O seu principal objectivo? Ser  promovido a inspector. E é neste momento que começamos a seguir os seus passos, o seu dia-a-dia algo alucinado (o início do filme lembra realmente Trainspotting no seu ritmo). Aos poucos, vamos percebendo que algo não está bem, não bate certo... A forma como se relaciona com colegas e demais pessoas à sua volta indicia uma falta de valores abismal. Mas prognósticos só no final do jogo. Ou do filme, neste caso. Da minha parte, posso dizer que é preciso ter estômago, não é um filme fácil de se ver. É controverso e chocante. Claro que, tendo visto o filme sem legendas (diz que se fala inglês aqui nesta terra e, por isso, não é preciso) e dado o cerradíssimo sotaque escocês do Sr. McAvoy e demais actores, houve partes que nada percebi do que eles diziam! Preciso habituar o ouvido. Mas gostei. Às vezes é bom ver um filme que mexe connosco, que nos põe a pensar e nos incomoda. Até porque a vida é mesmo assim. Dura.

A vida num turbilhão

O último mês foi confuso. Fui a Portugal passar duas semanas de férias, que consigo trouxeram uma epifania difícil de aceitar. Mudar de país, por muito glamouroso que pareça à distância, tem consequências nas nossas relações que é preciso enfrentar. Ao estar longe da vista, fica-se também, invariavelmente, um pouco longe do coração. Perde-se um certo fio condutor que só existe quando conseguimos, melhor ou pior, ir acompanhando de perto a vida uns dos outros. É-me difícil aceitar, embora saiba e perceba que é uma verdade incontornável. Claro que os amigos continuam amigos, pelo menos alguns. Mas as amizades tornam-se diferentes. Crescem ou implodem. Esta é, portanto, uma altura complicada para mim - muitas mudanças, pouco apoio, mas com a certeza/esperança que será passageiro.

Há precisamente uma semana atrás, recebi uma notícia difícil de digerir - a morte do meu Alberto, gato que acompanhou a minha vida nos últimos sete anos. Quem não "aprecia" animais, o melhor é parár de ler neste momento. Foi uma perda muito grande para mim, agravada pelo facto de estar longe e não ter acompanhado os seus últimos momentos. É-me penoso imaginar que, na próxima vez que for a Portugal, ele não estará lá para me receber... A vida é feita de perdas, é verdade, mas esta veio numa altura difícil.
Não penso muito naquilo que aqui escrevo neste momento. Apenas quero de alguma forma explicar porque não tenho andado com a melhor das cabeças para actualizar este espaço. 

No entanto, tenho também que dizer que o último mês trouxe um acontecimento muito feliz, com o nascimento do mais recente membro da família. Finalmente um rapaz, para fazer as delícias da mãe, da tia e da avó! Felicidade extrema por tudo ter corrido bem, apesar da pequena angústia em saber que, desta vez, não serei uma tia presente... Por vezes pergunto-me que raio de caminho é este que percorro, mesmo que ciente de que é preciso seguir o meu rumo. Todos precisamos ter as nossas vidas individualizadas, ainda que isso nos faça sentir sós. Mas, na verdade, não estamos. Pois não?...

The Red House - Mark Haddon

Nada como um livro interessante para nos pôr a ler como se não houvesse amanhã. Muitos de vocês conhecerão com certeza essa sensação. Cada vez que me acontece semelhante coisa, continuo a ficar extremamente feliz (porque uma boa leitura é algo que me faz feliz). E foi exactamente o que aconteceu com este livro de Mark Haddon, The Red House. 
Tenho que ser verdadeira e admitir que, no início, não foi exactamente assim. O livro, que descreve uma semana de férias no campo de um casal de irmãos e respectivas famílias, tem um início lento. Daqueles em que não se percebe muito bem para onde a história vai evoluir... Mas acaba por nos contar isso mesmo: como duas famílias que nada têm a ver uma com a outra se relacionam na partilha de um mesmo espaço e tempo durante uma semana de férias em comum. Consigo perceber que, para muitos de vós, esta talvez não seja uma premissa deveras interessante... Para mim, que aprecio uma boa história sobre pessoas/famílias disfuncionais, é escrito à medida. Porque aprendo sempre alguma coisa, quanto mais não seja a olhar mais atentamente para as pessoas à minha volta. E, com um bocadinho de sorte, talvez aprenda também a entendê-las melhor. Talvez venha daí o meu fascínio por este tipo de histórias. Ou talvez seja apenas o reflexo de todos termos, dentro de nós e à nossa volta, resquícios dessa disfuncionalidade... Não sei.

* Este livro foi um dos primeiros dois que comprei em Londres. Os primeiros de muitos, se tudo correr bem. :)

E agora: Londres

Primeiros dias em Londres

Depois de quase 5 meses em Berlim, depois de 2 semanas em Portugal, e depois de todo esse tempo em negação, lá chegou a altura de rumar a norte para aquele que será o meu poiso para os próximos tempos. Para Londres, portanto.

Opto por fazer um balanço do meu primeiro mês, uma vez que o tempo foi passando e seria, agora, difícil colocar tudo em posts distintos. Tenho que dizer que tive um primeiro mês abençoado. Fui muito bem recebida, por velhos e novos amigos, o que me facilitou muitíssimo a vida - desde a procura de poiso, indicações de transportes, passando por dicas para supermercado e afins! Depois, tivemos por Londres um Agosto bastante ameno, quase sem chuva. Para me fazer acreditar que afinal não será assim tão mal... mas esperemos pelo Inverno.

Londres é uma cidade grande e isso sente-se. Muita gente, muita confusão. Transportes apinhados, a concordar com a minha imagem mental. Mas é também uma cidade ampla, com muitos parques a perder de vista, convidativos ao passeio. É também uma cidade de cultura, com quinhentas-mil-coisas a acontecer todos os dias, entre concertos, exposições, teatro... Já explorei um bocadinho desta realidade cultural. Tive a oportunidade de ver uma exposição de fotografia de Sebastião Salgado no Museu de História Natural (lugar que faz parte do meu imaginário de adolescente, desde que visitei Londres em 1997). Fui também a um concerto de piano no Royal Albert Hall, o que faz com que, em menos de um mês, já tenha conhecido um dos espaços mais emblemáticos da capital inglesa. E a cereja no topo do bolo foi, com certeza, o fim-de-semana passado em York com bons amigos, que me mostrou que há muito país (e passeio) para calcorrear!

Um mês abençoado, volto a dizer. Que fez levantar um pouco da estranheza que Londres me inspira. Afinal, talvez irá correr tudo bem. Fingers crossed. E obrigada a todos. Do coração. 

Despicable Me 2

Recentemente, dei-me conta que me esqueci de incluir aqui no blog a minha opinião sobre algo que também fez parte do programa do meu último dia em Berlim: uma ida ao cinema para ver o segundo capítulo de Despicable Me, conhecido em Portugal pelo nome de "Gru, o Maldisposto". Por isso, aqui fica, um bocadinho fora de tempo.
Vi partes do primeiro filme numa viagem de avião. Digo partes porque adormeci pelo meio e acabei por ver o início e o fim - o que, de qualquer forma, bastou para gostar da história e do seu herói improvável, Gru (deve ser a minha atracção inevitável por pessoas maldispostas...). 
Este segundo filme, mais previsível e doce do que o primeiro, não desilude. Tem piada, acção, romance, vilões. Tudo isto com personagens simpáticas e coloridas. E um final feliz. Que mais se pode pedir de um filme de animação?...

Sweet Tooth - Ian McEwan

Em trânsito pelo aeroporto de Colónia, sem nada para fazer e na perspectiva de mais um voo de 3 horas até Lisboa, resolvi-me a espreitar os livros que por lá andavam, numa das milhentas lojas que povoam o dito cujo. Chamou-me a atenção o mais recente livro de Ian McEwan, Sweet Tooth, o qual trouxe comigo. E aí começou mais uma leitura ávida, como é costume quando o livro é interessante e a cabeça está suficientemente em paz para poder assimilar a informação extra.
Estamos em plena Guerra Fria. A heroína desta história, Serena, é uma miúda oriunda do interior de Inglaterra, ansiosa por viver uma vida de glamour. Esse desejo leva-a a integrar o MI5, mas só no momento em que lhe é dada a missão Sweet Tooth é que Serena começa realmente a viver o seu "sonho" - tem que escolher um jovem escritor promissor cuja ideologia seja conveniente a um apoio velado do MI5 (e reportar as suas actividades, claro está). O desenvolvimento de uma relação pessoal entre Serena e o dito escritor irá pôr em causa a identidade de Serena e colocá-la numa situação difícil de gerir...
É um livro bem escrito, ou não se esperasse outra coisa de Ian McEwan. O seu estilo consegue ser tão variado que por vezes tenho dificuldade em reconhecê-lo. Mas é bom ler a obra de um escritor que, aparentemente, arranja inspiração em assuntos tão díspares. Refrescante, no mínimo. E talvez encontre nos finais inesperados a "imagem de marca" dele. Porque aqui temos outro, com certeza.

A gaiola dourada

Estar em Portugal faz com que consiga ter rotinas um bocadinho mais próximas daquilo a que estou habituada. Como, por exemplo, ir ao cinema, que foi coisa que praticamente não fiz enquanto estive em Berlim. 
O filme escolhido é uma espécie de filme-sensação, com todo o sucesso que teve em França e que está a ter, igualmente, em Portugal. A história tem tudo para ser um sucesso, está claro: a vida dos emigrantes portugueses em França. Não estamos a falar da nova emigração, mas sim daquela vaga que levou tantas pessoas até França nas décadas de 1960, 1970, 1980. Muito mais interessante, portanto.
Não vou alongar-me em considerações acerca da história, porque provavelmente a maioria já ouviu falar. Mas posso dizer-vos que o filme está muito bem conseguido, os actores, sem excepção, estão muito bem e, melhor do que isso tudo, é um filme divertido! Fartei-me de dar gargalhadas, coisa que não é nada comum em mim... Para quem ainda não viu, recomendo vivamente que se apresse a ir até ao cinema mais próximo. Vale muito a pena e acho que é nosso "dever"apoiar e acarinhar estes projectos de qualidade.
Claro que, enquanto via o filme, pensei muito sobre aquilo que será o meu futuro a curto prazo, enquanto emigrante. As circunstâncias são outras, sem dúvida, mas acho que no final do dia todos sofremos do mesmo mal, que são as saudades daquilo que faz intrinsecamente parte de nós.

Devendra Banhart x2

Este ano, resolvi transformar-me numa groupie. Bem, talvez não no sentido mais lato da expressão! Quero com isto dizer que, no espaço de menos de um mês, vi dois concertos de um dos meus músicos favoritos, Devendra Banhart. Primeiro em Berlim, sozinha; depois no Porto, na companhia de dois amigos.
Tal decisão teve definitivamente lados bons, mas também teve um lado mau (importante). O de perceber que o alinhamento era muito semelhante. Depois do concerto em Berlim, em que não gostei muito do ambiente (já aqui referi que os alemães não fazem o meu género em termos de público), achei que tinha que experimentar ver Devendra com uma audiência portuguesa. Muito embora muito mais acolhedor, respeitador e interessado, o público presente na Casa da Música talvez tenha intimidado o cantor, que se mostrou bem mais reservado do que tinha estado no concerto berlinense. Ainda assim, tentou comunicar em português, o que foi amplamente apreciado. 
Posso assim dizer que ganhei com esta experiência dupla. Houve coisas melhores num concerto e coisas melhores no outro. Até houve alternância entre canções que adoro... Por isso não me posso queixar, está claro. Mas fiquei desiludida por perceber que nem todo o calor de um bom público português (e nortenho!) chegou para fazer o Devendra dar um bocadinho mais de si.