Sofar Sounds, o início


Veio como uma dica da amiga homónima T e soou bem a ideia. Concertos secretos, em localizações bizarras, tais como a sala de estar de alguém. Claro que me juntei ao clube e esperei por ser seleccionada. O que não demorou muito tempo a acontecer, mas calhou numa data pouca jeitosa. Quis então o destino que a Magda, que entretanto aceitou a sugestão de se juntar ao clube também, fosse escolhida daí a uns dias. E assim tivemos o nosso baptismo de Sofar Sounds. 
Tudo aconteceu naquilo que eu acho que era um antigo celeiro reconvertido numa casa espectacular. O piso de baixo, em plano aberto, albergou as bandas e os ouvintes. Sim, tivemos direito a 3 bandas, cada uma a tocar cerca de 30 minutos. Parece ser esse o formato. Primeiro, Miss Baby Sol, cantora originária do antigo Zaire, actualmente a residir em Londres. Depois, Lail Arad, cantora britânico-israelita. Para terminar, ouvimos Bella Figura, colectivo também londrino. Em termos de estilos sonoros, são todos bastante distintos. Miss Baby Sol com uma sonoridade mais soul, spoken word; Lail Arad a típica cantautora de guitarra na mão; e os rapazes Bella Figura com um som mais denso, por assim dizer.
Foi uma experiência verdadeiramente diferente. Estar ali, no meio de umas 50 pessoas, na sala de estar de alguém, a ouvir música até então desconhecida... Muito interessante. Muita única.
Obrigada Sofar Sounds pela iniciativa. E até à próxima.

Sinkane @ XOYO

Há exactamente um mês atrás, estava eu num sítio mais agradável do que hoje, a aprontar-me para ver Sinkane, rapaz nascido em Londres, com raízes no Sudão e educado nos EUA. Mistura interessante.
A "recomendação" veio da Magda, com a etiqueta de ter colaborado com os Yeasayer. Que são uns gajos de quem eu até gosto bastante. Assim, lá rumámos nós até mais um dos milhentos sítios onde se realizam concertos nesta cidade, mais precisamente o XOYO, na zona este da cidade. Muito in, portanto.
O rapaz tem jeito para a coisa. O arranjo é simples, entre guitarra, baixo, bateria e muito sintetizador. As músicas têm ritmo, o rapaz tem presença, o espaço é interessante, logo foi mais uma boa experiência musical nesta cidade que tem muito para oferecer nesse campo. Valha-nos isso. Para combater a má-disposição.

As histórias dos irmãos Grimm

E uns dias mais tarde, no habitual excesso de actividades culturais que por vezes inunda as minhas semanas, fui ver um espectáculo algo diferente - uma peça de teatro composta por dramatizações de várias histórias (infantis) dos irmãos Grimm em diferentes ambientes (e salas) de um mesmo edifício. O público segue os actores nas transições entre histórias, escada acima, escada abaixo. Um conceito muito interessante. As salas estão decoradas de forma a aludirem a cada uma das diferentes histórias, a baixa luz, como que a convidar à imersão no ambiente alegórico. Para nos transportarem com eles ao centro de cada uma das histórias. 
Tivemos direito a 5 histórias (O Príncipe Rã ou Henrique de Ferro, Hansel e Gretel, Pele-de-bicho, A pastorinha de gansos, e Os três homenzinhos na floresta). Não sei se estes nomes são os usados em português, mas fica a ideia. A maioria de nós cresceu a ouvir histórias dos irmãos Grimm, por muito estranhas que elas por vezes pareçam (principalmente como histórias infantis). Por isso é quase como que um sonho entrar no imaginário dessas histórias que povoaram a nossa infância. 
Gostei muito, de tudo - das dramatizações, da decoração, da ideia, dos espaços. Foi uma noite muito interessante e bem passada. No final, tivemos ainda direito a explorar o espaço, estudar os recantos. Pena que não tinha a minha máquina fotográfica comigo...

Nigéria º Hamburgo º Londres

Há um mês atrás, recém-chegada das férias da Páscoa no belo rectângulo, fui ver Nneka, cantora nigeriana radicada na Alemanha, ao Village Underground.
Sugestão do amigo Ilias, revelou-se uma experiência muito interessante. A música de Nneka anda à volta da mistura entre sonoridades de raiz africana, como o afrobeat de Fela Kuti, e uma tendência mais hip-hop. O resultado é bastante interessante, embora tenha que confessar que sou pouco conhecedora do seu repertório musical. O que faz com que os concertos assistidos nestes moldes sejam, de alguma forma, estranhos. Este não foi excepção, mas foi, sem dúvida, muito divertido. Estávamos todos bem-dispostos, com um grau de "maluqueira" q.b. que é mesmo o que se precisa. O Village Underground é um espaço muito interessante, espécie de antigo armazém, com uma atmosfera diferente. Descobri que também há um em Lisboa... coincidências.

Antigone (das tragédias da vida)


E para terminar um ciclo de quatro idas ao Barbican em menos de duas semanas, fui ver uma interpretação da tragédia grega Antígona. A versão que deu origem a esta peça não é a original da mitologia grega, mas antes uma "adaptação" feita por Sófocles, em que tudo começa com Antígona a quebrar a lei por querer dar um enterro digno ao seu irmão Polinices. Morto em batalha com o seu irmão Eteocles pelo direito a reinar em Tebes, Polinices não tem por lei direito a ser enterrado por ser considerado um traidor (porquê, não percebi muito bem). Mas Antígona não se coíbe de desafiar as leis e o rei Creon, seu tio, para poder adequadamente chorar a morte do seu irmão.
Daqui para a frente a tragédia só se adensa, como será de esperar, ou não fosse esta uma tragédia grega. A cenografia da peça optou pela simplicidade, com um cenário minimalista, bem ao estilo moderno. E o guarda-roupa das personagens também, a roçar o austero. O que posso, então, dizer sobre aquilo que vi?
Primeiro, claro que é uma emoção ver uma peça cuja interpretação principal fica a cargo da Juliette Binoche. Vê-la ali, à minha frente, no palco, quase parece mentira. Claro que acaba por desmistificar um pouco a figura, porque ela é, como seria de esperar, uma pessoa normal, tal como as outras. Agora em relação à peça, não fiquei completamente satisfeita. Nunca antes tinha vista uma peça desse género, não sei se tragédias são bem o meu estilo... E definitivamente a abordagem super moderna aos clássicos também não me caiu bem no goto. Mas pronto. Sem dúvida uma experiência muito interessante.

Carmina Burana, finalmente (ainda que em versão estudante)

Depois de anos e anos a namorar a ideia, finalmente surgiu a oportunidade de ouvir Carmina Burana, obra maior do compositor alemão Carl Orff. Calhou de ser no dia a seguir ao concerto de jazz de homenagem à Strata East, mas isso é um pormenor. 
Assim, em dias consecutivos, lá rumei eu mais uma vez até ao Barbican, a minha segunda casa. Para concertos, perceba-se.
Ainda que fosse interpretada pelo coro e orquestra da Westminster School (logo não completamente profissional), deu para tirar a barriga de misérias e realizar um desejo de há muito tempo. É uma obra da qual gosto realmente muito. Tem muita energia, algo que aprecio em música clássica. Faz-me sentir mais viva.

Um bocadinho de jazz para fechar o fim-de-semana

Há coisa de um mês atrás, naquele que foi o início de uma saga de concertos sobre a qual falarei muito por cá, fui mais uma vez até ao Barbican ver um concerto de jazz para descontrair. Domingo à noite, vinha mesmo a calhar.
O concerto foi de alguma forma uma homenagem à editora Strata East Records, fundada no início dos anos 1970 por Charles Tolliver e Stanley Cowell, tendo como principal objectivo o lançamento de obras de jazz um pouco mais obscuras e menos mainstream. No concerto pudemos contar com os dois fundadores, acompanhados ainda pelo baixista Cecil McBee, o saxofonista Billy Harper e o baterista Alvin Queen, e ainda com algumas presenças vocais. 
O concerto, curado por Gilles Peterson (o senhor que praticamente me "apresentou" ao mundo da world music há mais de 10 anos atrás - e sim, o jogo de palavras é propositado), foi muito agradável e interessante. Mais uma vez, momentos de muito introspecção (que podem ou não ser úteis...).

O virtuosismo do violino

Já lá vai quase um mês que regressei aos concertos de música clássica. Desafiada pela minha ex-companheira de casa, rumei até ao Southbank Centre para ouvir a Philarmonia Orchestra interpretar três peças de Jean Sibelius, compositor finlandês do final do século XIX, compostas especialmente para violino (instrumento da sua predilecção, aparentemente).
A minha relação com a música clássica é semelhante àquela que tenho com a arte em geral: não percebo muito, apenas estou ali para sentir. E é nisso que normalmente me concentro. Com a música clássica, desde que de alguma forma me toque, é um sentimento muito interessante. Perco-me completamente nos meus pensamentos, vagueio por realidades imaginadas, abandono-me quase por completo... Altamente terapêutico, na minha opinão. É por isso que gosto tanto de ir a este tipo de concertos. Faz-me bem à alma. 

(Uma nota em relação à música: nada contemplativa, bem proporcionada, forte e acutilante. Muito bom.)

Gaston Dorren - Lingo

O último livro que li foi este Lingo, de Gaston Dorren, autor holandês (ao que consegui apurar). O autor, linguista, jornalista e, principalmente, poliglota, escreveu este livro que se auto-intitula como um guia das línguas faladas na Europa.
Quando vi este livro na Waterstones, o interesse foi imediato. Fascina-me a linguagem, seja em que língua for. Fascina-me principalmente perceber um bocadinho mais da sua evolução, o porquê de diferentes países falarem línguas diferentes, e a influência que essas línguas têm da história e geografia do país. Assim, esta foi quase a leitura perfeita. Interessante, curiosa, cheia de exemplos engraçados, desta leitura ficou apenas a vontade de saber mais porque, ao fim e ao cabo, a abordagem acaba por ser um pouco superficial para poder cobrir todas a línguas europeias (que descobri serem muito mais do que eu anteriormente imaginava).
Posso contar-vos um bocadinho do que podem encontrar neste livro, algo que é mencionado no capítulo dedicado ao Português. Fiquei a saber que, em Português, substituímos tendencialmente o pl do latim por ch. Como plumbum e chumbo. Ou pluvia e chuva. Porquê, não sei. Mas que isto das línguas é interessante, não haja dúvida.

O fado de ser português

Começo a descobrir que isto de ter nascido em Portugal tem muito que se lhe diga. Somos um povo tendencialmente complicado, emotivo, pessimista. E, para onde quer que vamos, carregamos essa carga emocional connosco. Talvez não seja a ideia que outros povos têm de nós, talvez não se apercebam. Porque, mais importante, somos tendencialmente boas pessoas, de bom coração (embora, está claro, haja de tudo por aí).
Faço esta pequena introdução para vos contar do meu primeiro concerto de fado. A Mariza veio cá cantar ao Barbican e, muito embora não seja grande apreciadora do estilo (sacrilégio!), não poderia faltar. Para não manchar por completo a minha herança lusa, tenho que dizer em minha defesa que tenho uma grande, quase completa, predilecção por vozes masculinas, e isso inclui também o fado. Dêem-me um Carlos do Carmo e a coisa muda de figura.
Gostei muito de ver a sala cheia, seja de portugueses ou não. Gostei de ouvir a minha língua ser cantada e homenageada durante quase 2 horas. Gera um conforto cá dentro que é difícil de explicar. É bom ver o público a vibrar, a bater palmas, a tentar acompanhar. Apesar do dramatismo (ah, também somos muito dramáticos, é verdade), ressoa cá dentro a força dos sentimentos transmitidos pelo fado. Porque isto de ser português traz consigo toda a nostalgia do mundo. 

O que vale é que daqui a nada vou matar saudades...

Chuva de pequenos cometas

Para não variar, está este blog um pouco atrasado em publicações, que começam a acumular-se na pasta dos rascunhos... Não sei porquê, mas o tempo não dá para tudo.
Há umas semanas atrás, embarquei numa outra "aventura" de explorar a cena musical londrina. Mais uma vez a um dia de semana, mais uma vez com muito cansaço acumulado. Desta vez rumámos até Camden, a um sítio sobre o qual já muito tinha ouvido falar, mas onde ainda não tinha ido: KOKO. Local de concertos, bar, discoteca, mas principalmente um sítio onde se vê todo o tipo de pessoas e estilos. Uma entidade. Os Little Comets, banda que fui ver/ouvir, são ingleses de estilo musical diversificado. Indie rock, com certeza, mas umas vezes mais funk, outras vezes mais mainstream. Têm piada os rapazes e ainda consegui ter energia suficiente para abanar um pouco mais do que a cabeça. O que, tendo em conta as circunstâncias, é um feito considerável. Gostei, embora tenha sido um nadinha repetitivo, mas talvez soe assim quando não se conhece bem o repertório da banda. É o que dá quando se anda por aí a explorar...

Conflict Time Photography

Vamos lá aproveitar a calma deste sábado cinzento para escrever um pouco sobre uma exposição de fotografia que vi há umas semanas atrás, num particularmente triste e chuvoso domingo.
O tema da exposição suscitou, desde cedo, o meu interesse. Fotografia de guerra sempre me interessou, mais particularmente dos cenários de devastação pós-guerra. A premissa da exposição era precisamente essa: retratar, através da fotografia, as consequências da guerra, em diversos espaços temporais diferentes. Premissa muito interessante, sem dúvida. 
Ora se a ideia era boa, a execução deixou-me um pouco desiludida. Faltou impacto visual, até mesmo um pouco de organização. As fotografias estavam organizadas por período de tempo após guerra/situação de conflito em que tinham sido captadas, desde poucos minutos (como no caso da bomba de Hiroshima) até muitos anos depois. Bem pensado, mas talvez mais interessante se houvesse algum tipo de agrupamento por conflito, porque assim se teria sem dúvida a noção do tempo passado e uma perspectiva mais "poética" do assunto. Minha opinião, está claro. 
Exposição interessante e definitivamente de valor, com aprendizagem à mistura, mas que pecou por defeito. Faltou intensidade.

Um bocadinho do rectângulo numa noite inesperada de sábado

Inspirada pela dita experiência londrina de ir a concertos em bares (ou talvez não, porque os bilhetes estavam comprados há já algum tempo), no passado fim-de-semana fui ver, bem pertinho de casa, os lisboetas PAUS actuar.
Tem sempre um sabor especial ver uma banda portuguesa a tocar quando se está num país estrangeiro. Mais ainda quando realmente gostamos da música. Por isso, sábado foi um dia realmente especial. Já não me sentia assim feliz num concerto há algum tempo.
Foi a primeira vez que vi PAUS ao vivo e achei-os muito bons. Têm uma energia fantástica, daquelas que, de alguma forma, nos deixam manietados, com espaço apenas para sentir (e abanar a cabeça ao ritmo maluco da música). Sim, a música é muito energética, fruto da dita bateria-siamesa - é uma música definitivamente dominada pela bateria.
Como podem ver, gostei muito do concerto. Foi uma noite um bocado estranha, com companhia inesperada para o concerto e estranhas combinações... O que só vem reforçar o meu gosto pelas combinações de última hora. Dizem que não sou uma pessoa espontânea, mas gosto muito de espontaneidade.

Clara Royer - Csillag

Este é um livro especial. Foi-me oferecido por um amigo muito querido, por altura do Natal. E é especial porque foi escrito por uma pessoa muito especial para ele. Há aqui uma certa circularidade de argumento, mas é importante explicar como o livro veio parár às minhas mãos e qual eram as minhas expectativas antes de o ler.
A história é bastante interessante: Ethel, jovem ilustradora, vê nos arquivos do amigo Côme sobre crianças deslocadas durante a 2ª Guerra Mundial uma fotografia da sua avó. Até aqui nada de especial (talvez), a não ser pelo facto de a criança na fotografia usar uma cruz ao pescoço. E a avó de Ethel ser judia, e ter transmitido à filha e à neta a sua cultura religiosa. Ethel sente-se de alguma forma traída pela descoberta, e decide tentar perceber o que está por detrás daquela fotografia, a verdadeira história da sua avó (que, ainda viva, sucumbiu à amnésia do Alzheimer).
O livro é muito interessante (aparentemente baseado em acontecimentos da vida da autora Clara) e está definitivamente bem escrito (apesar de ter uma linguagem por vezes desnecessariamente rebuscada; li o  livro na versão original, em francês, e embora não tenha sentido dificuldades, percebo que a linguagem utilizada não é a mais comum). Acaba quase por ser uma história de mistério, de investigação à volta de factos desconhecidos. Tentar juntar informação suficiente para encontrar o sentido de uma fotografia. Que consigo carrega o sentido de várias vidas.
Muito interessante, sem dúvida, e teve ainda a mais-valia de me pôr a ler com gosto, com avidez. 

Será que cumpro a resolução de ler um livro por mês este ano?...

A experiência londrina (com muito sono à mistura)


Há umas semanas atrás, em plena noite de semana (e depois de um dia de trabalho), embarquei com a colega de trabalho M. numa experiência que, no meu imaginário, considero muito londrina - concertos de bandas quase desconhecidas em bares esconsos algures na cidade. Esta primeira experiência levou-nos até Dalston, naquilo que pareceu uma viagem quase interminável de autocarro (ok, foram apenas 40 minutos, mas pareceu uma eternidade), para ver os londrinos Happyness, num concerto incluído na série dos NME Awards.
Foi engraçado. Primeiro comer/beber qualquer coisa no piso de cima do bar, normal, vista para a rua, para depois descer as escadas até à cave e entrar numa sala algo claustrofóbica, tectos baixos, muitos corpos alinhados, para ver os rapazes (jovens, muito jovens) tocar durante pouco mais de uma hora. Não conhecia (e ainda não conheço) muito bem a música deles. Ouvi umas duas músicas antes do concerto, e pareceu-me consideravelmente bem (daí a decisão de ir ao concerto). Mas o grande inimigo da noite foi, nitidamente, o cansaço. Podia ser um pouco melodramática e dizer que a idade já não permite a estes devaneios durante a semana de trabalho, mas acho que não é tanto a idade mas mais o cansaço acumulado durante os longos dias no laboratório. Assim quero acreditar.
A experiência foi uma boa experiência e funcionou quase como um desbloqueador - agora já tenho uma ideia melhor de como a cena musical por cá funciona. Por isso, será mais fácil de a aproveitar. London Calling.

Egon Schiele, ou a viagem a um mundo despido

Foi já há algum tempo que vi esta exposição de Egon Schiele, artista austríaco do início do século XX. A exposição, intitulada "The Radical Nude", foi dedicada ao manancial de obras do artista sobre o estudo do nu. Schiele foi um pintor de cariz expressionista, e uma considerável parte da sua obra está relacionada, precisamente, com pinturas de nus - Schiele inspirou-se na irmã, na esposa, mas também em amigos e prostitutas, construindo assim uma obra muito interessante. Altamente provocador na forma como capta a natureza humana, Schiele faz também um uso muito interessante da cor. Morto prematuramente aos 28 anos vítima da gripe espanhola, Schiele deixou ainda assim uma obra vasta e muito, muito interessante. 
Um belo fim de tarde de Janeiro, a provar que sair (mais) cedo do trabalho pode ser uma bela ideia.

Regresso ao tricot



Depois de uma prolongadíssima pausa, consegui arranjar vontade e engenho para voltar aos trabalhos manuais, mais particularmente ao tricot. E assim, por altura do Natal, concluí duas golas (que vêem nas fotografias), que foram aquecer o pescoço de duas pessoas muito especiais... A primeira gola (a castanha) demorou praticamente 2 anos a terminar. Sim, é verdade. Passeou de Lisboa para Berlim, e de Berlim veio para Londres, intocada. E já em Londres esteve praticamente parada durante um ano, até que este Inverno voltou a vontade de produzir algo, ser capaz de fazer algo com as minhas mãos. E finalmente a dita gola viu o dia em que foi terminada. Já a segunda gola (a mais colorida) foi feita num ápice, quase em contra-relógio, para poder ser oferecida a tempo e horas. Também ajudou o facto de ser um ponto mais simples, em que não é preciso estar tão atenta. Isso e as infindáveis viagens de avião atrasadas!

Para já, tenho estes dois projectos acabados, o que me deixa muito feliz. Mas tenho outros projectos entre mãos, para os quais trouxe muita lã de Portugal. Vamos a ver como correm. Manter-vos-ei informados por cá. :)

Chimamanda Ngozi Adichie - Americanah

Depois de Mia Couto veio Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana de quem li anteriormente Half Of a Yellow Sun. Livro que adorei, por sinal. Este Americanah, o seu mais recente livro, é um bocado diferente. Mantêm-se, algo naturalmente, as raízes nigerianas bem no centro da história, mas neste caso estamos num período de tempo mais recente. Ifemelu é uma jovem nigeriana que se vê obrigada a emigrar para os Estados Unidos de modo a poder continuar a sua educação universitária. Na Nigéria deixa Obinze, seu grande amor de juventude. A vida nos Estados Unidos será, no entanto, bem longe do ansiado sonho da terra das oportunidades - e é esse evoluir da história que nós, leitores, vamos seguindo. Seguimos Ifemelu e Obinze, paralelamente. Andamos um pouco para trás e para a frente. Com a certeza que haverá um reencontro, mas sem perceber em que circunstâncias.
Assim resumindo, é capaz de parecer um romancezinho inconsequente. Mas não é. Do meu ponto de vista (de emigrante, obviamente), a história é precisamente sobre o desfasamento de realidades quando se vai viver para um país que não é o nosso. O que se aprende, o que se perde. As dificuldades, como se processa o dia-a-dia, como a pouco e pouco, eventualmente, nos vamos adaptando (habituando?) à nova realidade. Tudo isso tem custos, deixa marcas. Talvez por isso tenha gostado muito do livro, o qual li avidamente. Devido ao sentimento de pertença nessas questões. Países diferentes, culturas diferentes, contextos diferentes. Mas, no fundo, há questões completamente transversais nesta coisa de emigrar. Sempre com a esperança de uma vida melhor (o que quer que isso queira dizer).

Mia Couto - O outro pé da sereia

Para não variar, lá estou eu atrasadíssima na escrita deste blogue... ainda não é desta que os dias se tornaram melhores. Mas aqui vamos, desta vez para falar do último livro que li. Já lá vão umas semanas, mas a verdade é que ainda não comecei a ler mais nada. Também essa parte não está famosa.
Este livro do Mia Couto, um dos meus autores favoritos, é um pouco diferente daquilo que dele li anteriormente. A acção tem dois tempos diferentes: um mais no presente (2000 e picos) e outro por alturas pós-Descobrimentos. No entanto, os dois tempos da acção estão intimamente ligados, pelo que por vezes se perde um bocado a sua noção. 

E pronto, já lá vão (mais) umas semanas desde que comecei a escrever este post, sem que o tivesse terminado. Entretanto já li mais um livro, e tenho que confessar que a memória deste ficou um pouco para trás. O que posso dizer é que gosto muito do Mia Couto, mas este não é o meu livro favorito dele. Nem de longe, nem de perto. O livro é interessante e está bem escrito, mas não me passa a emoção a que estou acostumada com os livros dele. Falta-lhe uma certa profundidade, por assim dizer.
E assim, desta forma um pouco abrupta, fica a minha crítica ao livro. Sei que não é bem o que costumo fazer, mas é preciso seguir em frente.

Regresso ao passado (ou como teria sido bom ver dEUS há uns 10 anos atrás)


Aproveito a manhã de domingo, silenciosa, para pôr alguma ordem na casa. E com "casa" quero dizer este blogue, cujas publicações têm andado ligeiramente erráticas. A ver se isso muda (resolução de ano novo?...)
Há coisa de um mês atrás, em meados de Dezembro, vi pela primeira vez ao vivo uma banda que povoou o meu universo musical de jovem adulta: os belgas dEUS. Tive oportunidade de, no passado, ter visto um showcase deles, bem como um concerto de Tom Barman a solo, mas a banda completa num concerto a sério nunca tinha acontecido. Assim, quando vi que eles tocariam no dito-mítico Scala, a uns escassos metros de minha casa, achei que tinha que aproveitar a oportunidade. E assim aconteceu que, numa noite de Dezembro, voltei uns 10, 15 anos atrás no tempo para ouvir músicas como Serpentine, Suds & Soda, ou Little Arithmetics...
O concerto não foi mau em termos de alinhamento. Tocaram as mais conhecidas dos álbuns mais recentes e deram um grande ênfase ao emblemático In a bar, under the sea, de 1996. O problema é que os rapazes, nos seus 40 e qualquer coisa anos, estão apagados. Acredito que, no passado, houve ali energia, mas neste momento parece que estão a fazer um frete, ansiosos para que o concerto acabe e eles possam ir para casa. Foi triste sentir isso, porque me deixa com a sensação (correcta, de qualquer forma) que houve um tempo (para eles? para mim?) que já passou e que não dá para voltar atrás. Nostalgias de uma juventude... ou como é melhor fazer as coisas na altura certa (como ver dEUS quando eles eram uns gajos porreiros; ou, simplesmente, mais novos).

Pequenos nadas


Estas transições de ano civil são dadas a uma certa introspecção, aliadas a um exercício de resumo do que se passou no ano que entretanto terminou. Eu não sou excepção, até porque acredito que há benefícios nesse género de exercícios.
2014 foi um ano de pequenos nadas. Quase um oposto de 2013, ano recheado de emoções, boas e más. 2014 não teve (felizmente, por um lado) essa montanha-russa emocional. Foi o ano da continuidade - criaram-se hábitos nessa que é a minha condição de emigrante, consolidou-se o sentimento de não-pertença. Sem dramatismos. Acho que é condição sine qua non de viver num país que não é o nosso por nascimento ou educação. Aliás, essa é uma das pequenas conquistas de 2014 - ter encontrado, de alguma forma, a paz de perceber que é assim mesmo. O sentimento de desfasamento faz parte e não há que fazer disso um problema. 
2014 foi um bom contra-ponto a 2013, mas ficou a sede de mais. Mais conquistas, mais viagens, mais concertos. Mais. E, talvez até, mais pessoas. Será que me vejo escrever mais socialização?... Terei descoberto o meu "animal-social" depois de todo este tempo?... Desconfio. Mas começo este novo ano (transições arbitrárias, bem sei, mas todos gostamos de limites/limitações imaginárias - não?) com uma energia boa. Aquela energia de querer fazer muito, mas aos pouquinhos. Identificando, primeiro, o que são essas coisas que gosto de e quero fazer. E dedicando-me também a elas. Porque somos mais nós quando fazemos aquilo de que gostamos. 

Por isso, venha 2015. Peito aberto. Sem reservas.


E sim, há vários posts em atraso, pertencentes a 2014. Mas esses ficarão para a próxima.

Vinicio Capossela, ou a descoberta da música italiana

Faz hoje uma semana que voltei aos concertos. Já estava com saudades. Mas desta vez, contrariamente ao que é costume, não fui por minha iniciativa, mas sim convidada pela colega de trabalho italiana. À descoberta de um nome grande da música italiana, Vinicio Capossela. Completamente desconhecido para mim, mas muito bem recomendado.
O concerto começou com uma primeira parte por Piers Faccini & Vincent Segal. Um estilo muito próprio, com Segal no violoncelo e Piers na voz e guitarra. Por vezes fez-me lembrar Dead Can Dance, outras vezes pareceu-me ter recuado no tempo uns quantos séculos e estar de volta à Idade Média. Mas muito interessante, sem qualquer dúvida. Depois foi praticamente o delírio da sala repleta de italianos, quando Capossela subiu ao palco. E percebe-se bem porquê. Estamos na presença de um performer - ele não está ali apenas para cantar, ele está ali para interpretar um papel, para nos levar com ele numa viagem sonora. A música é variada, o grau de extroversão também, sempre com um sentido de humor apurado. Dizem-me que o concerto foi curto para aquilo que é costume, mas eu não me importo. Fiquei bem impressionada com o senhor Capossela. Foi um serão bem passado, divertido. Valeu realmente a pena, principalmente pela descoberta.

East is East

Numa temporada dominada pelas peças de teatro, vi também esta East is East. Conhecia a história pelo filme com o mesmo nome, de 1999. O que não sabia é que, esse mesmo filme, é baseado numa bem sucedida peça de teatro que estreou um pouco antes, a meio dos anos 1990. E que foi agora "re-editada".
Em relação ao enredo, conta a história de George, um paquistanês muçulmano emigrado em Inglaterra, onde casou com uma inglesa católica e de quem tem 7 filhos. A acção desenrola-se nos anos 1960 e basicamente foca-se no conflito entre a cultura paquistanesa e a realidade inglesa, e as consequências que tem nas relações familiares.
Já tinha gostado muito do filme e gostei igualmente da peça. Os lugares eram óptimos, na segunda fila, quase dentro do palco. Os actores são excelentes, alguns mais famosos que outros mas todos igualmente bons. E a história é interessante, ao mesmo tempo que é muito divertida. Sem ser tola, claro está. Um serão muito bem passado.

Frankenstein (ou como ver uma peça de teatro no cinema)

É fim-de-semana. Vamos lá aproveitar o tempo livre extra e o estado de espírito mais descansado para escrever um pouco neste blogue. Já vai sendo tempo.
Há umas semanas atrás tive a primeira experiência em algo que é bastante comum aqui em Londres: peças de teatro televisionadas em salas de cinema. O motivo foi um bom motivo e vinha recomendado. O clássico Frankenstein encenado pelo enfant terrible Danny Boyle, com Jonny Lee Miller e Benedict Cumberbatch nos papéis de Frankenstein e o seu criador Victor, em versões alternadas. Bastante apropriado para a dita Noite das Bruxas, não? Escolhi a versão em que Jonny Lee Miller é Frankenstein e Benedict Cumberbatch é Victor. Confio que ambas as versões serão fantásticas, mas não deixo de pensar que Miller é mais adequado para o papel do que Cumberbatch...
A peça é muito, muito boa. Os actores, os cenários, a música... tudo. É verdade que por cá sabe-se realmente fazer teatro. O que não me convenceu particularmente foi a parte de ver tudo isto numa tela de cinema (eu sei que já não são telas, mas fica mais bonito dizer assim). Filmado. Com ângulos de visão que nunca teria caso estivesse a ver a peça ao vivo, num teatro. Não sei, não me parece interessante. Ou verdadeiro. É quase como se fosse um filme (assim tipo o Dogville). Talvez o meu cérebro seja demasiado compartimentalizado e me faça gostar das coisas cada uma no seu lugar. Filmes no cinema, peças no teatro. E com actores que estejam realmente à minha frente.

Sunny Afternoon (ou uma história cantada sobre The Kinks)

O discurso é sempre o mesmo e já começa a parecer uma ladainha. Sim, é verdade, vou deixando acumular posts por escrever, por falta de tempo mas também por alguma falta de vontade... Espero que esta fase venha a acabar, eventualmente.
Há coisa de umas semanas atrás, fui ver este musical que me andava a piscar o olho há já alguns meses. Não me considero terrivelmente fã de musicais em geral, não que tenha grande experiência no campo. Mas pessoas a cantar em vez de falar normalmente é algo que me confunde, para utilizar uma expressão simpática. Neste caso, no entanto, a ideia é um pouco diferente. A peça/musical é sobre os The Kinks, banda inglesa dos anos 1960, da qual eu gosto bastante. A ideia é contar o percurso da banda através das suas canções. O que resulta num espectáculo muito interessante! Pude passar um serão a ouvir as músicas deles, ao mesmo tempo que aprendi um bocadinho sobre a história de vida da banda e seus elementos - coisas sobre as quais não fazia a mais pequena ideia. 
Percebo agora que talvez não seja assim tão difícil gostar de musicais, desde que à partida se goste da música. Depois disso é fácil - é quase como ir a um concerto, mas com actores a contar uma história pelo meio.