Vergonha

A vontade para escrever neste blog tem sido menos que pouca. Ando "desinspirada". Desinteressada.

Finalmente vi, há uns dias, o dito "filme do ano", segundo no currículo de Steve McQueen, polémico realizador britânico. Não, não vi o primeiro, "Fome" de seu nome. Por isso não estava familiarizada com o estilo do realizador, nem sabia muito bem o que esperar. Mas antes assim.
Não sei muito bem como falar sobre este filme. Como o próprio nome do filme sugere, vergonha é o sentimento que o domina. Vergonha pela vida que Brandon, personagem-mais-do-que-principal do filme (brilhantemente interpretada por Michael Fassbender), vive. Brandon é um predador sexual, vive imerso num mundo onde não existem pessoas nem sentimentos, mas apenas corpos e volúpia. No mundo real, Brandon é um tipo quase tímido, que rejeita qualquer contacto emocional mais íntimo, desajeitado. É assustador pensar que alguém é capaz de viver uma vida assim (e estou certa que os haverá entre as pessoas que me rodeiam). A vertigem é tal que chega a ser nauseante... Mesmo, ao contrário do que estava à espera (afinal sempre tinha expectativas), não havendo sexo explícito. Muito pouco é mostrado, mas não é preciso, porque o filme é de tal forma denso que não precisa de recorrer a isso.
Fiquei realmente repugnada. Acho que essa é a melhor palavra para descrever o que senti. O filme é muito, muito bom, está filmado de forma fantástica (há uma anonimidade latente que funciona muito bem na ideia geral), Fassbender é soberbo. Aliás, posso até dizer que é um actor que achava muito interessante (fisicamente). E digo "achava", porque depois de ver este filme, e enquanto me lembrar, não vou conseguir desligar da repugnância que me suscitou. Chega a ficar fisicamente feio, velho, deformado. Como se o exterior quisesse espelhar o que tem por dentro... É um filme fantástico, mas não um filme de que se goste (e a arte nem sempre se rege por esses princípios).

No fim, só espero que haja esperança, e que seja essa a mensagem final. Que o mundo em que vivemos não seja um mundo de cínicos.

6 comentários:

*S* disse...

Agora fiquei com curiosidade de ver este filme! ;)

irRita disse...

Acho que vale, definitivamente, a pena! Mas vai ser sempre um murro no estômago...

Depois diz-me o que achaste! ;)

Anónimo disse...

Já tinha uma ideia de que o filme era interessante e por isso, ansiava o ver.
Agora, com a tua crítica, ainda mais. :P
Martocas

irRita disse...

Sim, Martocas, tens que ver. É um bom filme.

Beijinhos

JL disse...

Não me parece que Brandon seja um predador sexual, Rita. É, como dizes e muito bem, um homem que está preso às sensações por ser incapaz das emoções. E essa é a sua vergonha, julgo. Se quiseres dar um salto ao outro lado para leres um pouco mais daquilo que achei, fica aqui o link.

http://portodeescala.blogspot.pt/2012/04/vergonha.html

irRita disse...

"Aqui se prova que mesmo rodeado de um sucesso aparente o homem pode permanecer só. E terminar refém da sua própria angústia."

Gostei muito da forma como a critica ao filme acaba. E concordo que "predador sexual" nao seja propriamente correcta.

Obrigada pelo comentario. :)