De partida...


Fica a pequena nota para vos dizer que estou de partida. Para o outro lado do Mundo. Para a aventura. De coração aberto e cabeça a precisar de ser esvaziada.

Desejem-me sorte.



Crónica da semana (a sexta), ou a influência da privação de sono

Resolvo escrever ao final do dia. Segunda-feira, regressei esta manhã (ou devo dizer madrugada?) do Porto, depois de um fim-de-semana de família e comezainas. Já não ia ao Porto, ou a Cinfães, desde Janeiro, altura em que fui exercer o meu direito de voto nas eleições presidenciais. Fazendo um exercício mental, creio que foi o período mais longo que alguma vez passei sem ir à minha terra natal. Talvez esteja a exagerar (sou um bocado dada a isso), mas tenho que admitir que não me lembro de outra situação semelhante.
Como todos os fins de semana de viagens, foi curto. Passou num ápice e apenas deu para aguçar as saudades. Porque a cada momento partilhado, mas breve, parece que as saudades aumentam, em vez de diminuir. Não compreendo o fenómeno, talvez alguém me possa ajudar. É impossível multiplicar o tempo, ou as ocasiões, para poder celebrar em família, com toda a disposição, mas poder também falar com cada membro individualmente, partilhar alegrias e angústias. Sei que já devia estar habituada, mas não. Lá no fundo, sou uma alma teimosa e que se recusa a aceitar o status quo só porque é assim a realidade... Se bem que, volta e meia, me tenha que render às evidências.
Considerações à parte, a família Resende lá esteve reunida na Casa do Pinheiro para dar as boas-vindas ao Outono com uma competição cheia de petiscos. Comeu-se muito e bem, e a comida foi suficiente para duas refeições de mais de 20 pessoas. A provar que somos uns alarves... a cozinhar. Os dias estiveram tipicamente outonais (a honrar a ocasião), frescos mas com sol. A dourar as cores. Que saudades que tinha de me sentar no pátio ao sol da tarde, a contemplar a água a correr na fonte... Bem, já perceberam que o espírito do momento está nostálgico. O dia vai longo e não sei muito bem se escrever é uma boa ideia, mas continuo. Começo a sentir os efeitos da privação de sono, e quero acreditar que me tornam mais inspirada. Aproveito a boleia.

Começo a sentir-me um bocadinho mais habituada ao novo local de trabalho. Ainda relutante, mas mais resignada. Ainda assim, não o sinto como meu. Talvez deva arranjar algum estratagema para estabelecer território, qual felino a urinar pelos cantos! Não se preocupem que (ainda) não perdi o juízo. Para além de que seria logisticamente complicado.
No fim-de-semana passado houve mais uma caminhada. 25Km no sudoeste de Londres, por entre veredas de urze púrpura. Com alguns enganos, um pouco de chuva, e os últimos Kms percorridos na escuridão. Uma aventura, portanto. As pernas vão habituando-se à quilometragem, mas o que me preocupa são as costas (e habituar-me a carregar peso). Tenho que regressar ao ginásio (em interregno desde a mudança de instituto), mas a preguiça toma conta de mim e continuo sem fazer nada nessa direcção. Sinto em mim, novamente, aquela ansiedade quase angústia de ter tanto que fazer que só me apetece transformar-me em avestruz. Ainda agora resolvi enfrentar uma dessas angústias, só para descobrir que a máquina fotográfica que tencionava comprar está esgotada... Mensagem divina para começar a tratar do que realmente preciso?

Acabei de ler Boris Vian (que havia mencionado no último post), e li também o quarto volume da manga que me anda a chegar de França. O senhor Vian é estranho... rigorosamente nada a ver com o outro livro que li dele, o famoso A Espuma dos Dias. Muito gráfico, sem dúvida, deu para perceber o porquê de ter sido uma obra tão polémica na altura da sua edição. Ainda hoje, provavelmente, o seria. Estou agora em modo tábua-rasa, no momento de decisão sobre o que ler a seguir. Livros não faltam, ainda agora trouxe um de Portugal, presente do meu querido padrinho. Talvez pegue mesmo nesse, uma obra de valter hugo mãe, escritor que me deixa curiosa. 

Vou terminar por aqui. São quase 20h e quero ir para casa. Peço desculpa por não ter dito nada sobre a minha ida ao país (ou por não ter combinado nada), mas já sabia de antemão que não haveria tempo para isso. É a dita condição de emigrante, sobre a qual já me pronunciei por cá... As pouco mais de 48h de um fim-de-semana são incrivelmente curtas para todos os desejos que o meu coração abriga.

Crónica da semana (a quinta), ou a das mudanças

Pois é, pois é, mais uns tempos sem escrever. Perdoem-me a falta, mas houve pouco tempo nos últimos fins de semana, entre uma ida ao rectângulo e umas passeatas por cá. Aqui estou eu de volta para vos entreter por um bocadinho.

Começo a escrever-vos no momento em que o relógio do computador me diz que são 19h24. São boas horas de ir para casa, algo que farei depois da escrita. Estou na minha segunda semana no novo instituto, para onde nos mudámos na semana passada, e o que vos posso dizer é que é estranho. Não acho que seja propriamente resistente a mudanças (até as procuro com alguma assiduidade), mas esta está definitivamente a custar - não porque não esteja a gostar, mas porque estou com dificuldade em sentir este como o meu novo local de trabalho. É tudo novo, super sofisticado (ou a tentar ser), caras novas a passear-se pelos corredores. Mas não me entusiasma. Nem sequer os omnipresentes sofás, espalhados por todos os cantos, me fazem sentir o ambiente como convidativo. Mais parece um centro comercial do que um local de trabalho. Mas adiante. Talvez me esteja a faltar voltar à bancada, pipetar um bocado e tudo fará sentido novamente! Vamos fazer figas para que isso aconteça, porque esta sensação de não pertencer a este sítio está a deixar-me vagamente nervosa...

Ir a Portugal a um congresso foi também uma experiência algo estranha, especialmente ali no Estoril, bem no meio dessa área que foi a minha área de influência durante um bom período de tempo. O meu cérebro sentiu-se particularmente confuso com a alternância entre Inglês e Português, mas foi interessante e sem dúvida muito bom poder matar saudades da família. Desta vez foi mesmo só da família, não houve mais nada para ninguém. Mas daqui a nada vou novamente ao rectângulo, desta vez à zona norte, para matar as saudades todas que me vão preenchendo há já 8 meses... Estar fora do país, ou esta condição de emigrante, não é algo de fácil adaptação. É difícil gerir expectativas (minhas e exteriores), o tempo é tão curto de cada vez que regresso ao país que quase sinto precisar de uma secretária a tempo inteiro para poder organizar o meu tempo! E às vezes só me apetece não complicar, não esforçar e apenas relaxar, aproveitando o pouco tempo que passo por lá. Consciente de que, quando não faço o esforço para ver aqueles que me estão mais perto do coração, certamente passarão mais dois ou três meses até que surja nova oportunidade para tal. Mais de três anos passaram desde que saí de Portugal e ainda não me consegui adaptar a esta minha condição. Será que algum dia acontecerá? Será que deixarei de me sentir neste limbo, nem cá, nem lá?...

Reflexões à parte, parece que o meu bom momento de leitura veio para ficar. Acabei de ler O Jogador, de Dostoievski, que já havia mencionado por cá. Leitura interessante, cativante, mas que não conseguiu ainda convencer-me sobre a reputação do autor. Sei que é a minha primeira abordagem, e talvez a tradução não tenha ajudado. Não desistirei por aqui, porque a minha curiosidade é mais forte (quando me dizem que é um dos melhores escritores a descrever a mente humana). De momento dedico-me a Boris Vian, com uma obra muito polémica e que está a puxar muito pelo meu Francês. Diverte-me, sem dúvida.
Continuam também as caminhadas, com o objectivo primordial de fortalecer pernas e costas. No passado domingo foi vez de rumar a sul até às Seven Sisters (que também já mencionei por cá), numa caminhada longa mas muito bonita. Este país tem realmente algumas coisas boas...

São agora 19h59 e digo-vos adeus. Horas de deixar esta gaiola dourada e ir ver a vida lá fora.
Até breve.

E agora algo completamente diferente... Snowdonia e arredores







Crónica da semana (a quarta), quando todos percebemos que estas crónicas não s(er)ão semanais

É preciso enfrentar a realidade e admitir para mim mesma que talvez não vá conseguir manter a periodicidade destas crónicas em uma vez por semana. Tento escrever ao fim-de-semana, por ser por excelência uma altura em que tenho maior disponibilidade mental, mas por vezes mesmo ao fim-de-semana é difícil encontrar um tão desejado momento de calma e serenidade para me sentar ao computador e escrever.

Hoje é domingo e aqui me encontro, sentada no sofá com o computador no colo e a televisão ligada à minha frente. Lá fora o tempo está cinzento, e assim tem estado todo o fim-de-semana, a lembrar-nos que, daqui a nada, está aí o Outono. Não gosto deste tempo, deixa-me ainda mais melancólica do que o costume. Isso e o facto de ter passado quase todo o fim-de-semana a trabalhar. Sinto que foi um fim-de-semana desperdiçado, não aprendi nada nem vi nada de novo. Mas talvez esta seja apenas uma reacção ao fim-de-semana passado, prolongado cá por estas bandas, em que fui ao País de Gales, onde caminhei muito e lavei os olhos em paisagens desconhecidas. Foi um fim-de-semana intenso e proveitoso, daqueles que depois nos deixa com um certo vazio no peito, como que a ressacar de um excesso de sentimentos bons. Andei assim durante a semana, e assim continuei quando o fim-de-semana chegou. E agora que ele está quase no fim, assim continuo a sentir-me. Na obscuridade.
Para além dos passeios de exploração da ilha (qual Serpa Pinto), também houve regresso aos concertos. Uma estreia em termos de sala de espectáculos, e que bela estreia. A Union Chapel, em Islington, é, como o próprio nome indica, uma capela/igreja que, para além de serviços religiosos, alberga também ocasionalmente concertos e outro tipo de espectáculos. O espaço é muito bonito, intimista, com toda a fachada interna revestida a madeira, boa acústica. O concerto, esse, foi de um velho conhecido - Sam Beam (aka Iron & Wine) - acompanhado de Jesca Hoop, com quem gravou um álbum no início deste ano. Não conhecia o álbum, e as canções que tocaram de Iron & Wine não reconheci (e eu que achava ter um bom conhecimento de causa). Mas isso não foi particularmente importante porque gostei muito do concerto e das músicas que tocaram. Foi daqueles que volta e meia nos põem um sorriso nos lábios.
Tirando isso, actividades culturais não têm sido muitas. Continuo a ler O Jogador, de Dostoyevsky, edição de mil novecentos e troca o passo, que me está a deixar curiosa. Ao cinema não tenho ido, mas tenho visto alguns filmes por casa (de assinalar dois da realizadora Kelly Reichardt - Wendy and Lucy, e Meek's Cutoff). Agora preparo-me psicologicamente para rumar de volta ao rectângulo, desta vez por motivos profissionais. Isto por cá vai continuando com muitos altos e baixos...

Crónica da semana (a terceira), ou as manhas do amuo

À terceira já começa a atrasar. É muito bom ter fins-de-semana repletos de actividades e socialização, mas depois a escrita fica para trás e não há tempo nem disponibilidade emocional para me dedicar a ela um bocadinho. Espero que não se torne um hábito (a falta de tempo).

Chegam-me aos ouvidos (ou, neste caso, aos olhos) palavras de regozijo perante a minha recém-adquirida maturidade e atitude perante a vida. Agradeço o incentivo, é algo para a qual muito me tenho esforçado, tenho que admitir que não é algo que venha assim naturalmente. De vez em quando, mais comummente do que gostaria, os amuos tomam conta do humor e parece não haver nada a fazer. Nessas alturas respiro fundo, conto até quinhentos (pelo menos), tento focar-me noutros assuntos que não aqueles que me consomem o espírito. Difícil... Tem sido um pouco assim na última semana, com altos e baixos e situações problemáticas, na minha cabeça e à volta dela também. Se, por um lado, sempre gostei de estar na posição de confidente, também é verdade que por vezes é uma posição um bocadinho ingrata, principalmente quando é difícil ajudar os que temos pela frente. Relembra a frustração de tantas situações sobre as quais não tenho qualquer controlo.
Felizmente, os momentos são isso mesmo, fugidios. E os amuos vêm e não ficam, algo que me deixa feliz. Neste último fim-de-semana fui a Berlim, matar saudades dos amigos e da cidade. A cada vez que lá vou, repete-se o sentimento. Sinto que estou em casa. Também esse sentimento é fugidio, bem sei. Como sei que, se por lá continuasse, com certeza que muito me queixaria dos típicos problemas de primeiro mundo, como a omnipresente gentrificação das cidades. Na realidade, não vivo lá, e como tal mantém-se o sentimento de enamoramento. Deixem-me assim, sorriam com benevolência. Todos nós temos os nossos quês, nem sempre fáceis de explicar por palavras.
Para além de juízo, parece que também consegui reganhar um pouco, ainda que momentaneamente (porquê esta obsessão com o momento?...), o meu gosto pela leitura. Li mais um livro, em cerca de duas semanas! The Wasp Factory, de Iain Banks, livro perturbado mais do que perturbador, muito interessante e cativante de uma forma fora do comum. Para os que não sejam demasiado sensíveis, aconselho vivamente a leitura. Espero que haja edição em português mas, para ser sincera, não sei.

Assim acontece por Londres. Montanhas-russas de emoções, irritações e outras demais palavras terminadas em -ões. Nada de malícia. Os amuos vão e vêm e eu cá me vou aguentando. Atrasando-me na escrita, que não gosto. Mas aproveitando pequenos momentos, como este fim de dia quente (diz que estão 30ºC lá fora, daqui a nada já confirmo), para vos deixar umas palavras. Espero que vos encontrem bem.

Crónica da semana (a segunda), ou a "magia" dos 34


Eu bem disse que quando voltasse a escrever neste blogue já o faria do alto dos meus 34 anos. E assim acontece (como diria o Carlos Pinto Coelho, nos idos tempos felizes da RTP2...). 
Quem me conhece um bocadinho sabe que dou importância a estas coisas dos aniversários. Sou uma pessoa de pormenores, de pequenas coisas, não de grandes festas ou manifestações. O que, na maioria das ocasiões, só torna as coisas um pouco mais complicadas. Mas os 34 lá chegaram, iluminados pelo sol inglês (que de vez em quando decide dar um ar da sua graça), mais calmos do que é costume nestes dias (será a maturidade a atingir-me?...). Houve direito a passeio em fim-de-semana de aniversário, para explorar a costa inglesa e uma região que há muitos anos povoava o meu imaginário: a Cornualha. Não saí decepcionada, não fosse dois acontecimentos (não relacionados) que marcaram o fim-de-semana de forma bastante distinta - primeiro, perder a minha máquina fotográfica no dia do meu aniversário; e segundo ter chovido continuamente durante o resto do tempo. O primeiro acontecimento marcou-me muito mais profundamente que o segundo, como seria de esperar, e quase estragou irremediavelmente o momento. Mas, a provar que estou uma miúda muito crescida e madura, lá consegui aceitar o provérbio que diz que o que não tem remédio, remediado está e perceber que estas coisas acontecem, mesmo que nos deixem tristes. Haverá mais máquinas fotográficas que, se tudo correr bem, não perderei. Mas, por uns momentos largos, tive que lidar com a frustração de algo que fugiu completamente ao meu controlo. Talvez tenha sido esse o ensinamento dos 34... agora que penso nisso com mais atenção, quase que parece um desígnio divino para me fazer libertar um bocadinho das minhas ansiedades e tentativas de controlar todos os pequeninos aspectos da minha vida. Acho que vou escolher essa interpretação e tentar abraçar esse ensinamento o mais profundamente possível.
Ensinamentos à parte, esta coisa dos aniversários traz sempre sentimentos mistos. Por um lado é um dia em que nos tornamos o centro das atenções, mas por vezes as atenções não vêm de onde desejamos. Porque é que fazemos isso? Porque é que nos agarramos ao que não temos em vez de ficar felizes por aquilo que nos é oferecido? Também tive um pouco desses momentos neste aniversário, mas bastante menos do que em anos anteriores. Houve muitas pessoas que não se lembraram, como seria de esperar, embora umas doam mais do que outras. Mas houve tanto carinho vindo de tantos lados! Postais que chegaram com quase uma semana de antecedência, encomendas, telefonemas de vozes distantes, mensagens e felicitações sem conta. Por isso, fica aqui um agradecimento oficial a amigos e família que, através da sua presença ou não, contribuíram para um dia feliz. E porque a vida não se faz só de aniversários, nem pouco mais ou menos, reitero igualmente a importância que têm para lá destes dias felizes.

E pronto, os 34 aconteceram e estão para ficar. Para já parecem-me bem.

Crónica da semana (a primeira), e um pequeno resumo

Voltar à escrita é aparentemente mais difícil do que estava à espera. Agradeço desde já as notas de incentivo, é muito bom saber que existem aí desse lado pessoas que gostam de ler as minhas deambulações... Obrigada. Infelizmente, sinto-me um bocado perra nestas andanças, desabituei-me deste exercício. Mas vamos lá.
A última semana trouxe a Londres aquilo que a maioria de vocês está farta de sentir na pele: calor. Dias solarengos, temperaturas altas, até parece que por cá também há Verão. Espera, estamos no hemisfério norte, por isso devia mesmo ser Verão... Nestas alturas os parques repletam-se de gente, principalmente à hora de almoço, e eu não sou diferente na minha ânsia por um pouco de sol. De repente, as pausas de almoço tornaram-se em exercícios de "trabalhar para o bronze". Não que algum dia vá lá chegar... Uma semana em Portugal não chegou, por isso há que render-me às evidências (e à herança genética).
Por norma, acho que o tempo bom põe as pessoas bem dispostas. De bem com a vida. É verdade que tenho sido atingida por um pouco dessa boa disposição, mas não consigo deixar para trás a insatisfação de viver num país onde nunca se sabe o que o dia de amanhã vai trazer, em termos meteorológicos. Pensarão vocês, talvez com razão, que é sempre cinzento, por isso qual é a dúvida? Apesar de já lá irem quase 3 anos, ainda tenho ilusões de que é possível haver Verão por estas bandas... o meu optimismo recusa a render-se.
Então, por Londres tem sido assim. Traumatizada por não ter mais férias este Verão (as habituais perguntas sobre férias tornaram-se um tabu e quase sempre desencadeiam uma onda de tristeza), a tentar planear fins-de-semana que de alguma forma mitiguem esse facto. Tenho lido mais, o que me deixa feliz. No último mês li dois livros, e recomendo ambos. Primeiro, A Shepherd's Life de James Rebanks; e ontem acabei de ler Things Fall Apart, de Chinua Achebe. Estilos muito diferentes - o primeiro escrito por um pastor inglês sobre a sua história de vida; o segundo uma obra importante da literatura africana negra, sobre as disputas entre clãs e a administração britânica na Nigéria. Tenho que falar também na omnipresente música (ou não fosse ela uma das partes mais importantes do meu dia-a-dia). Este ano tem sido o ano do regresso ao passado. Consegui ver, desde o início do ano, três das minhas bandas mais favoritas de todos os tempos - em Fevereiro Massive Attack aqui em Londres, e agora em Julho Radiohead em Lisboa e Sigur Rós novamente aqui em Londres. Claro que a minha opinião é parcial, mas foram três momentos mágicos, a reiterar o facto de todas três bandas serem fantásticas, tanto no seu portofólio como nas suas capacidades de execução ao vivo. Estou de alma cheia e não preciso de ver mais nada até ao próximo ano! (mas claro que haverá mais concertos nos entretantos...)
Fica, então, aqui este pequeno resumo das minhas andanças, embora não seja bem este o ênfase que quero dar a este espaço... Aproxima-se a passos largos o meu aniversário, por isso da próxima vez que falar convosco será provavelmente já do alto dos meus 34 anos. Talvez notem uma maior maturidade... ou talvez não.
Escrevi umas notas aquando das minhas férias em Portugal no início do mês, talvez as partilhe por aqui, havendo tempo e vontade. Nos entretantos, deixem as vossas opiniões - gostam mais deste formato, do antigo, quais são os assuntos sobre os quais mais gostam de ler? Ah, lembrei-me agora que talvez devesse fazer uma pequena reflexão sobre o referendo à saída da UE que aconteceu aqui no Reino Unido... vou apontar para a próxima "crónica".

Até breve. (Hoje debaixo de chuva)

O regresso

É verdade. Estou de regresso. Não sei quem me irá ler desse lado, depois de mais de um ano de ausência. Mas finalmente percebi que me faz falta escrever e que este era, por definição, o meu espaço de escrita. Por isso aqui retorno.
No entanto, espero fazê-lo num formato um bocadinho diferente. Não me sinto com vontade para enumerar as minhas desventuras culturais e afins, por isso proponho-me a um exercício um pouco mais pessoal. A ideia é escrever algo como uma crónica semanal, reflectiva sobre os acontecimentos e sentimentos da semana. Algo que seja mais eu.

Por agora, fica o aviso à navegação. Para breve, mais algumas palavras.

Inventing Impressionism

Tenho a mania de dizer que há duas coisas boas de viver em Londres: os concertos e as exposições. Será fácil de perceber isso por aquilo que vou escrevendo por aqui... Desta vez, quero falar um pouco da última exposição que vi por cá, e que teve como mote homenagear a corrente Impressionista e aquele que foi o seu grande impulsionador, o comerciante de arte francês Paul Durand-Ruel. Através de práticas até então nunca utilizadas, Durand-Ruel financiou produção artística a nomes como Monet, Renoir ou Manet. Comprou obras em largas quantidades, pagou salários mensais aos artistas... realmente um visionário.
Esta exposição engloba assim um conjunto de obras de alguma forma ligadas a Durand-Ruel, desde retratos por Renoir até decorações feitas por Monet na sua casa, passando claro está por obras por ele comercializadas. Uma exposição vasta, bem organizada (acompanhada de um livro com contextualizações das obras expostas) e, acima de tudo, cheia de beleza. O Impressionismo é uma das minhas correntes favoritas em termos de pintura, por isso foi uma daquelas vezes em que fiquei de alma cheia.

Andanças polacas

E porque os domingos são dias tendencialmente deprimentes/deprimidos, nada como preenchê-los com um pouco de música. Música, sempre a música... ou quase sempre. 
Desta vez éramos um grupo grande, para ver um rapaz polaco, "arrastadas" pela Magda que nos quis mostrar música feita no país dela. Mais um espaço de concertos a conhecer, desta vez em Highbury. Sempre a conhecer novos cantos à cidade...
Quando chegámos, tocava o rapaz que fazia a primeira parte. Um bocadinho estranho, sozinho em palco com a sua guitarra eléctrica. Depois veio então o rapaz cujo nome artístico é Fismoll, que é algo que em polaco se refere à escala de Fá sustenido, segundo consigo perceber. Acho que tem a ver com o tom em que o rapaz canta, mas não tenho a certeza... Vinha acompanhado da irmã, no violoncelo, e de um amigo na guitarra eléctrica. Não me lembro de haver bateria... mas a memória já me falha. A música, essa, é daquelas bem melancólicas, no jeito usual de alguns cantautores. Interessante, assim se passou um serão de forma diferente. Ou então não, com tantos concertos já se vai tornando essa a norma (e não a excepção).

O segundo round do sofá

Passado cerca de um mês da primeira sessão, fomos novamente escolhidas para os sons do sofá, desta vez na zona sul da cidade. Nunca tinha ido para aqueles lados, tão a sul do rio... mas há que explorar, por mais intimidante que por vezes seja.
Desta vez, fomos parar a um contentor. Sim, um daqueles armazéns que por cá são muito comuns por baixo das linhas de comboio... Aparentemente, neste caso específico, é um contentor onde se faz arte. Onde em cada canto de vêem peças por acabar, pedaços de instalações... um pouco pseudo-artístico para meu gosto, mas tenho que deixar de ser tão crítica. Um palco pequenino, em jeito de caramanchão, estava instalado numa das pontas do armazém, com o público a acumular-se sentado pelo chão. Como é costume.
No primeiro acto, Sophie Jamieson, miúda de ar muito tímido a esconder-se atrás da guitarra (e dos rapazes que com ela tocavam). Música muito interessante até porque, ainda que inesperado, a miúda tem um vozeirão impressionante. Segundo acto, troca o estilo. Ao anunciar o nome, Nina Miranda, uma vaga sensação de familiaridade. Mas não foi até à segunda canção, quando ela cantou Under Water Love, que eu percebi que tinha à minha frente a antiga vocalista dos ingleses Smoke City. Brasileira de origem, Nina trouxe um pouco mais de ritmo à sessão. Uma surpresa muito agradável. Para fechar, mais um vozeirão: dois rapazes, um com uma guitarra, outro com o seu cabelo. Seafret de seu nome. A mim fez-me lembrar tremendamente Simon & Garfunkel, não por causa do estilo musical, mas mesmo por causa do estilo físico dos dois rapazes: não muito altos, um mais tímido e (também ele) escondido atrás da guitarra, enquanto o outro anda obviamente a copiar alguém, com o seu cabelo loiro quase em afro. Som muito cru, com a voz a ressoar pelos espaços vazios. E o pessoal a arrepiar. Som deveras interessante, sem dúvida, bem mais interessante do que o que descobri no dia seguinte através do Spotify, em que soou um bocadinho mais pop do eu gostaria...
Enfim, uma noite muito interessante, em que fui dormir de coração cheio. Às vezes acontece.

O rapaz da folk ao vivo na Junta de Freguesia

(... eu é que sou o presidente da Junta...)

Por insistência da Magda, e numa altura de muitos concertos, fui ver este rapaz, Sam Amidon, num espaço algo diferente: a assembleia da Câmara Municipal/Junta de Freguesia de Islington (a organização por cá é diferente, por isso não sei bem o que é). Domingo à noite, muita preguiça, um bocadinho a condizer com a música do rapaz - melódica, folk calminho, quase para relaxar.
Conhecia pouco da sua obra, mas foi um concerto muito interessante. Diria até que é daquele tipo de música que funciona melhor ao vivo do que em álbum. Ganha mais corpo, mais nuances, quando em estúdio parece quase... aborrecida. Por vezes é assim, por vezes ao contrário. Há que saber aproveitar o melhor.

Maria Iordanidou - Loxandra

O último livro que li foi-me oferecido pela minha antiga companheira de casa e é, aparentemente, um clássico da literatura grega do século XX.  Que ela, enquanto grega, quis partilhar comigo. O que teve que ser feito através de uma edição em francês uma vez que, também aparentemente, não existem edições em inglês (e parece-me que em português também não). Uma boa desculpa para matar saudades da língua francesa.
O livro conta, como seria de esperar, a história de Loxandra, nascida e criada em Istambul numa altura em que ainda não existia essa designação. Seguindo a vida de Loxandra em toda a sua extensão, este livro é, ao mesmo tempo, uma ode ao poder matriarcal e uma lição da história do final no século XIX naquela parte do mundo. 
Com um forte ênfase nas relações familiares e na sua dinâmica, Loxandra é também uma homenagem à cultura (nomeadamente gastronómica) grega. Não faltam descrições pormenorizadas de refeições típicas gregas, difíceis de ler em alturas de maior apetite!
Assim, sob a ideia relativamente simples de contar a história da vida de uma mulher em Istambul, encontra-se um relato muito rico e que nos ensina muito sobre a sociedade daquele tempo e a cultura de um povo. Foi um leitura sem dúvida interessante e estimulante, a qual espero que me tenha posto de novo no bom caminho da leitura. De volta a bons hábitos. 

Mais uma primeira vez

A minha vida em Londres tem sido profícua em "primeiras vezes". O que, na casa dos trintas, é com certeza um facto digno de ser assinalado, apesar da minha ubíqua má-vontade em relação a esta cidade.
Certo é também que, na generalidade, estas "primeiras vezes" têm estado relacionadas com concertos. E esta vez não foi excepção.
Já não sei bem quando começou a minha relação com Calexico, nem em que contexto. Sei que quando estava na faculdade em Coimbra eles eram uma das minhas bandas preferidas. E também me lembro de eles tocarem em Lisboa sem que eu pudesse ter ido. 
A faculdade já vai lá longe, por isso podem imaginar que esta é uma relação de longa data. Como tendem a ser. Há já alguns meses que tinha visto o anúncio do concerto dos Calexico em Londres, na O2 Shepherd's Bush Empire, mas foi apenas a umas duas semanas do concerto que me decidi a ir. Pelos velhos tempos. Para não perder a oportunidade. 
Embora haja momentos mais "adequados" para fazer determinadas coisas na nossa vida, é sempre um prazer quando ouvimos músicas que nos dizem muito, ao vivo. Houve momentos neste concerto de felicidade pura, se é que posso arriscar dizer que conheço esse sentimento. A música é algo muito poderoso, sem dúvida. E, assim, uma noite de terça-feira transformou-se num regresso ao passado - não o passado de quando ouvia avidamente estes senhores, mas um passado mais longínquo, quando a vida era fácil.

A gala de Tchaikovsky, ou fogo-de-artifício dentro do Royal Albert Hall

Há umas semanas atrás fui a mais um concerto, desta vez um pouco diferente - uma gala dedicada ao compositor russo (que eu tanto gosto) Tchaikovsky, no Royal Albert Hall.
A companhia era extensa (éramos um grupo grande, graças às promoções da TimeOut) e os lugares interessantes, lá em cima nas galerias, com uma boa vista de toda a sala. 
O concerto foi muito interessante, incluindo excertos do Lago dos Cisnes e do Quebra-Nozes, mas também a 1812 Overture. É comum haver fogo-preso quando esta obra é tocada, facto que eu desconhecia até este dia, quando de repente há lançamento de canhões bem por cima das nossas cabeças, seguido de fogo-preso que lançou uma onda de fumo pela audiência... Digamos que não achei toda a piada do mundo. A obra é sem dúvida muito interessante, inspirada na derrota da armada de Napoleão na Rússia (e daí incluir partes da Marselhesa, facto que me confundiu de início). 
Em suma, adorei ouvir as peças de Tchaikovsky, foi uma tarde muito bem passada, mas por favor deixem-se de tiros de canhão e fogo-de-artifício. Completamente démodé.

A pigeon sat on a branch reflecting on existence

Depois de meses sem ir ao cinema (já não me lembro quando foi a última vez...), resolvi fazer valer a anuidade do Barbican e matar saudades do escurinho.
O escolhido para tal ocasião foi este filme sueco, com um título bem sugestivo - em português, será algo como "um pombo pousou num ramo reflectindo sobre a existência". Não sei qual é o título em português porque, segundo consegui apurar, ainda não estreou em Portugal. Para além do título, o filme vem com o pormenor de ter vencido o Leão de Ouro do festival de Veneza no ano passado. Não é para todos.
Bem, o filme, com a maior das certezas, não é para todos também. Se bem que as críticas falem em humor negro, história bizarra, entre outras coisas, nada fazia antever o que se passou naquela sala de cinema do Barbican - foi provavelmente o filme mais estranho que vi até hoje. E não, não gostei. Filmes estranhos acho que já vi muitos, mas este, apesar de ser uma comédia, não me fez rir. Mesmo que não seja pessoa de riso fácil. É simplesmente estranho, difícil de perceber. Dizem os entendidos que só quem não tem capacidade de perceber faz este género de comentários, porque o filme é genial. Isso não sei. Mas eu, definitivamente, não gostei.

Ah, e se alguém perceber sobre o que é que o filme trata, por favor avise-me. Gostava de saber também.

Sofar Sounds, o início


Veio como uma dica da amiga homónima T e soou bem a ideia. Concertos secretos, em localizações bizarras, tais como a sala de estar de alguém. Claro que me juntei ao clube e esperei por ser seleccionada. O que não demorou muito tempo a acontecer, mas calhou numa data pouca jeitosa. Quis então o destino que a Magda, que entretanto aceitou a sugestão de se juntar ao clube também, fosse escolhida daí a uns dias. E assim tivemos o nosso baptismo de Sofar Sounds
Tudo aconteceu naquilo que eu acho que era um antigo celeiro reconvertido numa casa espectacular. O piso de baixo, em plano aberto, albergou as bandas e os ouvintes. Sim, tivemos direito a 3 bandas, cada uma a tocar cerca de 30 minutos. Parece ser esse o formato. Primeiro, Miss Baby Sol, cantora originária do antigo Zaire, actualmente a residir em Londres. Depois, Lail Arad, cantora britânico-israelita. Para terminar, ouvimos Bella Figura, colectivo também londrino. Em termos de estilos sonoros, são todos bastante distintos. Miss Baby Sol com uma sonoridade mais soul, spoken word; Lail Arad a típica cantautora de guitarra na mão; e os rapazes Bella Figura com um som mais denso, por assim dizer.
Foi uma experiência verdadeiramente diferente. Estar ali, no meio de umas 50 pessoas, na sala de estar de alguém, a ouvir música até então desconhecida... Muito interessante. Muita única.
Obrigada Sofar Sounds pela iniciativa. E até à próxima.

Sinkane @ XOYO

Há exactamente um mês atrás, estava eu num sítio mais agradável do que hoje, a aprontar-me para ver Sinkane, rapaz nascido em Londres, com raízes no Sudão e educado nos EUA. Mistura interessante.
A "recomendação" veio da Magda, com a etiqueta de ter colaborado com os Yeasayer. Que são uns gajos de quem eu até gosto bastante. Assim, lá rumámos nós até mais um dos milhentos sítios onde se realizam concertos nesta cidade, mais precisamente o XOYO, na zona este da cidade. Muito in, portanto.
O rapaz tem jeito para a coisa. O arranjo é simples, entre guitarra, baixo, bateria e muito sintetizador. As músicas têm ritmo, o rapaz tem presença, o espaço é interessante, logo foi mais uma boa experiência musical nesta cidade que tem muito para oferecer nesse campo. Valha-nos isso. Para combater a má-disposição.

As histórias dos irmãos Grimm

E uns dias mais tarde, no habitual excesso de actividades culturais que por vezes inunda as minhas semanas, fui ver um espectáculo algo diferente - uma peça de teatro composta por dramatizações de várias histórias (infantis) dos irmãos Grimm em diferentes ambientes (e salas) de um mesmo edifício. O público segue os actores nas transições entre histórias, escada acima, escada abaixo. Um conceito muito interessante. As salas estão decoradas de forma a aludirem a cada uma das diferentes histórias, a baixa luz, como que a convidar à imersão no ambiente alegórico. Para nos transportarem com eles ao centro de cada uma das histórias. 
Tivemos direito a 5 histórias (O Príncipe Rã ou Henrique de Ferro, Hansel e Gretel, Pele-de-bicho, A pastorinha de gansos, e Os três homenzinhos na floresta). Não sei se estes nomes são os usados em português, mas fica a ideia. A maioria de nós cresceu a ouvir histórias dos irmãos Grimm, por muito estranhas que elas por vezes pareçam (principalmente como histórias infantis). Por isso é quase como que um sonho entrar no imaginário dessas histórias que povoaram a nossa infância. 
Gostei muito, de tudo - das dramatizações, da decoração, da ideia, dos espaços. Foi uma noite muito interessante e bem passada. No final, tivemos ainda direito a explorar o espaço, estudar os recantos. Pena que não tinha a minha máquina fotográfica comigo...

Nigéria º Hamburgo º Londres

Há um mês atrás, recém-chegada das férias da Páscoa no belo rectângulo, fui ver Nneka, cantora nigeriana radicada na Alemanha, ao Village Underground.
Sugestão do amigo Ilias, revelou-se uma experiência muito interessante. A música de Nneka anda à volta da mistura entre sonoridades de raiz africana, como o afrobeat de Fela Kuti, e uma tendência mais hip-hop. O resultado é bastante interessante, embora tenha que confessar que sou pouco conhecedora do seu repertório musical. O que faz com que os concertos assistidos nestes moldes sejam, de alguma forma, estranhos. Este não foi excepção, mas foi, sem dúvida, muito divertido. Estávamos todos bem-dispostos, com um grau de "maluqueira" q.b. que é mesmo o que se precisa. O Village Underground é um espaço muito interessante, espécie de antigo armazém, com uma atmosfera diferente. Descobri que também há um em Lisboa... coincidências.

Antigone (das tragédias da vida)


E para terminar um ciclo de quatro idas ao Barbican em menos de duas semanas, fui ver uma interpretação da tragédia grega Antígona. A versão que deu origem a esta peça não é a original da mitologia grega, mas antes uma "adaptação" feita por Sófocles, em que tudo começa com Antígona a quebrar a lei por querer dar um enterro digno ao seu irmão Polinices. Morto em batalha com o seu irmão Eteocles pelo direito a reinar em Tebes, Polinices não tem por lei direito a ser enterrado por ser considerado um traidor (porquê, não percebi muito bem). Mas Antígona não se coíbe de desafiar as leis e o rei Creon, seu tio, para poder adequadamente chorar a morte do seu irmão.
Daqui para a frente a tragédia só se adensa, como será de esperar, ou não fosse esta uma tragédia grega. A cenografia da peça optou pela simplicidade, com um cenário minimalista, bem ao estilo moderno. E o guarda-roupa das personagens também, a roçar o austero. O que posso, então, dizer sobre aquilo que vi?
Primeiro, claro que é uma emoção ver uma peça cuja interpretação principal fica a cargo da Juliette Binoche. Vê-la ali, à minha frente, no palco, quase parece mentira. Claro que acaba por desmistificar um pouco a figura, porque ela é, como seria de esperar, uma pessoa normal, tal como as outras. Agora em relação à peça, não fiquei completamente satisfeita. Nunca antes tinha vista uma peça desse género, não sei se tragédias são bem o meu estilo... E definitivamente a abordagem super moderna aos clássicos também não me caiu bem no goto. Mas pronto. Sem dúvida uma experiência muito interessante.

Carmina Burana, finalmente (ainda que em versão estudante)

Depois de anos e anos a namorar a ideia, finalmente surgiu a oportunidade de ouvir Carmina Burana, obra maior do compositor alemão Carl Orff. Calhou de ser no dia a seguir ao concerto de jazz de homenagem à Strata East, mas isso é um pormenor. 
Assim, em dias consecutivos, lá rumei eu mais uma vez até ao Barbican, a minha segunda casa. Para concertos, perceba-se.
Ainda que fosse interpretada pelo coro e orquestra da Westminster School (logo não completamente profissional), deu para tirar a barriga de misérias e realizar um desejo de há muito tempo. É uma obra da qual gosto realmente muito. Tem muita energia, algo que aprecio em música clássica. Faz-me sentir mais viva.

Um bocadinho de jazz para fechar o fim-de-semana

Há coisa de um mês atrás, naquele que foi o início de uma saga de concertos sobre a qual falarei muito por cá, fui mais uma vez até ao Barbican ver um concerto de jazz para descontrair. Domingo à noite, vinha mesmo a calhar.
O concerto foi de alguma forma uma homenagem à editora Strata East Records, fundada no início dos anos 1970 por Charles Tolliver e Stanley Cowell, tendo como principal objectivo o lançamento de obras de jazz um pouco mais obscuras e menos mainstream. No concerto pudemos contar com os dois fundadores, acompanhados ainda pelo baixista Cecil McBee, o saxofonista Billy Harper e o baterista Alvin Queen, e ainda com algumas presenças vocais. 
O concerto, curado por Gilles Peterson (o senhor que praticamente me "apresentou" ao mundo da world music há mais de 10 anos atrás - e sim, o jogo de palavras é propositado), foi muito agradável e interessante. Mais uma vez, momentos de muito introspecção (que podem ou não ser úteis...).

O virtuosismo do violino

Já lá vai quase um mês que regressei aos concertos de música clássica. Desafiada pela minha ex-companheira de casa, rumei até ao Southbank Centre para ouvir a Philarmonia Orchestra interpretar três peças de Jean Sibelius, compositor finlandês do final do século XIX, compostas especialmente para violino (instrumento da sua predilecção, aparentemente).
A minha relação com a música clássica é semelhante àquela que tenho com a arte em geral: não percebo muito, apenas estou ali para sentir. E é nisso que normalmente me concentro. Com a música clássica, desde que de alguma forma me toque, é um sentimento muito interessante. Perco-me completamente nos meus pensamentos, vagueio por realidades imaginadas, abandono-me quase por completo... Altamente terapêutico, na minha opinão. É por isso que gosto tanto de ir a este tipo de concertos. Faz-me bem à alma. 

(Uma nota em relação à música: nada contemplativa, bem proporcionada, forte e acutilante. Muito bom.)